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Cães de Prata recusa explicações fáceis em disco que levou quatro anos para ficar pronto

"Um ano aos estilhaços": terceiro álbum do projeto reúne oito faixas e cruza ruído, delicadeza e experimentação em uma investigação sobre o que a canção ainda pode dizer

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“Não tenho interesse em explicar tudo, deixar tudo autoevidente na canção”, diz o compositor e cantor de Alagoas
“Não tenho interesse em explicar tudo, deixar tudo autoevidente na canção”, diz o compositor e cantor de Alagoas | Foto: ITALO ALMEIDA

Quando decidiu transformar aquelas canções em projeto, com cara de banda e capa de disco, Mateus Borges teve uma certeza: não ia usar o próprio nome. “Eu costumo dizer que eu sou a coisa menos interessante sobre os meus álbuns, sobre minhas canções”, diz. O verso “cães pequenos de prata e latão”, batizou, então, o projeto musical. Ele diz gostar da tensão que a expressão carrega, algo entre o místico e o souvenir de mercadinho, entre uma joia e um objeto decorativo. “Esse lugar entre o esquisito e o comum é onde a Cães de Prata está”.

É uma frase estranha para apresentar um artista, essa de que a própria pessoa é o elemento menos interessante do próprio trabalho. Mas explica um disco inteiro. Vamos lá. Um Ano aos Estilhaços, terceiro álbum do projeto, é a versão mais recente de uma pergunta que Mateus parece fazer desde sempre: o que fazer quando a palavra não dá conta do que se sente, e a canção também nem sempre dá? Bom, a resposta deve estar entre as oito faixas do álbum recém-lançado, que já está disponível nas plataformas digitais (ouça aqui).

Mateus Borges nasceu em Salvador, mas a formação é toda alagoana. Família de Palmeira dos Índios e Arapiraca, infância e adolescência em Maceió, um pai músico e uma mãe que sempre tocou discos em casa. Vive em São Paulo desde 2023. As canções do álbum nasceram nos intervalos, escritas em temporadas de volta a Maceió e fechadas já na cidade nova. Levaram quatro anos. “Foi interessante esse tempo de deixar as canções fermentando, maturando, entender o que cada uma pedia de arranjo, testar várias coisas também”, diz. O passar do tempo também ajudou o compositor: “Você muda de cidade, termina e começa relacionamentos, mantém seu trabalho. As grandes mudanças da vida vão acontecendo, e não pedem licença para você terminar o seu álbum”.

Capa do novo disco é assinada por Paula Raro
Capa do novo disco é assinada por Paula Raro | Foto: Divulgação

No texto que acompanha o disco, ele é ainda mais duro consigo mesmo. Escreve que tentou fazer letras luminosas, alcançar um estado de colheita, um “arroubo aberto” como a cornucópia translúcida que estampa a capa assinada por Paula Raro. Compara o processo a cravar uma lança num alvo ínfimo, montado num cavalo em disparada, sob o risco de a lança acertar alguém que não tinha nada a ver com aquilo. E admite, numa linha só: “Falhei.” O que sobrou foram versos mais sinuosos do que planejava, mas também mais afirmativos de um certo retorno à vida.

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Isso aparece já na primeira faixa, onde o eu lírico chama o próprio nome de “um b. opaco”, “menor medida” do que ele é, como se nomear alguma coisa já fosse, de certa forma, reduzi-la. É difícil não ler isso como plano geral do disco e retornar à questão inicial do nome da banda. Mateus fala do próprio ofício de compor quase nos mesmos termos. “Eu não tenho muito interesse em criar aquela comunicação direta que A é igual a B”, diz. “Não tenho interesse em deixar tudo autoevidente na canção. Eu tô te confundindo pra te explicar, tô te explicando pra te confundir”, continua.

Além dessas premissas, boa parte do disco também se recusa a ter pressa. Metade das faixas passa dos cinco minutos. Mateus diz não ter muita vocação para o “lugar comum do pop”, prefere canção que tem camada, que revela coisa nova a cada volta. Explica isso a partir de situações banais. “Por mais que a vida seja agitada, o dia a dia tem tédio, tem pausa, tem respiração. A gente está correndo pro trabalho, mas está 50 minutos no ônibus. A gente está fazendo o almoço, mas está 30 minutos esperando a batata cozinhar. Me interessam esses espaços, como o tempo é diferente neles”.

No terceiro álbum do projeto, Mateus Borges assume a produção musical completa depois de admitir que falhou ao tentar escrever letras mais “luminosas”
No terceiro álbum do projeto, Mateus Borges assume a produção musical completa depois de admitir que falhou ao tentar escrever letras mais “luminosas” | Foto: ITALO ALMEIDA

A sonoridade segue essa mesma lógica de não facilitar. Guitarras mais presentes dividem espaço com violões de nylon e de aço, viola, instrumentos de corda japoneses e afinações deliberadamente fora do lugar. O piano, ausente em Nocaute, primeiro álbum do projeto, lançado em 2021, ganha presença marcante, como um segundo personagem respondendo à voz. Mateus participou da produção de todas as faixas pela primeira vez de forma tão completa, e assinou parte dos arranjos de “Um Truque”, “Dez de Espadas” e “Ele Virá na Fumaça”, ao lado de Allen Alencar, Felippe “Chase” Pereira e Joaquim Prado, com produção adicional de João Viegas em “Gás dos Outros” e mixagem e masterização de Anna Vis.

No fim das contas, porém, o centro para ele continua sendo a canção. “Eu quero fazer canção, eu quero fazer canções melhores, eu quero fazer canções com as pessoas, eu quero que as pessoas gravem as canções, eu quero isso”, afirma. O arranjo, a produção e a forma de apresentar o trabalho podem mudar; o ofício de compositor, não. “Eu acho que todas as outras coisas são negociáveis”, diz. “Mas eu acho que se eu não escrevesse canções, nada mais faria sentido”.

O álbum chega, de fato, como algo fresco no rock nacional, com tempero alagoano e fome de Brasil. O trabalho dialoga esteticamente com bandas como Television e Gang of Four, além de projetos nacionais de nomes como Arnaldo Antunes, Fagner e Zé Ramalho. É uma mistura que só faz sentido dentro do próprio critério de Mateus: pouca higiene, muita convivência entre ruído, textura, delicadeza e intensidade. É um disco emocionado, cheio de sangue, sem performance de densidade.

Imagem ilustrativa da imagem Cães de Prata recusa explicações fáceis em disco que levou quatro anos para ficar pronto
| Foto: ITALO ALMEIDA

Fora da música, aos 29 anos, Mateus é advogado e publicou, no ano passado, o livro Essa Não É Sua Mão, pela editora Cachalote. Também é torcedor do Corinthians “desde o útero da minha mãe”, garante. Ele não vê nessas múltiplas faces uma dispersão. “Se eu fizesse só uma coisa, acho que a única coisa que eu faria seria pior”, brinca.

Enquanto o disco ainda chega aos ouvidos, o próximo ciclo já começou. Mateus escreveu uma série de canções sobre Alagoas, cruzando fatos reais e inventados de Maceió nos anos 1990 e 2000, com espaço reservado para a lagoa. Ele mudou de cidade, mudou de pensamento sobre a vida, e reconhece que há coisas que não se controlam — mas também há mudanças que a gente provoca para se colocar num caminho diferente.

“Mas o meu maior entendimento é o de que a gente pode ir para qualquer lugar no mundo, mas a gente nunca sai de casa, de um jeito ou de outro. A gente sempre leva um pouquinho com a gente, e retorna sempre, ou está sempre lá”.

Ouça o novo disco da Cães de Prata

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