SAÚDE
Tratamento do Alzheimer avança, mas cura ainda é sonho distante
Pesquisas se aprofundam na compreensão da doença e novos fármacos prometem controle dos sintomas
Responsável por seis em cada dez casos de demência no mundo, o Alzheimer é um dos maiores desafios de saúde pública global atualmente. E a tendência é de que isso se intensifique nas próximas décadas: até 2050, mais de 4 milhões de brasileiros viverão com a doença, de acordo com projeções do Ministério da Saúde.
Diante desse cenário, a ciência busca formas de diagnóstico e tratamento mais eficazes. Nos últimos cinco anos, surgiram os primeiros medicamentos capazes de atuar não apenas nos sintomas, mas também em mecanismos ligados à origem da doença, como o acúmulo de proteínas tóxicas no cérebro. Em paralelo, progridem pesquisas que podem tornar o diagnóstico mais simples e acessível, incluindo exames de sangue.
Mas esse ainda é um caminho repleto de desafios. Os métodos de diagnóstico e tratamento são caros e complexos, e não há perspectiva de uma cura definitiva. “Estamos num momento bem promissor para o combate à doença de Alzheimer, porque realmente nos últimos anos vimos um avanço enorme”, analisa a neurologista Elisa Resende, coordenadora do departamento científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). “Estamos mais perto que nunca de sonhar com um controle dessa doença, mas infelizmente a cura ainda não está no horizonte”.
Uma pesquisa conduzida por brasileiros identificou como duas proteínas associadas ao Alzheimer interagem dentro das células cerebrais, uma favorecendo a ação da outra. Publicado em fevereiro na revista científica Nature Communications Chemistry, o estudo analisou o comportamento in vitro das proteínas tau e TDP-43 e revelou que ambas possuem conectores de proteínas que se recrutam mutuamente. Esses mecanismos facilitam sua interação para a formação de agregados tóxicos, semelhantes aos encontrados no cérebro de pessoas com Alzheimer.
A análise revela que o comportamento das proteínas varia conforme as condições do microambiente biomolecular do cérebro. "Um dos maiores problemas das doenças neurodegenerativas é desvendar quais são as modificações iniciais que levam essas proteínas a formarem agregados. Essa pesquisa, ainda preliminar, pode ser um avanço no entendimento desses mecanismos bioquímicos", afirma a neurologista Patrícia de Carvalho Aguiar, orientadora do trabalho e docente do programa de pós-graduação do Ensino Einstein.
Caso se confirme o papel central da associação entre essas proteínas na progressão da doença, é como se tivesse sido encontrado o gancho que as permite se juntar para entrar nas células. Esses achados podem contribuir, por exemplo, para o desenvolvimento de biomarcadores mais precoces que ajudem a diagnosticar o Alzheimer a partir das interações patológicas entre esses “ganchos” ou até mesmo para orientar novas terapias que tenham essas regiões de interação como alvo.
Diagnóstico mais preciso, porém distante
Estudos como esse indicam novos conhecimentos não só dos mecanismos da doença, mas também podem tornar o diagnóstico do Alzheimer mais preciso e precoce, o que é essencial para manter a qualidade de vida dos pacientes. A doença evolui em quatro estágios, que vão da forma inicial à terminal, e quanto antes forem feitas as intervenções, maior é a chance de aumentar a sobrevida.
O exame que confirma a condição com 100% de certeza só pode ser feito após a morte. Entretanto, cada vez mais ferramentas têm permitido aumentar a acurácia diagnóstica e não depender apenas da observação de sinais clínicos para uma suspeita de Alzheimer.
“Estamos transicionando para um diagnóstico biológico da doença, e não só clínico”, relata o neurologista Ivan Okamoto, do Einstein. “Já sabemos alguns dos biomarcadores que estamos buscando, mas ainda é caro fazer isso e certamente não será para um rastreio na população geral, mas sim para pacientes já com suspeitas”.
Segundo Okamoto, nos últimos cinco anos, a acurácia diagnóstica subiu de 80% para mais de 95% com o uso de novas ferramentas. Por trás desses aumentos estão a realização de procedimentos como o PET amiloide (exame de imagem) e as análises de amostras do líquor, feitas por punção lombar, que são considerados padrão-ouro atualmente.
Nesse contexto, os exames de sangue para detectar o Alzheimer se tornaram o próximo horizonte da ciência. Embora clínicas já ofereçam esse serviço, ainda há diversas limitações. “A quantidade de biomarcadores no sangue é muito pequena, são nanogramas, então não sabemos ainda como dizer quanto de sua presença é perigosa ou qual estágio da doença ela indicaria”, observa o neurologista.
“Além disso, os exames neste sentido são feitos fora do Brasil e não temos nenhum estudo que valide as poucas referências usadas para a população brasileira. Acredito que chegaremos lá em breve, mas não agora”.