E-GAZETA
Piratas voltam aos holofotes com novo “Assassin’s Creed”
Novo jogo é releitura de aventura lançada em 2013; corsários possuem longa tradição na cultura pop
Sob um céu azul-claro quase sem nuvens, as ondas batem contra o Jackdaw. As velas tremulam ao vento. Ao longe, embarcações de um único mastro navegam pelo oceano. A estibordo, estendem-se praias desertas de areia cercadas por palmeiras. Estou ao leme do meu navio pirata, ouvindo a tripulação que acaba de começar mais uma canção marítima. O doce aroma da liberdade sopra em meu rosto – embora, na realidade, eu esteja apenas sentado no sofá jogando Assassin’s Creed Black Flag Resynced.
O jogo é uma nova versão completamente reformulada da bem-sucedida aventura pirata lançada em 2013. É provável que ele, com gráficos atualizados e algumas missões adicionais, também agrade aos jogadores, afinal, aventuras de piratas nunca saem de moda. Na cultura popular, elas possuem uma longa tradição.
Escritores como Emilio Salgari (1862–1911) e Rafael Sabatini (1875–1950) escreveram inúmeras histórias de piratas, que mais tarde serviram de inspiração para produções de Hollywood de grande sucesso, entre elas Capitão Blood (1935) e O Cisne Negro (1942).
O romance de aventura A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, publicado em 1883, também foi adaptado diversas vezes para o cinema. A atração temática Pirates of the Caribbean do parque Disneyland inspirou o desenvolvedor Ron Gilbert a criar a série de videogames Monkey Island, cujo primeiro título foi lançado em 1990. Tanto a atração da Disney quanto o jogo serviram posteriormente de inspiração para a série de filmes Piratas do Caribe.
Em 2026, vários jogos de pirata serão lançados, incluindo o simulador de construção de cidades Corsair Cove e os jogos de ação Windrose e Assassin’s Creed Black Flag Resynced.
“ÉPOCA DOURADA DA PIRATARIA”
Embora os piratas existam desde a Antiguidade, nossa imagem deles é baseada principalmente na chamada “Época Dourada da Pirataria”, que começou no final do século 17 e durou apenas algumas décadas. Nesse período, as potências europeias expandiram suas colônias no Caribe e na costa oeste da África.
Navios mercantes transportavam mercadorias de seus países de origem para esses territórios e levavam produtos coloniais de volta para a Europa. Os piratas atacavam essas embarcações, gastavam rapidamente os bens saqueados e retornavam ao mar. A maioria deles, porém, não viveu muito tempo. Muitos foram capturados e mortos.
Para o historiador Jann M. Witt, os piratas eram simplesmente criminosos. “O pirata que as pessoas imaginam hoje não tem nada a ver com a realidade. Trata-se de uma imagem romantizada”, afirma.
Ao mesmo tempo, alguns estudiosos enxergam os piratas como defensores progressistas de uma nova forma de sociedade democrática e orientada ao bem comum. Contudo, não há evidências sólidas para sustentar essa visão. As fontes históricas são escassas. Embora a obra Uma História Geral dos Roubos e Crimes de Piratas Famosos (1724), de Charles Johnson, seja frequentemente utilizada como referência, Witt argumenta que ela não constitui uma pesquisa científica, mas sim uma forma de “jornalismo sensacionalista”.
“Eu sei que muitas imagens da pirataria na cultura popular são romantizadas; e isso é ótimo”, diz o compositor e cantor de canções marítimas Seán Dagher. Na sua opinião, as pessoas não se apaixonaram pela pirataria em si, mas pela versão idealizada da vida dos piratas. O músico folk passou muito tempo no mar e compôs, além de interpretar, várias canções para Assassin’s Creed Black Flag Resynced.
Vale lembrar que essas canções marítimas não serviam apenas para entretenimento a bordo. Elas tinham uma função prática: o cantor precisava motivar a tripulação, enquanto as músicas ajudavam os marinheiros a coordenar suas tarefas, por exemplo, puxando cordas em um mesmo ritmo.
FUGA, LIBERDADE E AVENTURA
“O que fascina na vida marítima em geral é a ideia de simplesmente partir para qualquer lugar”, afirma Dagher. “Mesmo que a vida em um navio fosse dura, a ideia de chegar a um novo lugar e escapar, de alguma forma, dos problemas da vida cotidiana continua sendo emocionante.”
Já para Paul Fu, diretor criativo de Assassin’s Creed Black Flag Resynced, o encanto dos piratas está no sentimento simbolizam. “Os piratas exercem um enorme fascínio porque transmitem uma sensação de liberdade e aventura”, afirma.
E aí surge novamente a ideia da liberdade. Porém, na realidade, ela não predominava nos navios piratas. Havia hierarquias rígidas, e a vida no mar estava longe de ser romântica. O trabalho era exaustivo, os suprimentos eram escassos, e a assistência médica era precária.
No jogo, a violência também está presente, algo sugerido pelo próprio nome da série. Combates com lâminas ocultas, espadas, pistolas e bombas de fumaça fazem parte da mecânica. Ainda assim, o mundo do jogo foi projetado para não parecer sombrio, mas sim iluminado e acolhedor. Segundo Paul Fu, até mesmo os ciclos de dia e noite foram ajustados, tornando os dias significativamente mais longos que as noites.
As histórias de piratas sempre tiveram uma função social. “Os piratas já eram utilizados como instrumento político-cultural enquanto ainda estavam vivos”, explica o historiador Eugen Pfister.
Essas narrativas tinham o objetivo, segundo ele, de disciplinar o público. Mostravam uma breve fuga das hierarquias e estruturas sociais. Até a década de 1950, era comum que as histórias apresentassem um homem honrado que, por circunstâncias infelizes, tornava-se pirata, mas que no final retornava ao convívio da sociedade.
Esse modelo começou a mudar a partir dos anos 1990. Em lugar do pirata honrado surgiu o que Eugen Pfister chama de “capitalista aventureiro liberal”: uma figura egoísta, orientada pelo lucro e comprometida apenas consigo mesma e com suas próprias regras.
Exemplos disso são Jack Sparrow, da franquia Piratas do Caribe, e Edward Kenway, da série Assassin’s Creed. Enquanto os piratas das narrativas antigas acabavam reintegrados à sociedade, os piratas contemporâneos são retratados como indivíduos que, de certa forma, estão acima dela.
Há, porém, algo comum a todas as histórias de piratas: elas pouco se preocupam com a precisão histórica. Em vez disso, recorrem a cenários paradisíacos e exóticos e selecionam da tradição folclórica da pirataria apenas os elementos que melhor combinam com o espírito de cada época.