ARTE NA COPA
Seleção em rimas à espera do hexa: ‘o encontro das galáxias’
Em cordel, o alagoano Marcos Brandão transforma a convocação brasileira em poesia popular e revela como o futebol ultrapassa os estádios para habitar a cultura e a memória do país
“O povo até esquecia / aumento da gasolina / do diesel e do feijão / mudaram até a rotina / o assunto era Neymar”. Os versos, retirados do cordel “A convocação do Neymar na seleção e os 25 convocados”, do alagoano Marcos Brandão, ilustra bem a relação do brasileiro com a Copa do Mundo.
Nos quatros anos que antecedem o torneio, são várias etapas de preparação: especulação sobre os jogadores, músicas, dancinhas, roupas no verde e amarelo, ruas pintadas - a lista é longa. Fato é que a copa é um sentimento coletivo no Brasil e, como qualquer outro, encontra diferentes esferas da sociedade: moda, música, literatura. No Nordeste, esse sentimento também ganha forma em sextilhas, rimas e folhetos.
Aos 63 anos, o rio-larguense Marcos Brandão reúne diferentes experiências em sua trajetória: formado em técnico em agropecuária, passou pelo curso de iniciação ao teatro da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e encontrou na Literatura de Cordel um espaço definitivo para a escrita. O incentivo veio cedo, após um professor de português elogiar seus textos. Pouco tempo depois, o contato com o cordelista Jorge Calheiros ajudaria a consolidar esse caminho.
Com uma bagagem de doze títulos, foi na copa que Marcos encontrou um gancho para acalentar o coração dos brasileiros. Segundo o cordelista, a união entre esporte e literatura popular nordestina foi o “encontro das galáxias”, nas palavras do autor. “Como estamos falando de duas paixões nacionais, juntando com uma pitadinha do Nordeste, podemos usar aquele velho ditado que juntou o útil ao agradável, né?”, fala.
Ele conta que, por se tratar de um assunto que já estava na boca do povo, foi fácil fazer algo que chamasse a atenção dos leitores. “O cordel é um dos gêneros literários mais populares que existem e atinge as diversas camadas da sociedade. Como cordelista, eu aproveitei esse momento para fazer algo assim que chamasse a atenção dos leitores, que foi a convocação do Neymar, a Seleção Brasileira para disputar a Copa do Mundo”, afirma.
Versos para os convocados
O cordel foi lançado alguns dias após a divulgação da lista de convocados e, embora gire em torno da ida de Neymar à seleção, o artista fez questão de rimar com o nome dos 25 jogadores - o que ele afirma não ter sido uma tarefa fácil.
“A princípio a ideia era fazer um cordel exclusivo da convocação do Neymar na Copa do Mundo, mas à medida que fui criando estrofes, percebi que precisava incluir os demais jogadores. Pois Ancelotti não só convocou o Neymar, mas 26. A minha preocupação foi rimar com todos eles, não foi fácil, encontrei algumas dificuldades, mas fui usando as minhas técnicas de métrica”, afirma Marcos.
Segundo ele, alguns jogadores tinham nomes mais simples, o que facilitou a rima, mas no caso de jogadores como Igor Thiago, que jogam em times internacionais, a coisa complicou para o cordelista.
Muito antes das redes sociais e dos aplicativos de mensagens, o cordel já cumpria a função de comentar o cotidiano. Secas, episódios políticos, histórias de amor, acontecimentos extraordinários e fatos circunstanciais eram transformados em versos vendidos nas feiras nordestinas. Em muitos casos, os folhetos funcionavam como uma espécie de jornal popular.
“E eu como cordelista já sabia o resultado”. Se Marcos, na segunda página do livreto, já sabia como terminaria a escalação dos jogadores da Copa, também sabiam os demais artistas nos acontecimentos históricos e cotidianos do país.
Não há um consenso sobre a chegada da Literatura de Cordel ao Brasil - há quem diga que foi pelos portugueses -, mas foi em meados do século XIV, com Leandro Gomes de Barros, que ele ganhou corpo como conhecemos hoje. De acordo com especialistas, o gênero serviu como uma missão social por muito tempo, principalmente nas feiras.
Reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2018, o Cordel está em várias camadas da sociedade.
Em Alagoas, a Academia Alagoana de Literatura de Cordel tem ajudado esses artistas. “Ela veio como um suporte básico para nós, cordelistas, que amamos essa arte, significando a continuidade para esse gênero. O Cordel foi instituído como patrimônio imaterial brasileiro, então ele é nosso agora, é do Brasil”, diz Marcos.
Se o cordel acompanhou acontecimentos que marcaram diferentes períodos da história brasileira, a Copa do Mundo também ocupa um lugar singular no imaginário nacional. É justamente essa dimensão coletiva do futebol que ajuda a explicar por que a Seleção Brasileira continua inspirando manifestações culturais tão diversas.
E essa relação ultrapassa gerações. Mesmo aqueles que nunca viram o Brasil levantar a taça do mundo carregam consigo a expectativa pelo tão sonhado hexacampeonato.
Quando a bola acha as letras
O dia 30 de junho de 2002, por exemplo, tornou-se uma das datas mais marcantes da história recente do Brasil. Foi quando a Seleção Brasileira de futebol venceu a Alemanha por 2x0 e sagrou-se pentacampeã mundial, título que ostenta de maneira isolada até hoje. Contudo, faz quase 24 anos que a seleção canarinho não sabe o que é gritar: “somos campeões!” após uma final de Copa. Uma geração inteira de pessoas não viu o Brasil subir no topo do mundo, mas mesmo assim, a cada quatro anos todos os brasileiros se reúnem para torcer pelo hexa.
Como explicar essa paixão quase cega de 210 milhões de pessoas? O período pré-Copa parece agir como um feitiço na população, fazendo com que praticamente todo mundo fale apenas da maior competição futebolística do mundo, como relata o cordelista: “Eu provo o quanto o povo brasileiro é apaixonado pelo futebol. E nesse período de Copa do Mundo, as interações estão voltadas para esse assunto”, diz.
Torcer pela seleção brasileira vai muito além de torcer para 26 jogadores escolhidos para representar um país inteiro. O povo torce pelo Brasil, independentemente de quem o represente. Se em algum momento nós torcíamos para que a seleção continuasse soberana no futebol, hoje torcemos para que ela retome o topo ao qual pertence.
“Realmente é a Copa do Mundo. Ela tem um poder muito grande em atrair as pessoas para esse esporte que é a paixão do brasileiro. Que é o futebol. Parece até que o Brasil para nesse período para assistir aos jogos da Copa do Mundo”, conta o artista.
Marcos Brandão entende perfeitamente a paixão do brasileiro pelo futebol e o sentimento que une a população a cada quatro anos, renovando a esperança de ver novamente a maior campeã da história das Copas do Mundo no topo.
Talvez seja justamente por isso que a convocação da Seleção tenha encontrado espaço nas páginas de um folheto nordestino. Ao transformar nomes, expectativas e previsões em versos, Brandão faz o que tantos cordelistas fizeram antes dele: registra aquilo que mobiliza o povo. E se a Copa do Mundo é capaz de parar o país por algumas semanas, o Cordel garante que esse sentimento permaneça vivo na memória coletiva muito depois do apito final.