LANÇAMENTO
Nova biografia de Graciliano Ramos põe frente a frente o gênio da literatura brasileira e sua obra
Livro de Wander Melo Miranda percorre a trajetória do escritor alagoano, da infância e da vida pública à prisão, e mostra como experiências pessoais se transformaram em matéria literária
A não ser que o leitor seja um estranho apaixonado por burocracia, relatórios de gestão são, naturalmente, chatos. O tecnicismo, a desfaçatez de documentos que raramente refletem realidades e os números que parecem desconhecer as misérias ao redor são, de certa forma, a norma do gênero. Todavia, em Palmeira dos Índios, em 1927, um prefeito alagoano fez o caminho inverso: em vez de disfarçar, assumiu. Com humor e ironia na medida certa, Graciliano Ramos, que até ali não havia publicado um livro, transformou relatórios de gestão em peças literárias. Os textos eram tão honestos e tão bem escritos que o poeta e editor Augusto Frederico Schmidt não conseguiu acreditar que haviam sido redigidos por um gestor público. Foram esses documentos que abriram caminho para o primeiro livro.
A literatura de Graciliano nasceu do exercício público num chão familiar ao leitor alagoano: Quebrangulo, onde nasceu em 1892; Viçosa, onde estudou e passou a infância; Palmeira dos Índios, onde governou; Maceió, onde trabalhou como diretor de Instrução Pública antes de ser preso. É sobre esse homem e seu território que trata “Graciliano Ramos: Vida e Obra”, biografia lançada pelo professor emérito da UFMG Wander Melo Miranda, a primeira de fôlego sobre o autor desde a de Dênis de Moraes, publicada no centenário do escritor em 1992. O livro chega, pela Companhia das Letras, dois anos depois de a obra de Graciliano entrar em domínio público, num momento em que o Brasil debate o que fazer com clássicos que carregam contradições do seu tempo.
Miranda não disfarça o partido que toma. “Acho que nenhum outro autor brasileiro viveu tão visceralmente o ofício de escritor, e fez isso num país subdesenvolvido, sob um governo extremamente autoritário. E o considero um dos mais lúcidos intérpretes do Brasil”, disse à Folha de S. Paulo. A declaração é a chave de leitura da obra: uma biografia apaixonada que usa a paixão como método, e que não pretende ser isenta. O próprio biógrafo escreveu, na apresentação do volume, que se sentiu inicialmente incapaz de ver Graciliano como biografado, tamanha a admiração. A solução foi simples e honesta: “Tomar distância é bobagem. É a minha opinião, a minha versão. Não estou escrevendo uma reportagem, em que, de certa forma, tenho de ser isento”.
O que Miranda produz em suas 400 páginas é o que chama de “uma espécie de biografia dos livros junto com a biografia dele”, mais crítica literária do que jornalismo biográfico, mas sem o hermetismo acadêmico que poderia afastar o leitor. A biopolítica, teoria sobre o controle estatal sobre o corpo, é um dos pilares teóricos do trabalho, mas aparece incorporada à narrativa sem bacharelismo. Um dos exemplos mais fortes está na prisão: detido sem processo por dez meses entre 1936 e 1937, acusado de subversão comunista durante o Estado Novo, Graciliano chegou a ser dispensado de trabalhos pesados porque o encarregado achava que ele tinha 65 anos. Tinha 43.
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Há algo de paradoxal em escrever uma biografia de quem é, provavelmente, o maior biógrafo de si mesmo da literatura brasileira. “Infância” e “Memórias do Cárcere” são obras memorialísticas de tal precisão e densidade que qualquer biógrafo que se aventure pelo mesmo território enfrenta a sombra do próprio biografado. Miranda reconhece isso e não foge. Usa os textos autobiográficos como fontes centrais, ao lado de cartas, depoimentos dos filhos Ricardo e Clara Ramos, da irmã Marili, e de pesquisadores como Thiago Mio Salla e Ieda Lebensztayn.
A pergunta que Graciliano fez em carta à mulher Heloísa, “Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico?”, aparece no livro de forma irônica, visto que não precisou esperar tanto. A homofobia conhecida de Graciliano é tratada por Miranda com contextualização. No cárcere, o próprio escritor alagoano submeteu esse preconceito a um exame incômodo, reconhecendo que a repulsa não era natural, que fora culturalmente construída. A admiração fervorosa por Stálin é outro ponto difícil, tratado com nuance histórica: Graciliano morreu em 1953, três anos antes de Kruschov denunciar publicamente os crimes do ditador. Tanto “Memórias do Cárcere” quanto “Viagem” foram publicados postumamente, este último em 1954, com as impressões da viagem à União Soviética feita no ano anterior à morte.
O biógrafo ainda aponta um trecho que diz não conseguir ler sem se emocionar, depois de mais de cinquenta leituras; trata-se do capítulo “Baleia”, sobre a morte da cachorra de “Vidas Secas”. “É das coisas mais bem escritas em língua portuguesa”, diz Wander Melo Miranda.
Graciliano Ramos: Vida e Obra
- Preço: R$ 119 (400 págs)
- Autoria: Wander Melo Miranda
- Editora: Companhia das Letras