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Acima de qualquer suspeita?
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À mulher de César não basta ser honesta; deve parecer honesta. A frase que inicia este texto atravessou os séculos porque toca em uma questão que o futebol conhece bem: a reputação não depende somente do que alguém faz, mas também daquilo que faz parecer legítimo.
Após quase dois anos de apuração, o UOL revelou a oferta de quatro licenças de treinador da Associação de Técnicos do Futebol Argentino (ATFA), da categoria básica à PRO, por cerca de R$ 100 mil, com emissão em até dez dias, sem a necessidade de cumprir a formação regular. O plano parecia perfeito: estrelas do futebol, facilidades sob medida e documentos que registravam anos de curso. A entidade negou ter vínculo com Alejandro Mancuso e afirmou que os certificados eram falsos.
Entre os nomes citados estão Thiago Silva, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Petkovic, Diego Lugano e Paolo Guerrero. A reportagem mostra jogadores posando com diplomas e carteirinhas, imagens que ganham outro peso diante das revelações, porque um diploma não é um souvenir, mas a afirmação pública de que determinado percurso foi cumprido.
Thiago Silva, ex-capitão da Seleção Brasileira e referência de sua geração, afirmou, por meio de sua assessoria, que pagou por cursos que não foram ministrados conforme o prometido, tentou verificar os documentos e nunca utilizou as licenças. A versão precisa ser considerada, mas permanece uma pergunta difícil de responder: como receber e exibir uma licença se a formação que ela representa não foi concluída?
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Não cabe afirmar que todos sabiam que os documentos eram falsos, mas, diante de diplomas, carteirinhas e cursos não concluídos, também é difícil tratar o atalho como um detalhe. Nossa tolerância parece mudar conforme quem corta caminho: a regra é rígida para alguns e negociável para quem acredita merecer uma exceção.
Ser craque traz história, experiência e um repertório que nenhuma sala de aula é capaz de reproduzir, mas nada disso concede o direito de passar à frente. No fim, a pergunta não é apenas quem foi enganado, mas quantas vezes chamamos de esperteza aquilo que, se fosse feito por qualquer outra pessoa, chamaríamos de desonestidade.