DIAS DAS CRIANÇAS
O desafio da infância longe das telas: pais buscam alternativas para crianças
Estratégias para limitar o uso de celulares e tablets na rotina dos filhos ganham apoio de especialistas
Entre livros, lápis de colorir, quebra-cabeças e peças de montar, a infância de Bento, de 2 anos e 7 meses, é preenchida por descobertas que não dependem de uma tela. Filho da fisioterapeuta Nara Nascimento, de 31 anos, o menino passou os dois primeiros anos de vida sem acesso a celulares, tablets ou televisão. A decisão foi tomada pela família para priorizar as brincadeiras, a criatividade e o contato com o mundo ao redor.
Depois dos 2 anos, as telas passaram a fazer parte da rotina de forma limitada. De segunda a sexta-feira, Bento não tem acesso aos dispositivos. Nos fins de semana, o uso é liberado por alguns minutos, uma vez ao dia. A regra exige organização, sobretudo quando a família precisa sair de casa ou enfrentar longos deslocamentos. Em uma viagem de 12 horas na ida e outras 12 horas na volta, Nara decidiu apostar nos brinquedos e nos livros preferidos do filho.
“Confesso que nem eu acreditei que íamos conseguir. Eu já fui imaginando que, em algum momento, as telas iam aparecer nessa viagem e que também estava tudo bem se isso acontecesse. Mas conseguimos”, conta.
A estratégia foi preparar uma espécie de kit de entretenimento para o percurso. Nara levou brinquedos de que Bento gosta, seis livros, uma lousa branca e canetas para desenhar. Um dos livros era novo, escolha que, segundo ela, ajudou a despertar a curiosidade do menino.
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“Uma dica para viagem: brinquedos e livros novos geram mais curiosidade e interesse”, recomenda. Durante o percurso, mãe e filho desenharam e fizeram atividades para ele cobrir traçados. Bento também gosta de quebra-cabeças e peças de montar, como Lego.
A experiência ilustra um desafio comum entre famílias com crianças pequenas: encontrar alternativas ao celular e à televisão sem transformar a rotina em uma disputa constante. No Dia das Crianças, celebrado nesta segunda-feira, 12 de outubro, a importância do brincar ganha destaque como forma de estimular a criatividade, a imaginação e o desenvolvimento infantil. Para a psicóloga infantil e analista do comportamento Amanda Santos, a tecnologia não precisa ser tratada como inimiga, mas o uso excessivo merece atenção quando ocupa o lugar de experiências essenciais para o desenvolvimento.
“A tecnologia faz parte da nossa realidade e não precisamos tratar as telas como vilãs. Porém, a dificuldade dos pais é ter o controle do tempo que as crianças passam e a falta de supervisão”, explica.
Segundo a especialista, o problema aparece quando os dispositivos substituem momentos de brincadeira, conversa, movimento e convivência. Uma rotina muito passiva, marcada por estímulos rápidos, também pode dificultar o aprendizado de habilidades como esperar, lidar com o tédio, tolerar frustrações e manter a atenção em atividades menos estimulantes.
A preocupação com o contato precoce com dispositivos também orientou as escolhas de Ewylla Sinara da Silva Assis, de 28 anos, mãe de Aurora Assis de Lima, de 1 ano e 5 meses. Desde a gestação, ela decidiu evitar que a filha tivesse contato com telas nos primeiros anos de vida, após buscar informações sobre possíveis impactos no desenvolvimento infantil.
“Para que ela conseguisse enxergar o universo real ao redor dela, explorar e se desenvolver da melhor maneira possível”, explica Ewylla sobre o motivo de priorizar brincadeiras longe dos aparelhos eletrônicos.
Aurora gosta de colorir e brincar em um cavalinho de borracha, atividade que permite movimento e exploração. Para a mãe, observar a reação da menina diante da televisão reforçou a decisão de limitar o contato com telas.
“Sempre que vamos à casa de algum parente, ela passa o olho na TV e, de imediato, vejo que perde o interesse pelos brinquedos, pelas brincadeiras e pelas pessoas”, relata. Quando percebe a mudança, Ewylla procura chamar a atenção da filha e afastá-la do ambiente em que a televisão está ligada.
Na rotina doméstica, a mãe também encontrou oportunidades de transformar tarefas simples em momentos de participação e aprendizado. Quando lava a louça ou coloca roupas na máquina, por exemplo, procura incluir Aurora em atividades adequadas à idade da menina.
“Se você conseguir manter o bebê ocupado, ele vai se sentir útil e concentrado”, afirma. Ewylla também conversa com a filha durante essas tarefas, explicando o que estão fazendo e o que acontecerá em seguida. Para ela, essa interação contribui para o aprendizado de palavras e para a compreensão das situações cotidianas.
O IMPACTO DO EXCESSO DE TELAS
De acordo com Amanda Santos, o excesso de telas pode afetar diferentes áreas do desenvolvimento infantil, como atenção, linguagem, sono, atividade física e habilidades sociais e emocionais. A especialista ressalta, porém, que a avaliação não depende apenas do número de horas diante dos dispositivos: também é preciso considerar a idade da criança, o conteúdo acessado, a supervisão de um adulto e as experiências que deixam de acontecer.
Entre os sinais que merecem atenção estão a irritabilidade quando chega a hora de desligar o aparelho, a dificuldade de brincar sem telas, a necessidade constante de estímulos, alterações no sono e a perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas.
Outro comportamento que merece cuidado, segundo a psicóloga, é usar o celular ou a televisão sempre que a criança fica triste, frustrada ou entediada. Embora a tela possa distrair momentaneamente, é importante que os pequenos também tenham oportunidades de reconhecer e lidar com as próprias emoções.
É justamente nas brincadeiras que essas experiências podem acontecer. Ao montar um quebra-cabeça, inventar uma história ou participar de um jogo, a criança exercita a criatividade, a memória, a atenção e a resolução de problemas. Nas atividades compartilhadas, aprende ainda a esperar, seguir regras, negociar, ganhar, perder e lidar com frustrações.
“Brincar é uma das principais formas de aprendizagem da criança”, afirma Amanda. Ela lembra que não é necessário investir em brinquedos caros: objetos simples podem abrir espaço para a imaginação e permitir que a criança crie as próprias brincadeiras.