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ESTREIA

'A Odisseia': o maior palco que Hollywood já ofereceu a um poema

Com US$ 250 milhões, seis países e Matt Damon como Odisseu, Christopher Nolan leva Homero às telonas e entrega o blockbuster mais ambicioso de 2026

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Primeiro filme inteiramente rodado em câmeras Imax 70mm revisita o poema de Homero com Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland e Zendaya
Primeiro filme inteiramente rodado em câmeras Imax 70mm revisita o poema de Homero com Matt Damon, Anne Hathaway, Tom Holland e Zendaya | Foto: Divulgação

Homero abre o poema invocando a Musa e situando o leitor: todos os outros que sobreviveram à guerra já estavam em casa. Só Odisseu ainda não. O que o poema não explica de imediato, mas vai construindo ao longo de vinte e quatro cantos, é que o caminho de volta não era somente geográfico. É essa linha narrativa que Christopher Nolan puxa para fazer seu filme, que estreia hoje nos cinemas.

“A Odisseia” custou US$ 250 milhões e foi rodado em seis países: Grécia, Marrocos, Itália, Islândia, Escócia e Malta, com cenas adicionais nos Estados Unidos. É o primeiro filme inteiramente capturado em câmeras Imax de 70 milímetros, desenvolvidas especificamente para o projeto. Os cenários foram construídos do zero. As criaturas da mitologia grega estão fisicamente presentes. Matt Damon descreveu caminhar pelo set como uma experiência que parecia o cinema de oitenta anos atrás. A comparação está longe de ser vanidade. Numa Hollywood que trocou quase tudo por telas verdes, a escala material do que Nolan fez é de fato incomum.

O elenco reúne Anne Hathaway como Penélope, Tom Holland como Telêmaco, Charlize Theron como Calipso, Zendaya como Atena, Lupita Nyong’o num papel duplo como Helena e sua irmã Clitemnestra, e Benny Safdie com uma armadura preta gigante como Agamêmnon. O que Nolan faz com esses nomes é interessante.

Críticos que viram o filme apontam a xenia — lei de hospitalidade que Zeus impõe ao mundo dos gregos — como o centro do argumento de Nolan, e o conceito de fato estrutura boa parte da moral do poema original. A xenia determina que o anfitrião deve receber o estrangeiro, alimentá-lo, protegê-lo, e só então perguntar quem ele é. No poema de Homero, ela aparece repetidamente: quando Odisseu chega à ilha do ciclope esperando ser recebido, quando os pretendentes invadem o palácio de Ítaca. É o equivalente grego do que antropólogos chamam de reciprocidade generalizada, o único mecanismo capaz de manter sociedades funcionando sem estado centralizado. O que Nolan faz, segundo essas leituras, é carregar esse princípio de uma culpa que Homero não atribui explicitamente ao Cavalo de Troia: na releitura do cineasta, a astúcia que venceu a guerra é também o crime que impede o retorno.

Imagem ilustrativa da imagem 'A Odisseia': o maior palco que Hollywood já ofereceu a um poema
| Foto: Divulgação

“Qual é a lei de Zeus se o anfitrião não a conhece?” pergunta o segundo de Odisseu, Euríloco, quando chegam à ilha do ciclope Polifemo. A pergunta é a chave do filme: o que acontece quando o princípio que sustenta a civilização encontra quem nunca o conheceu, ou quem o abandonou?

Dois anos atrás, “Oppenheimer” faturou sete Oscars e chegou perto de um bilhão de dólares sendo denso, longo, com partes em preto e branco, sobre física nuclear. Nolan recebeu o capital político que esse sucesso gerou e o usou para fazer exatamente o que quis: um épico sobre um homem atormentado, com criaturas mitológicas de borracha e látex em vez de CGI, filmado em locações reais, sem concessões ao ritmo acelerado que o mercado exige hoje. É uma aposta deliberada em algo “fora de moda”, mas que entende que seu risco é limitado.

Matt Damon constrói um Odisseu que a crítica da IndieWire descreveu, em tradução livre, como “amoroso, arrogante, sensível, consumido pela culpa, inocente, cabeça-dura, brilhante e tolo” numa mesma trajetória — e é exatamente essa multiplicidade que o poema de Homero exige, mesmo que a psicologia do trauma de guerra seja uma camada que Nolan sobrepõe ao original. Em entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, Hathaway explicou como entende Penélope: “Ela é casada com o homem mais astuto que existe, mas eles se tratam como iguais, o que quer dizer que ela é igualmente capaz de entender sua situação e navegar por ela. Ela vê tudo o tempo inteiro”.

Telêmaco tem dezesseis anos e chora em cena. Tom Holland quis mostrar a idade do personagem sem atalhos para nenhuma heroicidade. É uma escolha que diz algo sobre o que Nolan quer discutir: o filho que cresce sem o pai não vira herói por osmose. Vira alguém que precisa, desesperadamente, construir uma identidade do zero.

Imagem ilustrativa da imagem 'A Odisseia': o maior palco que Hollywood já ofereceu a um poema
| Foto: Divulgação

O filme tem mais problemas. A dimensão cósmica do poema, na qual Poseidon e Atena travam uma disputa pelos destinos dos mortais com a mesma naturalidade com que dois vizinhos brigam, onde os deuses comem, ciúmam, interferem fisicamente nos assuntos humanos, fica achatada numa lógica mais próxima do monoteísmo do que do politeísmo caótico de Homero, onde divino e humano coexistem sem fronteira rígida. Nolan domestica isso, e quem conhece Homero vai notar. A punição de Odisseu no poema original não vem de culpa existencial pelo Cavalo de Troia: vem de ter cegado Polifemo, filho de Poseidon, e de seus companheiros terem devorado o gado sagrado de Hélio. Nolan troca a teologia grega por psicologia contemporânea. E há um argumento razoável para essa escolha, mesmo que o espírito do original saia diferente do outro lado.

Há, ainda, a megalomania de Nolan, que serve ao cinema tanto para o bem quanto para o mal. Alguns podem considerar, por exemplo, que o novo longa é técnico demais e um tanto frio, aspectos diretamente ligados a essa necessidade de ser grandioso.

A maior ruptura de Nolan em relação ao poema, apontada por críticos, é mostrar uma civilização em declínio onde nem anfitrião nem hóspede têm qualquer reverência um pelo outro. Isso, curiosamente, é o que torna o filme mais contemporâneo do que qualquer atualização superficial de cenário. O mundo em que Odisseu tenta voltar para casa é um mundo onde a lei que deveria proteger todos foi quebrada por quem tinha poder suficiente para ignorá-la. Isso é algo que o público de 2026 não precisa de nenhuma nota de rodapé ou de leitura prévia para reconhecer.

Confira o trailer

Saiba onde assistir em Maceió

Cinesystem Maceió (Parque Shopping - Cruz das Almas)

  • Dublado: 15:30
  • Legendado: 19:00
  • VIP Legendado: 18:00 | 21:20
  • Cinépic legendado: 13:30 | 17:00 | 20:30

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