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COMÉRCIO EXTERIOR

Governo diz que tarifaço impactará 18% das exportações para os EUA

Palácio do Planalto deve reforçar programa Brasil Soberano, que oferece linhas de crédito a exportadores

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Os presidentes Trump e Lula durante recente encontro na Casa Branca
Os presidentes Trump e Lula durante recente encontro na Casa Branca | Foto: — Foto: Ricardo Stuckert / PR

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nessa quinta-feira (16) um reforço ao programa Brasil Soberano, que oferece linhas de crédito a empresários afetados pelo tarifaço americano.

A medida é uma resposta à sobretaxa de 25% anunciada pelo governo de Donald Trump, que deve ser implementada a partir da próxima quarta-feira (22). Ainda não há detalhes sobre o valor do auxílio ou as condições de acesso aos exportadores brasileiros.

Segundo o governo, o tarifaço anunciado na noite dessa quarta (15) atinge 18% das exportações brasileiras aos EUA, ou cerca de US$ 7,4 bilhões (R$ 38 bilhões), considerando dados de 2024.

"Se nós considerarmos 2025, a participação desses setores atingidos por esse tarifaço indevido cai para 15% ou US$ 5,8 bilhões (quase R$ 30 bilhões)", complementou o ministro Márcio Elias Rosa (Indústria, Comércio e Serviços).

Outras instituições calcularam valores diferentes. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) afirma que a nova rodada colocará em risco o equivalente a 26% da pauta de exportações brasileiras aos EUA. A MB Associados estima que US$ 9,51 bilhões, ou 25,2% do valor exportado para território americano, estão expostos ao tarifaço, com base em números de 2025.

Máquinas e equipamentos, madeira e móveis e borracha e pneus são os setores mais atingidos, segundo a MB.

Além de Elias Rosa, participaram do anúncio os ministros Dario Durigan (Fazenda), Mauro Vieira (Relações Exteriores) e João Paulo Capobianco (Meio Ambiente). Também estavam presentes o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães.

Alckmin descreveu a medida anunciada pelos EUA como "injusta e descabida" e repetiu argumentos já utilizados pelo Brasil na discussão do tarifaço, lembrando que os EUA têm superávit comercial com o Brasil, e que o Pix, um dos alvos dos EUA, não prejudicou as empresas de cartão de crédito. "Trata-se de interferência externa indevida", disse o ministro da Fazenda, acusando a oposição de usar as novas tarifas como "muleta eleitoral".

Durigan afirmou que o governo reforçará o Brasil Soberano, uma linha de crédito para exportadores afetados pelo tarifaço e pela guerra no Irã, e afirmou que os ministros levarão a opção pela Lei de Reciprocidade ao presidente Lula, a quem caberá a decisão final.

Ele não deu detalhes sobre o valor que será destinado ao plano, embora tenha dito que espera um montante inferior ao que foi destinado em versões anteriores. Em agosto de 2025, o governo ofereceu R$ 30 bilhões, e em março deste ano, R$ 15 bilhões remanescentes da primeira linha.

"Rapidamente a gente vai ouvir os setores [econômicos] e reforçar as linhas já existentes do Plano Brasil Soberano", disse Durigan.

As autoridades presentes buscaram desconstruir os argumentos mobilizados pelos EUA para justificar a aplicação de tarifas contra o Brasil. A secretária nacional de Justiça classificou como "falsas e injustas" as alegações sobre combate à corrupção utilizadas no relatório do USTR.

"Gostaria de destacar que [o dossiê americano cita] o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2023, que trata, na verdade de dados do governo anterior, quando nós já temos o relatório de 2026 da OCDE, que reconhece os avanços relevantes do Brasil no fortalecimento das políticas de combate à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao crime organizado", afirmou.

O ministro João Paulo Capobianco, do Meio Ambiente, destacou esforços do governo para o combate ao desmatamento e a redução dos índices de desmatamento desde 2023 —embora tenha implementado uma pauta antiambiental à frente do governo, a gestão Trump acusou o Brasil de não fazer o suficiente para combater o desmatamento.

"Verificando que seria impossível seguir acusando o Brasil de aumentar o desmatamento de forma descontrolada, apareceram com uma nova informação, essa ainda mais falsa: de que o Brasil estaria desmatando ilegalmente e inundando o mercado internacional com madeiras de origem ilegal" disse o ministro. "Isso é absolutamente inverídico".

Para o presidente do Banco Central, os argumentos contra o Pix são o caso mais "flagrante" das desculpas dadas pelos americanos para aplicar tarifas contra o Brasil. Na investigação, o governo de Donald Trump acusou a autoridade monetária de favorecer o sistema de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento.

Em sua fala, Galípolo ressaltou que, desde a implementação do Pix, o mercado de cartões de crédito cresceu 150% e que foram os cheques e o dinheiro físico que perderam espaço.

Ele também destacou o Pix como referência internacional e disse que o BC já assinou com mais de 47 bancos centrais algum tipo de cooperação técnica para a transferência de tecnologia para desenvolvimento de sistemas de pagamentos instantâneos.

"Do lado do Banco Central, a gente vai seguir sempre fornecendo o Pix como algo gratuito, seguro e instantâneo e seguir na evolução técnica do Pix em cooperação com outros bancos centrais para que cada vez mais a população brasileira possa ter acesso a serviços financeiros de maneira mais segura, mais rápida e com maior inclusão financeira", disse.

Após a decisão do governo americano, o secretário de Estado, Marco Rubio, culpou o presidente Lula pela nova sanção ao país sob o argumento de que o chefe do Executivo e o governo brasileiro não negociaram com os EUA de boa-fé.

"Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso", escreveu Rubio.

Os ministros defenderam a postura do governo brasileiro ao longo das tratativas. Segundo o chanceler Mauro Vieira, foram mais de 30 encontros, incluindo conversas virtuais e presenciais em níveis presidencial, ministerial ou técnico.

"Age com boa-fé quem atua com base na realidade e na verdade. Nós atuamos com boa-fé em todo esse processo", rebateu Elias Rosa. "Jamais nos distanciamos da verdade. Por isso, não é justo que nos atribuam a atuação de outro modo que não o modo respeitoso da lealdade e da boa-fé. O Brasil continua firme, forte e à disposição para negociação."

No início da madrugada, em nota oficial, o governo condenou a nova rodada de tarifas americanas e disse que iniciará imediatamente os trâmites para acionar a Lei de Reciprocidade, que permite ao Brasil retaliar barreiras comerciais injustas. Um dia depois do anúncio, as autoridades disseram que ainda vão analisar o momento adequado e a forma de agir.

Veja produtos que estão fora do tarifaço

Produtos de origem animal e carnes

Carne bovina: carne bovina fresca, refrigerada ou congelada; carcaças; meias-carcaças; cortes com e sem osso; cortes de alta qualidade; carnes processadas.

Miudezas e preparados: línguas; fígados; outras miudezas bovinas; carne preparada ou preservada, como corned beef.

Peixes e crustáceos: tilápia (fresca, refrigerada ou congelada, exceto filés em alguns casos); atum albacora e patudo; cavala; espadarte; lagosta; lagostins-do-mar.

Outros produtos de origem animal: mel natural orgânico certificado; coral; conchas.

Produtos vegetais e alimentos preparados

Hortaliças e legumes: tomates (com períodos específicos de entrada); jicama; fruta-pão; chuchu; brotos de bambu; castanhas-d'água; alcaparras; cogumelos secos (orelha-de-pau e shiitake).

Raízes e tubérculos: feijão Bambara; mandioca (cassava); taro; inhame (yautia); dasheens; araruta.

Frutas e nozes: cocos; castanha-do-pará; castanha de caju; macadâmia; noz-de-cola; areca; pinhões; bananas; abacaxis; abacates; goiabas; mangas; mangostões; laranjas; limas; etrogs; papaias; marmelos; kiwis; duriões; bagas.

Café, chá e especiarias: café (torrado ou não, descafeinado ou não); café solúvel, chá verde; chá preto; erva-mate; pimenta; páprica; baunilha; canela; cravo; noz-moscada; macis; cardamomo; coentro; cominho; gengibre; açafrão; cúrcuma; louro; curry; endro.

Cereais, moagem e bebidas: cevada; alpiste; fonio; triticale; amidos; farinhas; suco de laranja; sucos cítricos; suco de abacaxi; água de coco.

Minerais, químicos e combustíveis

Minérios e minerais: grafite; caulim; fosfatos; sulfato de bário; magnésite; amianto; mica; minérios de ferro, cobre, níquel, cobalto, alumínio, zinco, estanho, cromo, tungstênio, urânio e titânio.

Combustíveis e óleos: carvão; linhite; turfa; coque; benzeno; tolueno; xilenos; naftaleno; petróleo bruto e refinado; óleos para motores e lubrificantes; biodiesel; gás natural; propano; butanos.

Produtos químicos: iodo; gases raros; ácidos clorídrico, sulfúrico e fosfórico; óxidos metálicos; hidrocarbonetos; derivados halogenados; álcoois; fenóis; éteres; cetonas; ácidos carboxílicos; vitaminas; hormônios; antibióticos (muitos classificados como Pharma).

Produtos médicos, farmacêuticos e fertilizantes

Sangue e vacinas: plasma humano; soro bovino fetal; produtos imunológicos; vacinas humanas e veterinárias; toxinas.

Medicamentos: produtos contendo penicilinas; insulina; corticosteroides; alcaloides; vitaminas.

Fertilizantes: fertilizantes de origem animal ou vegetal; ureia; sulfato de amônio; nitratos; superfosfatos.

Materiais industriais

Plásticos e borracha: polímeros de etileno, propileno e vinila; silicones; tubos; mangueiras; pneus (especialmente para aeronaves); juntas.

Madeira e papel: madeira em bruto ou serrada (mogno, teca e meranti); compensados (plywood); painéis; pastas de madeira; produtos de papel para aeronaves.

Metais, máquinas e equipamentos

Metais: ferro fundido; ferroligas; sucata; tubos de aço; cobre; níquel; alumínio; zinco; estanho; metais raros.

Máquinas: motores de aeronaves (turbojatos e turbopropulsores); bombas; compressores; ventiladores; aparelhos de ar-condicionado; refrigeradores; extintores.

Informática e eletrônicos: computadores e unidades de processamento de dados; notebooks; teclados; unidades de disco; circuitos integrados; monitores; projetores; smartphones.

Aeronaves, instrumentos e outros produtos

Aeronáutica: balões; helicópteros; aviões; drones; hélices; trens de pouso.

Instrumentos: lentes; prismas; bússolas; pilotos automáticos; termômetros; barômetros; multímetros.

Arte e antiguidades: pinturas; esculturas; selos; coleções de interesse histórico ou botânico.

Produtos que serão taxados

Etanol

Máquinas agrícolas

Vestuário

Maquinário elétrico

Calçados

Ferramentas de jardinagem

Equipamentos de mineração

Papel

Açúcar orgânico

Bens de capital

Manufaturados em geral

Produtos químicos diversos

Itens industriais processados

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