loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
domingo, 15/03/2026 | Ano | Nº 6181
Maceió, AL
25° Tempo
Home > Caderno B

ENTREVISTA

Ator alagoano Igor de Araújo relembra bastidores do filme 'O Agente Secreto'

Ator interpreta o policial Sérgio no longa de Kleber Mendonça Filho, indicado a quatro Oscars, e relembra experiências no set e improvisos que marcaram as gravações

Ouvir
Compartilhar
Compartilhar no Facebook Compartilhar no Twitter Compartilhar no Whatsapp
O ator alagoano Igor de Araújo ao lado de Wagner Moura em "O Agente Secreto"
O ator alagoano Igor de Araújo ao lado de Wagner Moura em "O Agente Secreto" | Foto: Reprodução

A presença brasileira no Oscar deste ano ganhou um contorno especial para Alagoas. Entre os artistas que integram o elenco de O Agente Secreto, thriller dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, está o ator alagoano Igor de Araújo. Ele interpreta Sérgio, um policial civil que atravessa situações tensas e inusitadas da narrativa ambientada no Recife da década de 1970.

O filme chega à cerimônia deste domingo (15) com quatro indicações: melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator e melhor direção de elenco. Para Igor, a experiência de participar da produção se soma a um momento raro do cinema brasileiro no cenário internacional.

Em conversa com a Gazeta de Alagoas, o ator relembra o ambiente de filmagem, a convivência com Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho, episódios curiosos do set e a surpresa ao ver o filme alcançar repercussão mundial.

Gazeta de Alagoas — Como foi a experiência de estar no set de O Agente Secreto? O que mais te marcou durante as gravações?

Igor de Araújo — Foi uma grande experiência. Kleber Mendonça Filho é um diretor, merecidamente, muito celebrado e politicamente consciente do lugar onde vive, o Brasil; ele domina a linguagem cinematográfica com extrema habilidade e parece saber exatamente o que deseja transmitir em seus filmes, sem deixar de oferecer ao público a oportunidade de colaborar com os sentidos que a história pode alcançar. Contracenar com Wagner Moura também foi uma ótima experiência, um grande ator e uma pessoa muito gentil. Além deles, pude trabalhar com atores e atrizes de vários estados, todos de enorme talento. Fiz alguns amigos e pude ver a década de 70 na cidade do Recife ser recriada, isso, em especial, foi muito marcante.

Como você recebeu a notícia das indicações ao Oscar?

Eu estava trabalhando no momento das indicações e vi as mensagens chegando no WhatsApp. Foi um momento de muita alegria. Quando as quatro indicações foram anunciadas, todo mundo ficou extremamente feliz.


Houve algum momento específico no set que você guarda com mais carinho?

Acho que algumas improvisações durante as gravações foram os momentos de que mais me recordo, principalmente quando Kleber parecia aprovar. Por exemplo, a cena com Udo Kier, que interpretou Hans, um alfaiate judeu sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, foi talvez a mais inusitada que gravamos — e isso em um filme onde não faltaram situações inusitadas, ao menos para nós que interpretávamos policiais bastante suspeitos. Udo era alemão e precisava falar algumas frases em português, mas não conhecia o idioma. Já Wilson Rabelo, que interpretava seu companheiro, precisava falar algumas frases em alemão, mas também não conhecia a língua.

Durante a cena, um tradutor de alemão estava deitado no chão e soprava as falas para que Wilson acertasse a pronúncia com perfeição. Não houve tempo para ensaiarmos essa cena. O alemão é um idioma difícil, mas Wilson se saiu muito bem. Ninguém entendia direito o que estava sendo dito. Lembro que, na versão original, os policiais deixavam o personagem do alfaiate constrangido ao pedirem que ele exibisse as cicatrizes que tinha pelo corpo. Improvisei um som de metralhadora com a boca para perguntar ao alfaiate se as cicatrizes haviam sido causadas por tiros durante a guerra.

No roteiro, a cena terminava com as cicatrizes sendo mostradas e um close-up em Marcelo, personagem de Wagner Moura, visivelmente incomodado com a situação. Porém, durante as gravações, Udo Kier fez um improviso em que nos expulsava da alfaiataria, gritando em alemão. Nós não sabíamos muito bem se deveríamos reagir ou simplesmente ir embora. Quando terminamos de gravar, ninguém estava seguro sobre se a cena entraria no corte final, mas ela entrou — e foi uma grande cena. Udo faleceu após o lançamento do filme, e O Agente Secreto foi seu último trabalho.

Ver essa foto no Instagram

Um post compartilhado por AZÊ - Gerenciamento Artístico (@aze.artistico)

Como foi construir a personagem dentro dessa narrativa? Houve algum desafio especial?

No filme, interpreto Sérgio, um policial civil que, ao lado de outros dois policiais — vividos por Ítalo Martins e Robério Diógenes — se envolve em situações suspeitas e bastante inusitadas, como a história de uma perna humana encontrada na barriga de um tubarão. Esses personagens estão inseridos no contexto político da ditadura empresarial-militar brasileira e, simbolicamente, representam o abuso de poder e o autoritarismo frequentemente praticados no país. Eles utilizam a influência de que dispõem para o favorecimento pessoal, para a submissão de pessoas a situações vexatórias, para o justiçamento e para tantas outras atrocidades.

Não tivemos um longo período de preparação, apenas alguns dias. Mas o roteiro e as indicações de Kleber pareciam demonstrar com muita precisão o que essas personagens representavam. Cada ator colaborou com liberdade na construção dos modos e maneiras desses seres humanos. Leonardo Lacca, preparador de elenco, também foi um grande parceiro criativo e constantemente estava ao nosso lado.

Ver essa foto no Instagram

Um post compartilhado por Secult Alagoas (@secultal)

Como era a dinâmica entre o elenco e a equipe durante as gravações?

Uma ótima dinâmica. Embora estivesse trabalhando com grande parte da equipe pela primeira vez, sentia sempre uma sensação de familiaridade. Acho que todos estavam muito felizes por estarem ali, colaborando numa história tão simbólica para o Brasil, para o Nordeste e para o Recife.

Quando você olha para trás e vê seu nome em um filme que pode levar o Brasil novamente ao Oscar, o que passa pela sua cabeça?

Não sei bem o que dizer. É um tanto estranho para nós que fizemos o filme compreender a dimensão que foi alcançada por ele. Por ser algo novo, é difícil estabelecer paralelos. É como estar num avião e não perceber a real velocidade em que ele está. A única coisa que posso dizer é que estou feliz por ter feito parte dessa história.

Tags:

atores de Alagoas audiovisual brasileiro cinema alagoano cinema brasileiro Cinema nacional Cultura filmes brasileiros indicados ao Oscar Gazeta de Alagoas Igor de Araújo Kleber Mendonça Filho O Agente Secreto Oscar Oscar 2026 Wagner Moura

Relacionadas