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ENTREVISTA

Chico Elpídio volta aos palcos com show no Theatro Homerinho

Compositor revisita trajetória marcada por sofisticação melódica, memória afetiva e ligação profunda com Alagoas

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Imagem ilustrativa da imagem Chico Elpídio volta aos palcos com show no Theatro Homerinho
| Foto: Divulgação

Há artistas que atravessam o tempo sem precisar correr atrás dele. Chico Elpídio é um desses nomes. Dono de uma obra marcada pela delicadeza melódica, sofisticação harmônica e por uma profunda ligação com Alagoas, o compositor maceioense retorna aos palcos nesta quinta-feira (28), no Theatro Homerinho, com o espetáculo Pétalas sem cor. O show marca um reencontro com o público e a continuidade de uma trajetória construída com sensibilidade ao longo de décadas.

Com uma voz suave e canções que passeiam por diversos ritmos, Chico pertence a uma geração de compositores que aprendeu a enxergar a música como poesia. Em entrevista exclusiva, ele afirma que sua forma de compor amadureceu junto com a própria vida. “Venho de uma geração que aprendeu a ouvir e valorizar a profundidade da música brasileira”, diz.

Entre suas maiores referências, nomes como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Milton Nascimento e Egberto Gismonti — artistas que, segundo ele, conseguiram unir “sofisticação melódica, riqueza harmônica e letras de grande profundidade poética”.

A relação com a terra natal também atravessa toda a sua discografia. Nascido em Maceió, Chico Elpídio transformou paisagens, memórias e símbolos alagoanos em matéria-prima para suas composições. Canções como “Maceió, meu Xodó”, em parceria com Geraldo Rebelo, traduzem esse vínculo afetivo com a cidade.

Muito antes do trabalho mais recente, Chico Elpídio já ocupava um lugar importante na história da música alagoana. Nos anos 1970, foi um dos idealizadores do lendário Grupo Terra, coletivo formado exclusivamente por artistas alagoanos que ajudou a consolidar uma identidade musical regional sem abrir mão da universalidade da música brasileira.

Em meio aos festivais estudantis, aos shows no Teatro Deodoro e a apresentações históricas, o grupo transformou referências da cultura popular nordestina em canções.

Agora, ao retornar com um espetáculo intimista, Chico Elpídio parece reafirmar aquilo que sempre guiou sua obra: o compromisso com uma música feita de memória, afeto e pertencimento.

CADERNO B. Depois de um período mais afastado dos palcos, o que motivou esse retorno agora? O que esse reencontro com o público representa para você neste momento da vida?

CHICO ELPÍDIO. O que me motiva nesse retorno é o reencontro com a minha geração, uma geração que ouvia música com atenção, que sabia perceber nas entrelinhas a mensagem, a poesia e os sentimentos contidos em cada canção. O show Pétalas sem cor representa justamente esse momento de reconexão: comigo mesmo, com minha trajetória e com o público que acompanhou minha caminhada musical ao longo dos anos. Voltar aos palcos agora tem um significado muito especial, porque a música continua sendo meu instrumento de diálogo, emoção e memória afetiva.

Você participou ativamente da cena dos festivais alagoanos. Que lembranças guarda daquele período e como avalia a importância desses festivais?

As lembranças desse período são muitas e inesquecíveis. Os festivais tiveram um papel muito importante na minha trajetória e também na história da música alagoana. Entre os momentos mais marcantes, guardo com muito carinho a conquista do IV Festival Universitário, promovido pelo DCE da Ufal, quando fomos vencedores com a música “Canto do Chão”, em parceria com meu irmão Edson Bezerra e César Rodrigues. Mas, mais do que os prêmios, o que ficou foi a riqueza daquele ambiente de criação, troca e descoberta. Foi uma época em que muitos talentos surgiram e encontraram voz. Tenho orgulho de ter participado desse movimento e de ter vivido um período tão fértil para a nossa cultura.

O Grupo Terra nasceu em um contexto de efervescência cultural e de tensão política. Como aquele cenário atravessava o grupo?

O cenário daquela época era extremamente intenso e inspirador para quem fazia arte. Vivíamos um período de grande efervescência cultural, mas também de muita tensão. E, para quem compõe, não existe matéria-prima mais forte do que a realidade ao redor.

O Grupo Terra fez uma opção muito clara por uma sonoridade mais acústica e orgânica. Nossa formação era baseada em violão, viola, contrabaixo, flauta e percussão, instrumentos que nos aproximavam naturalmente das raízes da cultura popular brasileira e nordestina. Nosso interesse era observar o cotidiano, os costumes, as transformações da cidade e da sociedade, transformando tudo isso em música.

Um exemplo marcante foi o espetáculo Velhos Casarões, que nasceu da observação da demolição dos antigos casarões de Maceió. Aquela perda da memória arquitetônica e afetiva da cidade nos sensibilizou profundamente.

Os compositores do grupo — eu, Edson Bezerra, Marcus Maceió e Eliezer — vivíamos muito atentos ao que acontecia ao nosso redor. Havia sempre essa preocupação de produzir uma música conectada com a realidade, com a cultura e com a alma do nosso povo.

Algumas músicas do Grupo Terra chegaram a trilhas de novelas. Como foi viver aquele momento de projeção nacional?

Foi um momento único e muito marcante para todos nós do Grupo Terra. Tudo começou a partir de um convite de Rolando Boldrin para participarmos do programa Som Brasil. Aquela apresentação teve uma importância enorme, porque permitiu que o trabalho do grupo fosse visto nacionalmente em toda a sua dimensão artística e cultural.

A partir dali, a música produzida por nós começou a alcançar outros públicos e ganhar novos espaços. Posteriormente, fomos informados pela direção da Rede Bandeirantes, núcleo Nordeste, da inclusão de três músicas do Grupo Terra nas novelas O Meu Pé de Laranja Lima e Rosa Baiana. Aquilo nos deu a certeza de que a cultura alagoana tinha força, qualidade e universalidade.

Existe alguma memória marcante dos bastidores do Grupo Terra?

Existem inúmeras histórias marcantes daquele período, mas uma delas continua muito viva na minha memória pelo lado divertido e espontâneo. Estávamos no camarim do Teatro Deodoro, nos preparando para um show em que o Grupo Terra faria uma apresentação e acompanharia João do Vale, autor de “Carcará”. Assim que entrou no camarim, João olhou para todos nós e perguntou em voz alta: “Cadê o fumo?”. A turma respondeu que não tinha nada, e ele, com aquele jeito irreverente e bem-humorado, esbravejou: “Que camarim fraco da porra!”.

Essas convivências, os bastidores, as viagens e os festivais acabaram criando memórias afetivas que permanecem até hoje.

Em canções como Maceió, meu Xodó, a relação com a terra natal aparece de forma muito afetiva. De que maneira Alagoas continua inspirando sua música e sua escrita?

Sou profundamente apaixonado por Maceió e por Alagoas. Pouca gente percebe, mas o próprio mapa de Maceió lembra um coração, e talvez seja por isso que essa cidade desperte tanto afeto em quem vive aqui ou a visita. A orla, o mar, as lagoas, o povo e as belezas naturais têm uma força inspiradora muito grande para mim.

Em “Maceió, Meu Xodó”, eu e Geraldo Rebelo procuramos justamente traduzir esse sentimento, descrevendo a beleza e o encanto dessa cidade tão singular. É uma canção feita com emoção verdadeira, porque fala de um lugar que faz parte da nossa identidade, da nossa memória afetiva e da nossa maneira de ver o mundo.

Muitos artistas da nova geração talvez estejam descobrindo agora a trajetória do Grupo Terra e da sua obra. O que você gostaria que permanecesse como legado dessa história para a música alagoana?

Gostaria que permanecesse o compromisso com a valorização da cultura alagoana, da nossa identidade e das nossas raízes. O Grupo Terra sempre procurou cantar Alagoas com verdade, poesia e respeito às tradições populares, sem deixar de dialogar com o novo. Se as novas gerações puderem enxergar nessa trajetória um incentivo para preservar a essência da nossa música, ao mesmo tempo em que renovam a linguagem artística, já será um grande legado.

*Sob supervisão da editoria de Cultura

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