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ARTES VISUAIS

Gabi Coêlho transforma desconforto em arte e conquista prêmio internacional

Única brasileira selecionada no Festival Fototras, artista de Maceió leva série “Qual é o limite?” para sua primeira exposição individual internacional, em Guadalupe, no Caribe francês

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A artista alagoana Gabi Coêlho usa fotografia, autorretrato e fotoperformance para investigar o corpo e os limites da performance
A artista alagoana Gabi Coêlho usa fotografia, autorretrato e fotoperformance para investigar o corpo e os limites da performance | Foto: Gabi Coêlho

Tira isso da boca. Quase todo mundo ouviu essa frase durante a infância. A mão do adulto vinha logo depois, resgatando da criança o que tinha lá dentro: uma moeda, um botão, uma pedra, qualquer coisa. A criança conhecia o mundo assim, pela boca, e descobria relativamente tarde que há coisas que não se levam a ela. Resta uma boca bem-comportada, que come com talher. A língua, que em português é o músculo e o idioma, aprende a dizer somente o que cabe. E assim, por fim, nos tornamos adultos.

E então quase tudo que essa língua diz está pronto para ser engolido. Tudo que essa boca faz está dentro das normas. Todo mundo está confortável. É lindo.

Não para Gabi Coêlho. A artista alagoana põe um tropeço no caminho da apatia que se disfarça de beleza. Natural de Maceió, ela trabalha uma poética do desconforto, integrando fotografia, autorretrato e fotoperformance para investigar o corpo como território sensível e campo de tensão. Um dos seus trabalhos mais emblemáticos é a série “Qual é o limite?”, que acaba de lhe render o Prix Fotolib, um dos três prêmios da terceira edição do Festival Internacional Fototras, em Guadalupe, no Caribe francês. A premiação inclui a exposição individual da série na Creolitan Gallery, a partir de 19 de novembro. Será a primeira individual internacional da artista.

O Prix Fotolib é o reconhecimento mais recente de oito anos de trabalho com autorretrato. Entre as 78 inscrições de diferentes partes do mundo, 19 artistas foram selecionados e três, premiados. Gabi Coêlho é a única brasileira na seleção. Em 2026, ela também integrou a coletiva Nordeste Expandido, no Rio de Janeiro, e foi selecionada para uma revista da Espanha. Seu trabalho está no acervo do Banco do Nordeste Cultural desde 2022, e as três individuais que fez até aqui, duas em Maceió e uma em Arapiraca, passaram pelo Sesc e pela Galeria do Complexo Teatro Deodoro.

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Qual é o limite? Nº 13
Qual é o limite? Nº 13 | Foto: Gabi Coêlho

“Qual é o limite?” reúne cerca de quarenta autorretratos. Em todos, a boca é a da própria artista, aberta e de frente, em enquadramento vertical. Normalmente há um objeto improvável sobre a língua ou interagindo com os lábios.

Numa das fotografias, três dedos de galinha, escamosos, de unhas curvas, repousam sobre a língua úmida. “O pé de galinha foi terrível, porque é grande, né? Mesmo cozido, as pessoas têm rejeição; você imagine cru”, conta Gabi, ao comentar o processo do trabalho premiado. O mesmo aconteceu com o coração de galinha, em outra imagem da série. “Foram imagens que eu fiz, mas quase não conseguia. Não podia engolir, foi difícil”, revela.

A artesania não começa nem termina no primeiro clique. O princípio do processo é o olhar curioso e um espírito que Gabi Coêlho chama de “coletor”.

“Você não faz um clique só. Nessa do coração de galinha fiquei com a boca aberta e salivando muito porque não queria engolir essa saliva. E aí corri para o banheiro para tentar lavar com o que podia”. Nada disso aparece na imagem final.

O que surge na obra pronta é um pedido de pausa. Foi isso o que Gabi procurou ao começar a série, em 2021, quando a pandemia ainda estava no auge e quase tudo passava pelas telas. “O meu trabalho, a partir de 2020, conscientemente busca resgatar as pessoas da passividade na rede social, né? Aquela coisa de as pessoas só irem rolando o feed”, explica. “Eu queria que as pessoas parassem, piscassem e pelo menos questionassem o que era aquilo que estavam vendo por alguns instantes, sabe? É um freio no olhar apático, um convite ao estranhamento”, argumenta.

Qual é o limite? nº 24
Qual é o limite? nº 24 | Foto: Gabi Coêlho

Ela sabe que o choque tem má fama na arte. “Falando assim, fica parecendo que é o choque pelo choque, que é uma coisa que, na arte, me desagrada um pouco. Mas o choque de que estamos falando vem como uma ferramenta de resgate da atenção para, a partir daí, trazer alguma reflexão. É como se fosse um sacolejo”, continua Gabi.

A poética do desconforto, no caso dela, é procedural. O artista e curador Jhonyson Nobre, que acompanha de perto os processos de Gabi Coêlho, diz que o desconforto das imagens é a própria ação do trabalho: existe intenção. As imagens lhe provocaram perguntas insistentes sobre o que era real e se ela havia se submetido de fato àquelas situações. Concluiu que a dúvida faz parte da potência da obra, que age numa zona de ambiguidade a que ele dá o nome de documento-encenação. “Independentemente do grau de edição”, diz, “o que está em jogo é a verossimilhança do risco, a sensação de que aquele corpo poderia ser ferido”. Para Nobre, “as imagens recusam o belo pelo belo e apostam numa estética do incômodo”.

Gabi começou a fotografar profissionalmente em 2014, fazendo retratos de famílias, até sentir que fazia “sempre mais do mesmo”. Em 2018, uma colega sugeriu um curso on-line de autorretrato conceitual, e ela foi só para sair do lugar-comum.

O curso lhe fez mal, e isso foi bom. As referências de arte contemporânea lhe davam mal-estar físico, e o receio, lembra, “era de, em algum momento, a batata cair na minha mão e eu ter que falar o que eu achava, o que eu entendia, que referências eu tinha, e eu não tinha nada, né? Era zerado”. Oito anos depois, parte de quem vê as imagens dela as acha incômodas também, e Gabi diz acolher a reação.

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Um post compartilhado por Gabi Coêlho (@gabicoelho_experimental)

A premiada série “Qual é o limite?” nasceu em 2021, entre outras que ela criava no período, a partir de experimentos feitos em casa, com o próprio corpo, sem projeto definido até então. Eram imagens feitas “sem intenção artística”, “só experimentando”, e uma delas a fez questionar “essa coisa do limite do corpo e daquilo que divide a dor e a satisfação”, conta.

“Na terceira imagem percebi que existia um fio as interligando. Era sempre essa coisa do incômodo e dessa coisa meio violenta, meio agressiva. E comecei a pensar no porquê de estar fazendo isso. E pensar nessa busca do limite: do limite do corpo, do limite do fazer artístico. A partir do momento em que entendo que quero a boca, escolho essa posição vertical e penso na boca isolando qualquer variável de identificação, essa série começa de verdade. Essa boca não tem uma identidade predefinida, por causa desse interesse em que as pessoas se identifiquem, mas ela tem uma personalidade forte.”

A ideia de limite foi se ampliando com a série. Outras questões conceituais foram surgindo e a pesquisa cresceu junto. Atualmente, para onde a artista vai, vai junto sua busca pela próxima fotoperformance. “A última foi um limite geográfico. Eu fui para Manaus, coletei material de lá e faço essa brincadeira do limite do incômodo com o limite geográfico. Enfim, vou brincando muito com essa ideia de limite”.

Coletar, ela explica, significa reunir objetos e esperar o momento de usá-los. Hoje, conta, tem cerca de três itens guardados para trabalhar em breve, à espera de um dia em que esteja “de fato dedicada a interagir com aqueles objetos”.

Fragmento da série "Qual é o limite?", de Gabi Coêlho
Fragmento da série "Qual é o limite?", de Gabi Coêlho | Foto: Gabi Coêlho

“É que alguns objetos são mais fáceis de interagir e colocar na boca, mas outros demandam uma entrega. Por exemplo, não é todo dia que você tem a possibilidade de colocar um pé de galinha na boca. Então você tem que estar com a boca entregue, você tem que estar disponível para o gesto. Eu nem sempre estou disponível para a feitura, mas estou sempre em coleta.”

A maior parte do trabalho é feita em casa, sob luz natural, em um espaço na varanda. Quem visita a residência da artista, em Maceió, não encontra nada à vista que faça pensar na autora dessas imagens. “Eu costumo me descolar um pouco da imagem do meu trabalho, porque eu sou uma pessoa que geralmente busca ser muito agradável, ser brincalhona, ser simpática, e meu trabalho não se associa diretamente a mim”, analisa a própria artista, sobre a distância entre a pessoa e a obra.

Nesse sentido, o que a incomoda, diz, está na imagem que se faz do feminino e da arte feita por mulheres. Ela recusa uma arte “enfeite”, que precisa agradar acima de comunicar ou provocar. “Quando eu falo que não quero agradar, não é que eu queira ser desagradável. Longe disso. É que eu não quero ser obrigada a agradar, pelo menos não agradar nos moldes que esperam. Meu trabalho é o incômodo mesmo. O que não quer dizer que não queira tocar o outro, muito pelo contrário, tocar o outro é essencial, mas busco tocar com as sensações, com o inesperado, descobrir esses limites”.

Para Gabi, o incômodo pode estar em quem faz a imagem ou em quem a vê. “É sempre uma troca interessante”. No lado de quem faz, é físico: ela se descreve como uma pessoa de sentidos sensíveis, “que facilmente fica nauseada”. Entre as imagens da série, há um peixe cru inteiro sobre a língua da artista. “Por incrível que pareça, o peixe cru, que é uma imagem antiga na boca, foi horrível. Embora eu goste de sushi, a ideia do peixe cru inteirinho na boca é diferente”. Cabelo na boca foi outra imagem difícil. “Ah, a imagem do cabelo também. Cabelo na boca. Eu tenho muitos problemas com cabelo fora da cabeça, cabelo molhado”.

Qual é o limite? #35
Qual é o limite? #35 | Foto: Gabi Coêlho

A boca ocupada por um objeto tem precedente na arte brasileira. Em 1973, Anna Maria Maiolino filmou em Super-8, em In-Out (Antropofagia), duas bocas, uma de homem e outra de mulher, cuja fala é impedida pela entrada e saída de objetos como fios e um ovo. Nas fotografias-performance de Gabi, o objeto também toma o lugar da fala, e a palavra aparece em poemas que acompanham as obras e nas imagens que se formam.

“Eu preciso que esse trabalho, de alguma forma, movimente as pessoas em algum sentido, seja ele qual for. Então, se inquieta, seja porque achou instigante, seja porque achou nojento, achou que é uma maluquice, qualquer coisa. Até indiferença é um movimento, de certa forma, né?”, diz Gabi, sobre o que espera de quem olha.

No Festival Fototras, a alagoana se inscreveu por volta de março, sem sequer olhar os prêmios direito. A expectativa, conta, era só “entrar na seleção grande, na exposição coletiva”. Venceu o Prix Fotolib, um dos mais concorridos, aberto a artistas de todo o mundo.

Trabalho da artista alagoana circula pelo Brasil e internacionalmente
Trabalho da artista alagoana circula pelo Brasil e internacionalmente | Foto: Davi Cavalcante

Quem explicou o que leva a artista de Maceió ao Caribe francês foi Cédrick-Isham Calvados, um dos organizadores do festival e responsável pelo Fotolib. “Muita gente vai se surpreender com o que você propõe, porque é um trabalho que faz a gente se sentir confortável e desconfortável ao mesmo tempo, como se fôssemos atacados em cheio nos nossos sentimentos e tivéssemos que encarar aquilo”. Para ele, a proposta de Gabi Coêlho é “uma das mais originais e icônicas daqui”.

Para a alagoana, a seleção é mais um passo de uma série que, mesmo com quarenta obras já produzidas, está apenas começando. “É claro que pretendo fazer novas abordagens, diversas, o quanto conseguir. O que eu quero como artista é seguir me desafiando e desafiando esses limites estéticos. De toda forma, ‘Qual é o limite?’ é uma série que não vai se encerrar nunca. Imagino a minha boca envelhecendo nas imagens. E eu acho que isso é uma coisa imensa”.

Acompanhe a artista no Instagram oficial (gabicoelho_experimental) e no site www.gabicoelho.art, onde estão reunidos portfólio, trabalhos autorais e novidades sobre futuras mostras.

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