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Comida afetiva: pratos com sabor e cheiro de cozinha de mãe e de vó

Restaurantes resgatam memórias de infância ao ofertar pratos que lembram mães e avós

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Chef Rodrigo Aragão resgata memórias afetivas com pratos ofertados no Ôxe Comidas Nordestinas
Chef Rodrigo Aragão resgata memórias afetivas com pratos ofertados no Ôxe Comidas Nordestinas | Foto: Cortesia

Cozinhar é uma arte que vai além das técnicas de preparo. Em meio a esse universo, alguns restaurantes apostam em um ingrediente mais que especial: o resgate da memória afetiva, que remete a almoço de domingo na casa de mãe. Esse conceito tem ganhado espaço no mercado ao conquistar um público que busca mais do que sabor e procura experiências carregadas de história, lembranças e emoção. Um tempero que remete ao passado, com um preparo cheio de significado e receitas de família que atravessam gerações.

O chef Rodrigo Aragão sabe bem o que significa misturar lembranças com comida. À frente do Ôxe Comidas Nordestinas, ele conta que o que atrai tantos clientes ao restaurante não é bem um segredo, mas o que está por trás da criação do Ôxe: comida de casa com técnica de restaurante. Sobre apostar no regionalismo afetivo em vez de apenas seguir tendências gastronômicas, Rodrigo garante que a cozinha regional é a única que conhece de fato e, por isso, a única que sabe fazer.

Não é exagero: as comidas podem trazer lembranças e provocar uma viagem no tempo. Rodrigo relata que presenciou um momento tocante em seu restaurante quando um cliente, ao provar seu feijão caseiro, se emocionou e saiu do salão.

Ser-Afim serve pratos vegetarianos e veganos cheios de afeto
Ser-Afim serve pratos vegetarianos e veganos cheios de afeto | Foto: Cortesia

“Quando procuramos saber o que tinha ocorrido, ele nos contou que a mãe o deu para uma tia, pois não tinha condições de criá-lo; e, 25 anos depois, ele volta a Maceió e aquele sabor o levou de volta à infância, ao tempero da mãe. O fez voltar no tempo”, conta.

Por meio do cardápio, Rodrigo também compartilha suas memórias familiares, que se entrelaçam com as dos clientes. Ele conta que na terra da avó dele, Mossoró, no Rio Grande do Norte, há um prato típico de arroz de leite salgado com queijo coalho. “Minha avó tem o hábito de comer com peixe; no Ôxe, sirvo com paçoca de charque. Ao provar, quem for de Mossoró, logo se conecta”, conta.

O menu do Ôxe faz um circuito por Alagoas. A estrela é o queijo Bazulaque, produzido na fazenda Amazonas, no município de Atalaia. “É um queijo produzido apenas nessa pequena parte do Agreste alagoano. E quem cresceu em fazenda, ou próximo à região, logo que degusta faz uma viagem à infância”, conclui.

A Proposta do Ser-Afim

Restaurantes vegetarianos e veganos já são um diferencial por si só, mas o Ser-Afim tem uma proposta singular: além de natural, é afetiva. Esse traço não nasceu por acaso. O proprietário, Uriel Diaz, cresceu com um estilo de vida "natureba", onde a alimentação era naturalista, integral, com pouco consumo de carne e seguia a macrobiótica — vertente alimentícia que visa a harmonia com a natureza e o bem-estar, evitando alimentos processados.

A mãe dele tinha um talento nato para a cozinha, sempre criando receitas que as pessoas não conheciam; era o "prato cheio" para abrir um restaurante inovador. Inaugurado em 2012, precisaram encerrar as atividades em fevereiro do ano passado. Nesse meio-tempo, a mãe dele faleceu, e, ao reabrir o restaurante, ele veio com um significado ainda maior: continuar levando as receitas dela para outras pessoas.

Chef boliviano Boris Guimbard foca na comida caseira
Chef boliviano Boris Guimbard foca na comida caseira | Foto: Cortesia

O Ser-Afim desmistifica a ideia de que comida natural é sem graça. O uso de ingredientes frescos ajuda a criar uma sensação de conforto. Os princípios da casa são: o mínimo possível de itens industrializados e a priorização do prazer de comer, com pratos saborosos e bem temperados.

Dentre os sucessos estão a feijoada de cogumelos, o pastelzinho de tofu, acarajés veganos com vatapá de abóbora no amendoim e vinagrete, o bolinho de couve-flor e as lasanhas de berinjela. “As pessoas se surpreendem porque a gente foge dessa ideia que têm do vegetariano. Não se come só salada ou só soja. A gente faz de tudo”, diz.

Pensando em propagar essa cultura, Uriel lançou o curso Ser-Afim: A arte de comer bem. Apresentado por ele e sua mãe (em registros gravados), ensinam as receitas criadas por ambos. As 20 aulas são um manual para o dia a dia de como se alimentar melhor.

Gastronomia sem Fronteiras no La Casita

O chef boliviano Boris Guimbard assina o menu do restaurante La Casita, localizado na Pajuçara. O próprio nome sugere um ambiente familiar. Mesmo sendo boliviano, Boris não se restringe à culinária de seu país natal; o foco é a comida caseira.

A culinária ali é sem fronteiras e abraça o público de onde for através do conforto. Seu objetivo é representar uma cozinha que não seja estritamente boliviana ou brasileira, mas universal.

Ele conta que um prato servido no La Casita que lembra sua infância é o majadito: um preparo de charque com arroz e especiarias, acompanhado de ovo e banana frita. Ao apresentar sabores de outras culturas para o público alagoano, o La Casita se torna um espaço de descoberta e abrigo.

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