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ARTE E CULTURA

Tradição que se reinventa

Com peças feitas à mão, Casa Alayde une afeto, design e saberes ancestrais em criações para o cotidiano

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Camila Barbosa transformou memória afetiva em negócio
Camila Barbosa transformou memória afetiva em negócio | Foto: Divulgação

Uma lembrança da infância, guardada nos delicados bicos de renda confeccionados pela avó, transformou-se em inspiração para um novo empreendimento criativo em Alagoas. Ao resgatar a tradição da renda singeleza e reinterpretá-la em acessórios e objetos contemporâneos, a arquiteta e urbanista Camila Barbosa mostra como um saber artesanal transmitido entre gerações pode ganhar novos significados, preservando a memória afetiva e ampliando o alcance de um importante patrimônio cultural alagoano.

Batizado de Casa Alayde, em homenagem à avó de Camila, que faleceu há 16 anos, o empreendimento tem encantado as pessoas com suas peças feitas à mão. Brincos que carregam beleza, tradição, cultura, delicadeza e modernidade, e que têm a singeleza como a matéria-prima principal. Uma história que começou recentemente, mas que já chegou carregada de significado.

“A Casa Alayde nasceu de uma memória afetiva. Minha avó, Alayde Barbosa, fazia renda singeleza como passatempo. Cresci vendo-a fazer os bicos de singeleza, e até hoje guardo alguns deles. Há alguns meses, durante a Artnor, vi que haveria uma oficina de singeleza. Não consegui vaga, mas aquilo despertou em mim a vontade de aprender. Foi então que conheci Jeane, da Artecer, lá mesmo na Artnor, e combinamos que eu faria o curso com ela, em Paripueira”, conta Camila.

E não demorou para que ela estivesse com agulha e linha nas mãos. “Quando comecei a aprender, me identifiquei imediatamente com a técnica. Foi um processo muito natural e, junto com o aprendizado, surgiu também a vontade de compartilhar esse patrimônio cultural com mais pessoas. A partir daí nasceu a Casa Alayde, uma forma de levar a renda singeleza para o cotidiano por meio de acessórios e objetos contemporâneos, sem perder a delicadeza e a essência da tradição”, explica Camila, que é responsável por todas as etapas que fazem o negócio acontecer.

Brincos misturam a delicadeza da singeleza com peças mais modernas
Brincos misturam a delicadeza da singeleza com peças mais modernas | Foto: Divulgação

As inspirações para as produções das peças vêm de vários lugares: da natureza, das cores, da arquitetura, da cultura alagoana e das histórias que a empreendedora encontra pelo caminho. Camila conta que gosta de explorar as possibilidades, unindo a tradição da renda a itens contemporâneos. “Gosto de aproximar a delicadeza da singeleza de outros materiais, como madeira, resina e metal, criando peças contemporâneas sem perder a identidade artesanal”, afirma.

A peça sempre começa a ser produzida com o trabalho manual de confecção da renda. Em seguida, vem a montagem, o acabamento e a revisão final. O resultado é um item exclusivo e que pode circular em diversos ambientes, do trabalho à festa.

Para a artista por trás de tudo, o principal desafio ao longo desse processo é, justamente, respeitar o tempo para que a renda fique pronta. “Como cada peça é feita artesanalmente, nenhuma é exatamente igual à outra, e acredito que essa singularidade é parte do seu valor. O principal desafio é respeitar o tempo do fazer manual. A singeleza exige atenção, paciência e precisão em cada etapa. Também existe o desafio de inovar sem descaracterizar a técnica. Meu objetivo não é transformar a singeleza em algo diferente, mas mostrar que ela pode ocupar novos espaços e dialogar com diferentes estilos e gerações”, fala.

E é justamente o equilíbrio entre a preservação da tradição e, ao mesmo tempo, a “evolução” da renda que Camila Barbosa tenta encontrar em cada peça confeccionada. “Eu acredito que uma tradição permanece viva quando continua fazendo sentido para as pessoas. Ao levar a singeleza para acessórios, itens de decoração e, futuramente, peças de vestuário, a Casa Alayde ajuda a apresentar essa técnica a novos públicos. Muitas pessoas conhecem a singeleza pela primeira vez através das peças da marca. Para mim, preservar não significa apenas guardar uma tradição, mas permitir que ela continue sendo usada, admirada e transmitida para as próximas gerações”, diz.

Renda singeleza carregam o legado de toda uma geração
Renda singeleza carregam o legado de toda uma geração | Foto: Divulgação

“Procuro preservar a essência da técnica, mas sem limitar suas possibilidades. A tradição está presente nos pontos, no saber manual e na história da singeleza. A inovação aparece nas formas, nas cores, nos materiais e nas novas aplicações que busco desenvolver. Gosto de pensar que a tradição é a raiz, enquanto a inovação são os caminhos que ela pode percorrer”, completa.

Ela conta, ainda, que a reação mais comum do público diante de suas peças é o encantamento e muitas pessoas se surpreendem ao descobrir que a renda delicada que as compõe é produzida manualmente.

Isso sem falar nas memórias afetivas que a renda desperta em muitas pessoas.

“É comum ouvir relatos de pessoas que lembram das avós, das mães ou de mulheres da família que tinham alguma relação com trabalhos manuais. As peças acabam criando conexões que vão além da estética, porque carregam história e identidade cultural. Uma cliente me contou que se emocionou ao conhecer a história da marca porque as peças a fizeram lembrar da avó que a criou. Ela disse que os acessórios eram ‘mimosos’, exatamente como definia a própria avó. Esse relato me tocou porque mostrou que a Casa Alayde não fala apenas sobre renda ou acessórios. Ela também desperta lembranças e conexões entre gerações”, diz.

Dos mais simples aos mais elegantes, brincos feitos com singeleza podem ser usados em qualquer lugar
Dos mais simples aos mais elegantes, brincos feitos com singeleza podem ser usados em qualquer lugar | Foto: Divulgação

Para o futuro da marca, Camila Barbosa diz que espera ver a singeleza transitando por diferentes universos e alcançando um público cada vez mais diversificado. Além dos acessórios, ela também pretende desenvolver peças de vestuário em tecidos naturais, como linho e algodão, além de produtos para casa, como porta-guardanapos, quadros e objetos decorativos.

“Também desejo criar colaborações com artistas e criativos de diferentes áreas, unindo diferentes linguagens em torno da singeleza. Daqui a cinco anos, espero ver a Casa Alayde consolidada como uma marca autoral, com público cativo e reconhecida por levar a renda singeleza a novos caminhos sem perder sua essência. Quero que as pessoas usem essas peças tanto no dia a dia quanto em ocasiões especiais, mostrando que tradição e contemporaneidade podem caminhar juntas”, resume.

As peças da Casa Alayde podem ser conferidas no Instagram (@casaalayde) e no site casaalayde.com.br, onde pode ser encontrado o catálogo da marca. Já os pedidos devem ser feitos por meio do WhatsApp.

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