AUDIOVISUAL
Cinema alagoano leva dois filmes ao CineBH
“Olhe Para Mim”, de Rafhael Barbosa, disputa a Mostra CineMundi, enquanto “Céu de Areia” integra a Cine-Expressão; 20ª edição do festival ocorre de 22 a 27 de setembro, em Belo Horizonte
Marcelo nunca soube por que a mãe desapareceu quando ele era criança. Cresceu preenchendo essa ausência com memórias inventadas, até que a rasga-mortalha —entidade ancestral meio humana, meio pássaro, do imaginário popular que margeia o Baixo São Francisco —se tornasse a chave de uma busca entre o real e o sobrenatural. É essa história que “Olhe Para Mim”, de Rafhael Barbosa, leva à Mostra CineMundi da 20ª CineBH, entre os dias 22 e 27 de setembro, em Belo Horizonte.
O longa chega ao evento mineiro já laureado por outros festivais. Primeira ficção realizada em Alagoas com recursos de edital público a alcançar circulação nacional, estreou mundialmente em junho no Olhar de Cinema, em Curitiba, onde levou os prêmios de Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor Som. As cenas foram gravadas entre Penedo, Belo Monte, Pão de Açúcar e Maceió, com Rejane Faria, Luciano Pedro Jr. e o estreante Ulisses Arthur num elenco que une terror, drama, fantasia e road movie. É o segundo longa de Barbosa, que estreou no circuito comercial em 2021 com “Cavalo” e simultaneamente dirige o longa de animação “Utopia”, previsto para 2027.
Barbosa é também uma das engrenagens do cinema alagoano contemporâneo. Fundou em 2015, ao lado de Felipe Guimarães, a produtora La Ursa Cinematográfica, responsável por títulos que já circularam internacionalmente, caso de “Como Ficamos da Mesma Altura”, exibido no Rotterdam Film Festival em 2020, e “A Barca”, selecionado para o Festival de Havana. A produtora também está por trás de “O Mapa em que Estão os Meus Pés”, de Luciano Pedro Jr., vencedor de Melhor Curta pelo júri da crítica no Festival de Gramado 2025.
Alagoas ainda tem um segundo representante na programação. “Céu de Areia”, curta de animação de Robson Cavalcante e Claudemir da Silva, integra a Cine-Expressão, mostra que leva cinema a escolas e estudantes. Antes de chegar a Belo Horizonte, o filme já havia passado pelo Festival Horizontes de Cinema, na Praia do Francês, em abril, e pela Mostra Filé, dedicada exclusivamente a produções alagoanas, lançada em março deste ano.
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Os dois filmes entram numa seleção de 102 produções, sendo 49 longas e 53 curtas, de 18 estados brasileiros e oito países, distribuídas em 69 sessões gratuitas espalhadas por oito espaços da capital mineira. A edição marca duas décadas de festival, e a curadoria escolheu marcar a data com uma pergunta: “Cinema Latino-Americano: o que será?” — título que recupera a canção de Chico Buarque incorporada à trilha de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, que completa 50 anos e ganha sessão especial nesta edição.
A escolha não é gratuita: em 1976, ano de lançamento da canção, boa parte da América Latina vivia sob regimes militares e existia uma leitura mais unificada do chamado Nuevo Cine Latino-Americano. Meio século depois, a curadoria da CineBH enxerga um panorama fragmentado, atravessado por trocas de governo, cortes de investimento público e disputas regulatórias em diferentes países do continente.
Essa fragmentação vira critério de seleção nas duas mostras competitivas latino-americanas da edição. A Horizonte, novidade de 2026, é dedicada exclusivamente a primeiros longas-metragens ou estreias na direção, com seis títulos do Chile, Cuba, Colômbia, México, Argentina e Brasil. A Território, reformulada para deixar de se limitar a cineastas com até três longas, reúne outros seis filmes que atravessam desertos, espaços rurais, bairros e arquivos, com procedimentos documentais, ensaísticos e performáticos.
A programação homenageia ainda a cineasta paraguaia Paz Encina e a escritora e atriz mineira Conceição Evaristo, que recebem o Troféu Horizonte na cerimônia de abertura, no dia 22, com a pré-estreia de “Se Eu Fosse Vivo... Vivia”, de André Novais Oliveira — filme que marca a estreia de Evaristo como atriz de cinema. Integrado à mostra, o 17º Brasil CineMundi reúne 37 projetos brasileiros e mais de 200 profissionais de 15 países em atividades de formação, pitching e encontros de negócios.