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ENTREVISTA

Homero Cavalcante estreia no Theatro Homerinho e celebra 60 anos em cena

Ator apresenta o espetáculo “Você fala javanês?” em Maceió, nos dias 10, 11 e 12 de abril; em entrevista, fala sobre carreira, vaidade e a paixão que sustenta seis décadas de carreira em Alagoas

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Mestre do teatro alagoano sobe ao Theatro Homerinho pela primeira vez com comédia inspirada em Lima Barreto
Mestre do teatro alagoano sobe ao Theatro Homerinho pela primeira vez com comédia inspirada em Lima Barreto | Foto: @Ailton Cruz

Eram os anos 1950. Das primeiras cenas da vida, o ator alagoano Homero Cavalcante diz lembrar-se das manhãs ensolaradas no Centro, quando passeava de velocípede nos arredores do Teatro Deodoro. Nasceu e cresceu por ali, em uma rua estreita chamada de Beco do Maraba, com o templo da arte alagoana quase no quintal.

Hoje, aos 77 anos, o mestre da cena recorda o primeiro encontro com Dionísio e sua arte dramática. Foi ali mesmo, perto de casa, em um espetáculo suntuoso da renomada Cia. Internacional de Marionetes Rosana Picchi. O brilho tomou conta do palco do Deodoro, semeando sonhos nos corações de uma plateia lotada, incluindo um garoto que passou a sonhar com aquilo. “Eu fiquei enlouquecido”, relata.

Mas, depois, outro espetáculo de bonecos atravessou o caminho de Homero. Dessa vez, na Feira do Passarinho, também perto de casa. Diferentemente da outra peça, a montagem de rua era marcada por simplicidade, mas sobretudo por paixão. E ele entendeu que o encanto não era o brilho, era o teatro.

Peça "Você Fala Javanês?" fica em cartaz no Theatro Homerinho entre os dias 10 e 12 de abril, sempre às 19h
Peça "Você Fala Javanês?" fica em cartaz no Theatro Homerinho entre os dias 10 e 12 de abril, sempre às 19h | Foto: Divulgação

De lá para cá, Homero Cavalcante construiu uma das trajetórias mais completas do teatro alagoano. Ator, diretor e dramaturgo, escreveu dezenas de peças e assinou montagens que marcaram gerações. Ao lado da atriz Linda Mascarenhas, a grande dama do teatro alagoano, fundou a Associação Teatral de Alagoas, instituição que ajudou a lançar as bases do teatro moderno e contemporâneo no estado. E foi o seu nome, cheio de história e afeto, que batizou o Theatro Homerinho, localizado na Rua Sá e Albuquerque, em Jaraguá.

Além de artista, Homero é um professor dedicado. Na Escola Técnica de Artes da Ufal, formou gerações de atores, diretores e técnicos que hoje fazem sucesso tanto em Alagoas quanto no restante do Brasil. Homens e mulheres que carregam em cena um pouco do que aprenderam com ele. Um pouco do Homerinho.

Homero encara a guilhotina

E há um instante que Homero Cavalcante conhece melhor do que qualquer outro na vida. É quando ele está nos bastidores, com o público já acomodado à frente, prestes a entrar em cena. “Li certa vez uma declaração de um ator experiente que dizia que sentia como se estivesse com a cabeça à espera da lâmina da guilhotina cair”, conta o artista, antes de uma pequena pausa. “É muito pesado isso. Mas é um instante extraordinário. E é assim mesmo”, crava.

Homero celebra sessenta anos de teatro neste ano, mas garante que essa sensação ainda acompanha cada um dos minutos que antecedem sua entrada em cena. “Sem as borboletas [no estômago], sem essa coisa que dá dentro da gente, acabou”, reflete o veterano das ribaltas. Ele reconhece que tudo mudou: o tempo, os companheiros de cena, os palcos, o corpo. “Mas a guilhotina continua lá. Toda vez”.

Estrela maior das artes cênicas alagoanas apresenta a comédia “Você fala Javanês?” no Theatro Homerinho
Estrela maior das artes cênicas alagoanas apresenta a comédia “Você fala Javanês?” no Theatro Homerinho | Foto: @Ailton Cruz

Entre os dias 10 e 12 de abirl, Homero Cavalcante vai subir ao palco mais uma vez. No entanto, será, surpreendentemente, como se retornasse aos anos 1960, quando estreou ao lado de José Márcio Passos, de quem é amigo e parceiro de teatro até hoje. Quando as luzes do espetáculo “Você Fala Javanês?” se acenderem, será a estreia de Homero no Theatro Homerinho.

E foi justamente sobre as tábuas sagradas que levam seu nome, no teatro fundado e administrado pela atriz Ivana Iza, que Homero Cavalcante recebeu a reportagem. O dia estava chuvoso, destoando da alegria serelepe do ator. Antes de a entrevista começar, o mestre da cena reflete com leveza sobre os limites da idade, citando o exemplo do ator Othon Bastos, que, aos 92 anos, ainda atua com o auxílio de um ponto (profissional nos bastidores que sopra as falas quando ele esquece). Ele diz que o “teatro é bom, é justo” e acolhe atores de todas as idades. Isso o faz rir e observar que “tudo tem seu tempo”. Agora era hora de conversar.

GAZETA DE ALAGOAS. O que muda quando você entra num palco que tem o seu nome?

HOMERO CAVALCANTE. Me emociona, claro. Toda homenagem é bem-vinda e bem recebida — é um grande ato de generosidade da Ivana Iza. Me envaidece, no bom sentido, porque ela realiza um sonho dela e ao mesmo tempo mostra que o teatro continua com um público garantido, atendendo aos anseios da classe artística da cidade. É um teatro de 130 lugares, confortável, com boa caixa cênica, som, apoio técnico competente e educado. Isso me honra bastante. Mas não é a vaidade como arrogância — esse tipo de coisa eu acho horroroso. A vaidade que o artista deve ter é a de comungar com o teatro, que para mim é quase uma religião. A ação dramática em comunhão com a plateia é como um rito. E nesse espetáculo eu celebro também 60 anos de teatro. De repente, 60 anos de teatro.

Você mencionou há pouco que estava nervoso para a estreia. E que isso era como uma guilhotina à espera de um pescoço. Isso é normal após 60 anos de estrada?

Se não tiver, não faz parte da coisa. Quem tem paixão pelo teatro sabe que aquele momento antes de entrar em cena é diferente de todos os outros da vida comum. Você é ator e sabe muito bem disso. E sabe o que eu acho? Esse instante é melhor do que o aplauso. Quando vou receber os aplausos, me pego pensando: não estão aplaudindo a mim, estão aplaudindo o teatro como um todo. O ator é um instrumento. É o burrinho que carrega o teatro para que o teatro triunfe.


O que um ator ganha e o que perde com o tempo?

O tempo é o senhor absoluto. A maturidade faz a gente perceber quanta coisa poderia ter sido feita melhor — não por culpa exclusiva sua, mas por circunstâncias diversas. Quando vejo fotos de 50 anos atrás, penso: “Meu Deus, que coisa”. Isso mostra que evoluímos na sensibilidade, na percepção de que aquilo poderia ser mais elaborado. Por outro lado, o corpo já não é o mesmo. Mas o teatro é generoso — tem espaço para os velhinhos e para os jovenzinhos. O ator maduro compreende melhor o que é essa paixão e o que ela significa para a comunidade em que vive. As reflexões chegam naturalmente, e a vontade de parar… não vem.

Homero Cavalcante em entrevista ao jornalista Maylson Honorato antes de estrear no Theatro Homerinho, em Maceió
Homero Cavalcante em entrevista ao jornalista Maylson Honorato antes de estrear no Theatro Homerinho, em Maceió | Foto: @Ailton Cruz

O que orgulha o senhor em tudo o que foi construído na sua trajetória?

Permanecer fiel ao teatro. Nunca planejei isso — fui puxado pelo próprio ato. Nasci perto de Deodoro, ia assistir espetáculos, mas nunca quis fazer. Há 60 anos, me convidaram — junto com o Zé Márcio Passos — para uma leitura de uma peça, de Luiz Marinho. O diretor precisava de gente e nos pegou praticamente na rua. Fomos por ir. Mas aí encontramos a Linda Mascarenhas, que nos viu e nos convidou para a casa dela. Eu disse que não tinha interesse, mas acabei indo. E ela abriu o encantamento do teatro pra mim. Até o fim da vida — ela morreu com 96 anos, quase no leito — ela ainda queria marcar reunião para escolher um texto. Morrendo e sonhando com teatro. Então, voltando à pergunta: o que me orgulha é isso, espero que até meus últimos momentos eu esteja consciente fazendo uma cena. É uma loucura, mas é a paixão que move a gente, não o talento. Nunca me considerei um talento extraordinário, de coração.

O senhor está presente em quase todos os espetáculos que acontecem na cidade. Por quê?

Quase, não. Em todos. Só se eu não souber. Vou a todos porque é, primeiro, respeito ao teatro. Nem todo espetáculo é do meu agrado — às vezes o texto, a direção, a forma de apresentar não me agrada —, mas afinal aquele ato vai acontecer. Como é que eu sou da coisa e não vou participar? É quase uma obrigação, como ir à missa aos domingos. Lembro que fui 19 vezes a uma peça dos alunos dirigida pelo David [Farias]. Não é para prestigiar ninguém — isso eu detesto. Eu vou porque é o teatro; o diretor já entra por tabela. E fico frustrado quando vejo gente da classe que não vai aos espetáculos dos colegas. Como é que você sabe o que está acontecendo na sua cidade? Como aprende?

O senhor ainda aprende?

Não sei nada. Estou ensaiando com dois atores jovens e eles me fazem descobrir coisas todo dia — nuances, malícias. É eterno isso. Por isso não se pode ter vaidade nenhuma. Somos instrumentos, volto a dizer, o jumentinho carregando o teatro para que ele triunfe.

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O que é o teatro para você?

Minha paixão maior. Claro que todo mundo tem várias paixões. Eu tenho pelo mar, pelo céu azul, pelas pessoas que a gente quer bem. Mas o teatro é, claro, a paixão maior.

Como o senhor quer ser lembrado?

Não faço questão de ser lembrado. Lembrar para quê? Ninguém vai lembrar por muito tempo — e tudo bem. Nunca imaginei ter um teatro com meu nome. Graças a Deus a Ivana é sábia e me conhece bem: não foi uma homenagem cabotina, foi espontânea e generosa. E ela sabia que eu odiaria se o teatro se chamasse Homero Cavalcante. Homerinho é lindo. Mas assim, tem tantos atores extraordinários que ninguém mais lembra. A memória do teatro é efêmera — como o teatro mesmo. O que importa é aquele momento em que a magia acontece. Quando o cenário da peça vai embora, é desmontado, a magia fica. Eu reverencio os que vieram antes de mim, mesmo os que nunca conheci — sem eles não estaríamos aqui. Mas essa ideia de querer ser lembrado… é uma grande besteira.

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O espetáculo “Você fala javanês?” é uma adaptação do conto de Lima Barreto com dramaturgia de Leda Guerra e elenco formado por Homero Cavalcante, João Victor Régis e Mitchel Leonardo. As apresentações serão nos dias 10, 11 e 12 de abril, às 19h30, no Theatro Homerinho, em Jaraguá. Ingressos disponíveis pelo Sympla, na bilheteria do teatro (segunda a terça, das 11h às 17h) e pelo telefone (82) 99990-2389. Mais informações também podem ser obtidas por meio do perfil do espetáculo no Instagram (@vocefalajavanes).

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