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Paixão que resiste ao tempo: hábito de colecionar figurinhas da Copa desafia a era digital em Alagoas

Tradição do álbum impresso mantém viva a interação social e cria memórias afetivas que atravessam gerações

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Theo Aragão, de 7 anos, revive o mesmo momento que os pais vivenciaram nos anos 1990
Theo Aragão, de 7 anos, revive o mesmo momento que os pais vivenciaram nos anos 1990 | Foto: Acervo pessoal

Uma das maiores tradições do futebol mundial volta a movimentar torcedores de diferentes gerações. De 11 de junho a 19 de julho, o mundo volta a parar para acompanhar — de perto ou pelas telas da televisão e do celular — a Copa do Mundo da Fifa. Mas o clima de Copa começa antes mesmo da abertura oficial da competição, e os torcedores já começam a vivenciar esse momento de festa de diversas maneiras. Uma delas é a coleção de figurinhas do álbum da Copa do Mundo. A prática ocorre no Brasil desde 1950, quando o país sediou o torneio pela primeira vez, e atravessa gerações, resistindo às transformações tecnológicas e ao avanço da internet, mantendo viva a tradição analógica.

Preencher o álbum da Copa do Mundo é sair do campo digital e compartilhar com familiares, amigos e até desconhecidos não apenas figurinhas, mas também momentos de interação social. A prática atrai pessoas de todas as idades, desde crianças como Theo, de apenas 7 anos, até adolescentes como João Guilherme, de 13 anos, jovens como Marcus Vinícius, de 23 anos, e adultos como o advogado Fred Klaus Batista, de 40 anos. Todos são de Maceió.

Em Alagoas, a editora Panini, responsável oficial pela comercialização dos álbuns da Copa do Mundo, disponibilizou, desde o dia 30 de abril, quatro pontos de compra, venda e troca de figurinhas nos três shoppings de Maceió e no Centro Comercial de Arapiraca.

Nesta quinta-feira (7), a Fifa informou o encerramento da parceria com o grupo editorial multinacional italiano, mantida desde 1970, e anunciou um novo acordo para a produção dos itens colecionáveis. A partir de 2031, a empresa Fanatics Collectibles, por meio da divisão Topps, ficará responsável pela produção e fornecimento dos materiais.

Neste ano, o álbum da Fifa chegou ainda maior ao público. Como 48 seleções disputarão a Copa do Mundo, os colecionadores precisarão preencher 980 cromos — 300 a mais do que em 2022. Estão sendo comercializados envelopes com sete figurinhas, vendidos ao preço de R$ 1 cada.

Entre os jogadores, chama atenção a ausência do camisa 10 da seleção brasileira, Neymar Júnior. Por outro lado, os cromos contam com a presença de Vini Júnior, que aparece também em categorias especiais, como Ícone, “golden baller” e Legends, ao lado de jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo e Mbappé.

O fotógrafo Marcus Vinícius é um dos alagoanos que já garantiram o álbum para preenchê-lo até o fim da Copa. Ele coleciona as figurinhas desde o Mundial de 2010. Para ele, a prática é uma forma de viver e guardar recordações do campeonato.

“A sensação de trocar figurinhas com um amigo e encontrar jogadores ‘raros’ é uma memória afetiva que volta a aparecer em ano de Copa”, afirma.

Quanto ao preço, ele concorda que os valores aumentaram. Marcus lembra que, em 2018, chegou a comprar um álbum por R$ 7. Neste ano, a compra custou R$ 27. Além disso, há os gastos com as figurinhas, embora parte dos custos possa ser reduzida com as trocas de cromos repetidos.

No entanto, os preços dos álbuns variam. Em uma plataforma online de compras, por exemplo, os valores vão de R$ 24 a mais de R$ 1.200, dependendo do tipo de capa e da quantidade de envelopes que acompanham a coleção.

Marcus Vinícius já começou a trocar figurinhas para economizar. A prática é feita com primos, amigos e até contatos realizados pela internet. Com isso, ele já conseguiu preencher 150 cromos.

“Eu postei que estava colecionando e, na quinta-feira, um amigo respondeu imediatamente perguntando se eu tinha repetidas para trocar. Ontem [quarta-feira], fui buscar as dele e deixar as minhas com ele. Isso acontece de forma natural: quando é uma seleção mais famosa ou com jogadores mais conhecidos, falamos o nome do jogador que temos e daquele que falta”, relata Marcus.

O pequeno Theo, de apenas 7 anos, começou a colecionar figurinhas pela primeira vez. Ele compartilha o momento com os pais, Jamylle Bezerra e Rodrigo Aragão, além dos amigos da escola e do jiu-jítsu.

“Essa é a primeira Copa de que ele vai se lembrar. Na última, ele tinha apenas três anos e não lembra de nada. Ele nem é muito conectado ao futebol, mas está bastante empolgado. Escuta os amigos da escola falarem de alguns jogadores e passa a querer figurinhas deles, como as do Cristiano Ronaldo”, afirma Jamylle.

Para ela, essa é uma oportunidade de Theo viver um pouco da experiência que o pai teve durante a infância e sentir o “gostinho” do que foi ser criança nos anos 1990.

“Saber esperar a figurinha tão desejada, aprender a trocar repetidas com os amigos, empolgar-se ao abrir cada pacotinho e carregar o álbum debaixo do braço para compartilhar com os colegas da escola”, explica Jamylle, acrescentando que o filho já demonstrou diversas vezes que gostou da experiência de colar as figurinhas.

“A ideia é comprar novos pacotinhos sempre aos fins de semana”, comenta.

Esta é a segunda vez que João Guilherme coleciona figurinhas da Copa do Mundo. Para ele, a experiência é “emocionante” e lhe “traz muitas felicidades”. Além de comprar e trocar figurinhas, ele também gosta de brincar de bafo com os amigos.

Imagem ilustrativa da imagem Paixão que resiste ao tempo: hábito de colecionar figurinhas da Copa desafia a era digital em Alagoas
| Foto: Acervo pessoal

A brincadeira funciona da seguinte maneira: forma-se uma roda, e cada participante coloca determinada quantidade de figurinhas no centro. Em seguida, cada um espera sua vez de jogar. O participante ganha as figurinhas que conseguir virar com o ar provocado pela batida das mãos.

Segundo o adolescente, conseguir novas peças é divertido porque ele volta a “ser criança”, além de alimentar sua paixão pelo futebol. Ele afirma, inclusive, ter achado “péssimo” Neymar ter ficado fora do álbum, já que o camisa 10 é seu jogador preferido.

Fred Klaus Batista coleciona figurinhas da Copa do Mundo há muitos anos. Ele tinha 10 anos e ainda frequentava a escola quando começou a participar da brincadeira, preenchendo o álbum do Campeonato Brasileiro de 1995, ano em que seu time do coração, o Botafogo, foi campeão.

Depois disso, passou muitos anos sem completar qualquer álbum relacionado ao futebol, fosse nacional ou mundial.

Entretanto, em 2014, quando o Brasil vivia intensamente o clima da Copa realizada no país, Fred voltou a se envolver com a coleção.

“Havia algo muito especial em viver aquela festa no nosso país e ainda ter o álbum como memória física daquele momento”, comenta.

Retomar o hábito de colecionar figurinhas foi, para ele, como “reencontrar uma paixão antiga”.

“O cheiro dos envelopes, a emoção de abrir os pacotes... tudo voltou como se eu nunca tivesse parado”, relata o advogado.

Desde 2014, colecionar figurinhas da Copa passou a significar também colecionar momentos em família. Naquele ano, a esposa ainda era sua namorada, e os dois passaram a transformar os encontros para troca de figurinhas em um programa de fim de semana.

“Em 2022, nosso filho tinha apenas dois anos, mas já o levávamos aos encontros nas livrarias dos shoppings”, recorda.

Hoje, o filho de Fred tem seis anos e já está ansioso pelo álbum da Copa de 2026. A criança, inclusive, ajudou o pai a colar as figurinhas que faltavam no álbum de 2022, conseguidas neste ano com um colecionador de Santa Catarina.

“Vê-lo com toda aquela empolgação não tem preço”, comenta Fred.

Fred também possui estratégias para conseguir figurinhas e organizar os gastos com os envelopes. No início da coleção, costuma comprar 25 pacotes de uma só vez e em locais diferentes.

“Dessa maneira, consigo volume suficiente para realizar trocas. Isso acelera o processo e aumenta as chances de encontrar figurinhas raras logo no começo. Depois, o ritmo vai diminuindo conforme o álbum vai sendo completado”, explica.

O advogado afirma não pensar muito nos valores envolvidos ou se compensa financeiramente adquirir as figurinhas. Para ele, o foco está na satisfação pessoal e na interação com pessoas de diferentes idades que compartilham da mesma paixão.

“É impressionante como um álbum de figurinhas aproxima pessoas tão diferentes”, ressalta.

E quando encontra a última figurinha necessária para completar uma seleção inteira, ele descreve a sensação como única.

“Em 2014, quando completei o álbum aqui no Brasil, foi ainda mais especial. Tenho um carinho enorme por ele até hoje. Até meu filho já criou carinho pelo álbum e sempre pede para vê-lo, porque diz que é o ‘álbum do Brasil’. Foi a Copa que vivi de perto, e o álbum guarda isso para sempre”, finaliza Fred.

Lilian Soriano é uma das responsáveis por um dos pontos de compra, venda e troca de figurinhas. O espaço funciona no Maceió Shopping e permanecerá aberto até o dia 31 de julho.

Maceió, 06 de maio de 2026 Troca de figurinhas do álbum da Copa do Mundo, no Maceió Shopping. Alagoas - Brasil. Foto:@Ailton Cruz
Maceió, 06 de maio de 2026 Troca de figurinhas do álbum da Copa do Mundo, no Maceió Shopping. Alagoas - Brasil. Foto:@Ailton Cruz | Foto: @Ailton Cruz

Segundo ela, o local tem recebido grande movimentação, não apenas de crianças, mas também de adolescentes e adultos.

“As figuras mais esperadas são as Legends, que reúnem os jogadores de maior destaque. Mas os envelopes são vendidos fechados, então não há como saber quais figurinhas vêm dentro”, explica.

Lilian acredita que, mesmo com toda a tecnologia e o ambiente digital dominando o cotidiano das pessoas, o álbum de figurinhas continua proporcionando uma experiência única.

“Ele desperta nostalgia, emoção e conexão entre as pessoas. Colecionar figurinhas vai muito além de completar páginas: é viver a expectativa de abrir cada envelope, trocar repetidas com amigos e familiares e guardar lembranças de cada Copa do Mundo”, pontua.

Além disso, acrescenta ela, trata-se de uma forma de recordar momentos especiais e históricos do futebol.

“Muitas pessoas começaram essa tradição na infância e hoje passam esse hábito de geração em geração. O digital informa, mas o álbum proporciona sentimento, interação e memória afetiva”, conclui Lilian.

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