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Estrelada por Cláudia Raia, espetáculo aborda os tabus que envolvem a maturidade feminina

Espetáculo “Cenas da Menopausa”, dirigido por Jarbas Homem de Mello, terá sessões no Teatro Gustavo Leite nos dias 9 e 10 de maio

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Imagem ilustrativa da imagem Estrelada por Cláudia Raia, espetáculo aborda os tabus que envolvem a maturidade feminina
| Foto: Divulgação

O calor sobe pelo pescoço, alcança o rosto, transforma o ar-condicionado num amigo próximo. A insônia chega sem avisar, às três da manhã. E fica. A névoa mental embaralha o nome da rua, o nome do filho, o nome do remédio. Vem a tristeza, o corpo que se desfez do antigo manual, a dor que não estava ali ontem. E vem, também, um silêncio incômodo para mulheres que passam anos achando que estão com Alzheimer. Que estão enlouquecendo. Que estão sozinhas naquilo. Que, talvez, não devam falar sobre a menopausa.

Muita coisa cabe dentro de um tabu. Cláudia Raia viveu assim, conta. Aos 50 anos, de repente, os sintomas chegaram. E ela, uma das atrizes mais reconhecidas do teatro e da televisão brasileira, não sabia nomear o que estava acontecendo com o próprio corpo. “Foi um baque. De repente, eu não era mais aquela mulher cheia de energia. Eu tinha calores insuportáveis, dores nas pernas, insônia e uma tristeza que não combinava comigo. Sempre fui muito alegre e pra cima e aquilo não era eu”, desabafa.

Foram o marido, Jarbas Homem de Mello, e os filhos da atriz que saíram em busca de descobrir o que estava acontecendo. “Eu e os filhos da Claudia identificamos que ela estava entrando na menopausa”, conta Jarbas, em entrevista concedida pelo casal ao Caderno B. “Foi realmente um período muito desafiador, ela mudou bastante. Mas sempre falamos disso com muita sensibilidade. A partir disso, fomos buscar tratamentos e houve uma virada”.

Desse processo íntimo, trabalhoso e por vezes desconcertante, nasceu “Cenas da Menopausa”. A peça, escrita por Anna Toledo e dirigida pelo próprio Jarbas, chega a Maceió para duas sessões no Teatro Gustavo Leite, em Jaraguá, no próximo sábado, 9 de maio, às 20h, e no domingo, 10, às 17h. Em três anos de temporadas no Brasil e em Portugal, o espetáculo reuniu mais de 200 mil espectadores. Cláudia e Jarbas dividem o palco: ela faz diversas mulheres; ele faz o resto, maridos, filhos, médicos, a Madonna, uma freira e uma tia chamada Judite. “Como não amar uma tia que parece toda conservadora, mas tem uma coleção de vibradores?”, pergunta Jarbas, rindo. “Ela é o máximo”.

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A leveza é calculada no espetáculo. Cláudia Raia é dirigida e contracena com o marido. Eles refletem que o humor é a única forma de fazer caber, numa plateia de sábado ou domingo à noite, o peso de uma fase que a cultura tratou por décadas como assunto privado — quando tratou. “As mulheres querem falar”, diz Cláudia Raia. “Querem tirar o esparadrapo da boca, querem ser ouvidas e acolhidas”.

As mulheres querem falar. Querem tirar o esparadrapo da boca, querem ser ouvidas e acolhidas.

Cláudia Raia - Atriz

Cláudia Raia sempre foi vista pelo Brasil como uma diva implacável com força sobre-humana. Nesse processo do espetáculo, ela diz ter se deparado com o desafio de lidar com a própria vulnerabilidade. Mas ela decidiu reinventar o que é ser uma diva. “Eu tive que me desconstruir, sim, mas ao mesmo tempo entendi que as mulheres voltam com uma potência ainda maior quando se reencontram. Isso é transformador. E no palco isso ficou muito claro porque eu entendi que precisava estar vulnerável como pessoa. Por isso criamos um espaço de bate-papo no final do espetáculo. Nesse momento acontece tudo, risadas, emoção, acolhimento e histórias muito transformadoras”, reflete a atriz.

Durante os ensaios, Cláudia Raia revela que voltou a sentir os sintomas que a haviam sacudido anos antes. “Tudo de novo. Era como se meu corpo estivesse reagindo ao que eu estava contando em cena. Era como ver a minha vida sendo encenada no palco”. Para Jarbas Homem de Mello, foi essa simbiose entre vida e cena que deu liga ao espetáculo. “Trouxe para o palco uma verdade muito concreta”.

O bate-papo citado pelos artistas faz o microfone circular pela plateia. “Ali acontece uma catarse. São mulheres que achavam que estavam com Alzheimer ou que estavam ‘loucas’ e descobrem que é menopausa. E não são só mulheres, tem homens e jovens também. Eles falam coisas que eu nunca esperava ouvir, como reconhecerem o que as suas mães passaram e entenderem a esposa pela primeira vez”, conta Cláudia.

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| Foto: Divulgação

Jarbas diz que já viu essa roda de conversa durar até 40 minutos. Às vezes mais. “Muitos contam suas histórias, se desculpam com suas mulheres, acompanhamos cenas lindas ali de reconciliação e perdão. Fica evidente que não é só um espetáculo. É informação, acolhimento e transformação, tudo junto”, afirma o ator-diretor. Para ele, a peça reposicionou os homens diante de um assunto que sempre foi tratado como alheio. “A menopausa não é apenas um tema feminino isolado, ela atravessa relações, famílias e dinâmicas sociais. O homem também passa por isso na andropausa, mas de uma forma muito mais leve. Muitos homens chegam sem nenhuma informação sobre o tema e saem com outro nível de consciência. Isso muda a forma como eles enxergam mães, parceiras e colegas”, continua Jarbas.

De cidade em cidade, o casal diz que uma mesma queixa ressurge no microfone: a dificuldade de encontrar médicos preparados para orientar a reposição hormonal. Cláudia já aprendeu a esperar esse assunto surgir e diz que isso faz parte da experiência do teatro, de proximidade, de encontro entre a magia e a realidade nua e crua. “Isso aparece em todos os lugares por onde passamos, inclusive em Portugal”. A roda termina com mulheres trocando indicações entre si, um boca a boca de saúde pública que escorregou pelas frestas do teatro. “Percebi que muitas mulheres passam por isso sem informação, sem acolhimento e, muitas vezes, se sentindo sozinhas”, diz ela. “A peça nasce desse lugar: de transformar uma experiência individual em um serviço público”.

HÁ MUITA VIDA DEPOIS DOS 50

As pessoas precisam entender que a menopausa não é o fim de nada, é o começo de um novo ato.

Cláudia Raia - Atriz

Na estrada pelo Brasil, a atriz conta que encontra mulheres que abriram o próprio negócio, romperam casamentos que já estavam mortos, reaprenderam o gosto pelo mundo. Tudo depois dos 50. “É uma fase de muita potência. Quando isso chega na roda de conversa tudo se transforma porque as pessoas se reconhecem, se acolhem e aquilo vira uma cura coletiva. É um espetáculo humano”.

Cláudia fará 60 anos em setembro. E ela diz que sobe ao palco para dar corpo ao feminino que o mercado tenta tornar invisível. “A mulher de 50 hoje não é invisível, ela é ativa, produtiva, criativa e potente. Mas existe uma tentativa de apagamento, um etarismo grande no mercado de trabalho, e isso precisa mudar”, diz a atriz. “A mulher na maturidade pode ser revolucionária”, completa.

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| Foto: Divulgação

Quando começou a falar sobre menopausa nas redes sociais, no entanto, as críticas chegaram. Ela não recuou. “Sempre falei de assuntos que são tabu: sexualidade feminina, prazer, etarismo, diversidade, menopausa. No começo vieram críticas e julgamentos, mas também vieram muitas mulheres dizendo que estavam passando por isso e nunca tinham tido coragem de falar”.

A medida do que valeu está nos homens que pegam o microfone depois da peça e pedem desculpas à mãe, à esposa, à filha. “Hoje, depois de mais de 200 mil espectadores, eu tenho certeza de que valeu cada conversa, cada exposição e cada vulnerabilidade exposta. É um momento de cura coletiva, entremeada por teatro, por música e muita risada também. É isso que estamos levando também pra Maceió”, finaliza Cláudia Raia.

SERVIÇO

  • O quê: Peça “Cenas da Menopausa”, com Cláudia Raia e Jarbas Homem de Mello
  • Onde: Teatro Gustavo Leite (Rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá - Maceió).
  • Quando: 9 de maio, sábado, às 20h; e 10 de maio, domingo, às 17h
  • Abertura da casa uma hora antes.
  • Quanto: De R$ 100 a R$ 300
  • Vendas: Viva Alagoas (Maceió Shopping), Barão 486 (Passeio Stella Maris, Jatiúca) e em ingressodigital.com

Tags:

artes cênicas claudia raia Cultura entretenimento espetáculo maceió menopausa saúde Teatro

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