ENTREVISTA
‘Eu não mudei, a indústria do cinema sim’, diz Richard Gere
Em entrevista, o ator americano de 76 anos fala sobre a 2ª temporada da série de espionagem ‘A Agência’, da Paramount+
O galã Richard Gere não perdeu o charme aos 76 anos. Ao descobrir que o repórter do Estadão era do Brasil, perguntou em bom português: “Ei, tudo bom?”, antes de explicar que conhece o idioma e o País por causa da artista Sylvia Martins, com quem ele se relacionou por cerca de oito anos, décadas atrás. “Minha primeira namorada de verdade é do Rio Grande do Sul, de Bagé”, lembra o ator, hoje casado com a ativista espanhola Alejandra Gere.
A entrevista, é claro, não tinha como objetivo tratar das aventuras amorosas do astro americano, mas sim abordar a 2ª temporada da série de espionagem A Agência, que chega ao Paramount+ em 21 de junho.
A produção lançada em 2024 marcou a estreia de Gere no streaming após ele passar anos se dedicando a filmes mais independentes, como Oh, Canadá (2024), Norman: Confie em Mim (2016), Sempre ao Seu Lado (2009) e Não Estou Lá (2007), uma tendência diferente daquela que consolidou seu estrelato em Hollywood, marcada pelo sucesso de Gigolô Americano (1980), A Força do Destino (1982) e Uma Linda Mulher (1990).
“Eu não mudei, a indústria cinematográfica sim”, diz Gere com serenidade, exibindo os cabelos brancos que hoje lhe conferem uma aura de sabedoria. “Os filmes que estou fazendo agora são, basicamente, produções independentes com roteiros e personagens interessantes. Esses são os filmes que, quando eu comecei, os estúdios faziam. Mas os estúdios não os produzem mais. Então fazemos esses pequenos filmes e depois precisamos lutar para encontrar um lugar onde eles possam ser vistos”.
O ator afirma que toda a indústria, especialmente o setor de exibição, virou “de cabeça para baixo”. “Não existem tantas salas de cinema quanto antes. Os grandes estúdios e os filmes de grandes franquias ocupam praticamente todas as telas. Eu não quero ser conhecido apenas como uma entidade do streaming. Quero que as pessoas vão ao cinema”, ressalta.
Os esforços da CIA
Em A Agência, adaptação do seriado francês Le Bureau Des Légendes desenvolvida pelos ingleses Jez Butterworth e John-Henry Butterworth, ele interpreta James Bradley, codinome ‘Bosko’, chefe da estação da CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos) em Londres.
Na 1ª temporada, a narrativa acompanhou os esforços da unidade para resgatar um agente infiltrado na Bielorrússia após seu sequestro por um grupo de mercenários. Paralelamente, o telespectador conhece a vida do espião Martian, vivido pelo protagonista Michael Fassbender, cuja identidade dupla, bem como as exigências de seu trabalho, passam a colidir com seus relacionamentos pessoais.
Completam o elenco estrelado nomes como Jeffrey Wright, Katherine Waterston, John Magaro, Dominic West e Jodie Turner-Smith. Alguns capítulos são dirigidos pelo experiente Joe Wright (Orgulho e Preconceito, O Destino de Uma Nação).
A relação conflitante entre o lado profissional e pessoal dos integrantes daquela organização é um aspecto que pode evocar paralelos com a célebre carreira de Gere. Para compor o personagem, o ator conta ter buscado transmitir a experiência acumulada ao longo de décadas, incorporando também uma dose de ceticismo diante das estruturas de poder e da autoridade que Bosko representa.
“Considerando a minha idade e o fato de que atuo desde os 19 anos, há muito tempo, acho que existe uma certa expectativa de que eu seja uma das lideranças no set quando estamos filmando. Eu realmente estou ali pelas pessoas que trabalham sob meu comando, para mim e comigo. E cada ação de Bosko é tomada especificamente em função delas, equilibrando as necessidades do império americano”, compara ele.
Séries de espionagem em alta
A chegada de Gere ao universo do streaming ocorre em um momento particularmente favorável para atrações de espionagem, gênero que vive uma fase de renovação e grande popularidade. Nos últimos anos, séries como Slow Horses, O Gerente da Noite, Teerã, Black Doves, entre outras, ajudaram a revitalizar o interesse por histórias de agentes secretos e dilemas morais ligados à segurança nacional. Antes delas, Homeland e The Americans já haviam trazido complexidade ao estilo na televisão americana.
“Eu realmente não conheço todos esses programas”, confessa Gere. “Mas eu sei que esta série [A Agência] é muito bem escrita. Ela conta com dramaturgos e roteiristas excelentes, que entendem de personagens e escrevem diálogos muito bonitos. Também fico impressionado com o alto nível de atuação. É sempre divertido trabalhar com um material de qualidade e ter tempo suficiente para desenvolvê-lo. O cronograma de filmagens desta série é como o de um filme. Não precisamos gravar dez páginas por dia, fazemos três ou quatro por dia. Isso é ritmo de cinema. E há recursos suficientes para que tudo tenha uma aparência excelente. No fim das contas, para mim, parece essencialmente um filme”, finaliza.