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CORRIDA PELA GESTAÇÃO

“Trimestre zero”: moda nas redes sociais gera alerta sobre fertilidade

“Trend” promete aumentar a chance de gravidez ao longo de 90 dias, mas especialistas fazem alerta

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Moda na internet pode deixar mulheres que desejam engravidar frustradas
Moda na internet pode deixar mulheres que desejam engravidar frustradas | Foto: Freepik

Nos últimos meses, uma nova tendência nas redes sociais começou a ganhar força entre mulheres que desejam engravidar. No TikTok, principalmente, criadores de conteúdo e influenciadores passaram a promover o chamado “trimestre zero”, um período de três meses antes da tentativa de concepção dedicado a mudanças intensas em aspectos como estilo de vida, dieta, suplementos e rotina de saúde.

A promessa parece sedutora: preparar o corpo com antecedência para aumentar a fertilidade, melhorar a qualidade dos óvulos e até reduzir o risco de aborto espontâneo. Em alguns vídeos, o período virou quase um protocolo: dietas restritivas, rotinas de exercícios, listas de suplementos e até a eliminação de cosméticos considerados “tóxicos”.

Mas o que existe de ciência por trás dessa ideia e o que é apenas exagero? “O conceito tem uma base biológica real: tanto o óvulo quanto o espermatozoide levam cerca de 90 dias para amadurecer, e o que a mulher e o homem vivem nesse período pode, sim, influenciar a qualidade dessas células”, explica o ginecologista e obstetra Denis Schapira Wajman, especialista em reprodução humana do Einstein Hospital Israelita.

Ainda assim, não significa que três meses de mudanças intensas vão necessariamente transformar a fertilidade de uma pessoa. O risco dos radicalismos Muitas rotinas associadas ao “trimestre zero” incluem dietas restritivas, perda de peso acelerada e treinos intensos com o objetivo de atingir um “corpo ideal” antes da gravidez.

O problema é que intervenções radicais podem desregular o próprio sistema hormonal responsável pela ovulação. Emagrecimento excessivo, restrição calórica severa e exercícios em excesso podem suprimir a função ovariana e levar à anovulação, quando o ovário deixa de liberar óvulos. Além disso, pode haver desregulação hormonal, o que também não é desejável para quem pretende engravidar. Existe ainda outro efeito colateral possível da tendência: a ansiedade.

“Níveis elevados de estresse e ansiedade no período pré-concepcional estão associados a maior dificuldade para engravidar, ciclos irregulares e maior risco de anovulação”, alerta o médico do Einstein.

Essa pressão também é alimentada por uma ideia equivocada: a de que a gravidez pode ser planejada com precisão matemática. Na prática, mesmo casais completamente saudáveis têm de 20% a 25% de chance de engravidar em cada ciclo menstrual.

“A gravidez não é totalmente controlável, e criar essa ilusão pode gerar sofrimento desnecessário quando a espera se prolonga”, salienta o ginecologista. Uma das promessas mais repetidas nas redes sociais é a ideia de que seria possível “melhorar a qualidade dos óvulos” em poucos meses. Mas isso depende de processos celulares complexos, como integridade cromossômica, função mitocondrial e regulação genética, mecanismos que dificilmente podem ser revertidos.

“Portanto, acreditar que a qualidade dos óvulos pode ser significativamente alterada em três meses pode levar a expectativas irreais e frustrações”, alerta o endocrinologista Fabio Comim, diretor do departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

Outra questão é a reserva ovariana, o estoque total dessas células. Ela é determinada antes mesmo do nascimento e diminui progressivamente ao longo da vida, especialmente após os 35 anos. Quanto à promessa de reduzir casos de aborto espontâneo, a maioria tem causa cromossômica, e isso não é modificável por nenhum hábito de vida.

O que faz diferença

Embora não sejam uma solução milagrosa, mudanças no “trimestre zero” podem ter impacto real em alguns casos, principalmente quando há fatores de risco. Parar de fumar, reduzir o consumo de álcool e controlar o peso podem diminuir o risco de malformações, aborto e complicações na gestação.

“Um estudo europeu recente mostrou que tabagismo e obesidade afetam negativamente o crescimento do embrião já nas primeiras semanas, enquanto níveis adequados de folato [vitamina B9] favorecem esse desenvolvimento”, relata o ginecologista.

Daí vem a recomendação de suplementar ácido fólico, a forma sintética do folato, antes da gravidez. Doses adequadas do nutriente reduzem o risco de malformações no tubo neural, além de melhorar as chances de concepção tanto natural como na fertilização in vitro (FIV).

O cuidado com certos produtos de higiene pessoal, incluindo cosméticos, também faz sentido. Alguns têm substâncias que são disruptores endócrinos, capazes de interferir nos sistemas hormonais e impactar negativamente a função reprodutiva em homens e mulheres.

Outras medidas essenciais incluem controlar doenças como diabetes, hipertensão e distúrbios da tireoide; atualizar vacinas como as de influenza, hepatite B, rubéola, varicela e HPV quando indicado; cuidar da saúde mental; e realizar exames e acompanhamento médico regularmente.

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