EMPREENDEDORISMO 50+
O mundo dentro de um pote
Aos 62 anos, Ana Valéria Conrado transforma vidro, plantas, pedras e memórias em pequenos ecossistemas que encantam e carregam histórias
Há quem olhe para um pote de vidro e enxergue apenas um recipiente. Ana Valéria Conrado Alves, de 62 anos, enxerga um mundo inteiro. Dentro de seus terrários, pequenas plantas, musgos, pedras, areia e elementos cuidadosamente escolhidos formam verdadeiras miniaturas de florestas, praias e paisagens. Em alguns deles, há ainda personagens em escala reduzida, capazes de transformar uma composição de natureza em uma lembrança afetiva. É assim, entre terra, delicadeza e criatividade, que nasceu a Raiz no Pote.
A história de Ana Valéria com os terrários começou quase por acaso. Ela havia visto uma reportagem sobre o assunto na televisão, mas não chegou a procurar mais informações. Em 2020, já no início da pandemia, o tema voltou a aparecer em seu caminho, desta vez pelas redes sociais, quando uma pessoa passou a oferecer um curso para aprender a técnica. Ana decidiu fazer. Naquele momento, porém, não imaginava que estava abrindo os caminhos para um novo negócio.
Os primeiros trabalhos foram feitos para ela mesma e para presentear pessoas próximas. A descoberta de uma das principais características dos terrários, no entanto, chamou a atenção da filha de Ana: a baixa necessidade de manutenção. Como sempre gostou de ter plantas em casa, ela conhecia bem a dificuldade da filha em cuidar delas. A quantidade de água necessária para cada espécie era uma dúvida constante e, muitas vezes, as plantas acabavam morrendo. Nos terrários fechados, a realidade era outra.
Em condições adequadas, a rega pode acontecer apenas a cada três ou quatro meses, enquanto a poda é simples e não exige intervenções frequentes. A própria estrutura fechada ajuda a manter o equilíbrio do pequeno ecossistema. E foi justamente essa combinação entre natureza, beleza e praticidade que fez Ana perceber que havia ali mais do que um hobby. “Eles têm baixíssima manutenção”, explica Ana.
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Em 2020, aos 56 anos, ela decidiu transformar o interesse em negócio. Naquele período, havia deixado um apartamento em Maceió para morar em uma casa na Barra de São Miguel, no Litoral Sul do estado, o que também facilitou o início do trabalho com terra e plantas. Nascia, então, a Raiz no Pote, empreendimento que Ana define de uma maneira bastante particular: uma proposta de vender “arte, natureza e comodidade”.
Mas o que, afinal, existe dentro de um terrário? Para quem observa de fora, pode parecer apenas uma composição delicada de plantas. Ana explica, porém, que se trata de um pequeno ecossistema autossuficiente. No modelo fechado, o recipiente precisa permanecer em local arejado, iluminado e protegido do sol direto. Lá dentro, plantas, musgos, pedras, substratos e outros elementos naturais convivem em equilíbrio.
A água também participa de um ciclo próprio. A umidade gerada pelo ambiente fechado se transforma em pequenas gotículas no vidro, reproduzindo, em escala reduzida, o processo de chuva. Folhas que caem e se decompõem enriquecem o solo, enquanto pequenos organismos podem ser vistos trabalhando na terra. “Pense no terrário como uma mini floresta”, resume Ana. É justamente essa sensação de observar a vida acontecendo em um espaço tão pequeno que faz parte do encanto do trabalho.
A empreendedora produz tanto terrários fechados quanto os chamados mini jardins, que são modelos abertos. Nos primeiros, utiliza espécies tropicais que gostam de calor e umidade, como fitônias, mini-heres, musgos, avencas e unha-de-gato. Nos modelos abertos, entram principalmente diferentes espécies de cactos. Cada peça é montada de maneira individual e, por isso, nenhuma fica exatamente igual a outra.
O processo exige paciência e precisão. O vidro precisa ser transparente, resistente e livre de imperfeições que prejudiquem a visualização do interior. Para montar as paisagens, Ana utiliza pinças, tesouras e colheres compridas, mas nem sempre os instrumentos convencionais dão conta do desafio. Em recipientes com gargalos estreitos, por exemplo, a dificuldade e maior e é preciso improvisar. A dificuldade, entretanto, faz parte do prazer. Para ela, montar um terrário também tem um aspecto terapêutico: é um trabalho que exige calma, concentração e tempo.
Os materiais vêm de diferentes lugares. Algumas plantas, musgos, vidros e outros insumos são comprados em São Paulo, já que nem tudo está disponível em Maceió. Outros elementos são encontrados pela própria Ana durante suas idas à praia, como pedras, conchas e galhos. A natureza local também já inspirou coleções especiais. Uma delas foi criada em homenagem ao Rio São Francisco.
“O terrário é uma excelente opção para quem não sabe cuidar de plantas e quer ter natureza em casa. Já fiz uma linha toda em homenagem ao Rio São Francisco, com areia e pedras do próprio rio que minha filha trouxe de quando o visitou em Pão de Açúcar, na Ilha do Ferro. Areia de rio é muito boa pra fazer terrários, porque é rica em nutrientes, e as pedrinhas [cascalhos] que uso para compor a camada de drenagem também têm o tamanho ideal”, afirma.
Mais do que reproduzir paisagens, Ana descobriu que seus terrários também poderiam guardar histórias. Cerca de 80% das peças que vende são destinadas a presentes, segundo ela. Muitas ganham miniaturas personalizadas de pessoas, animais ou elementos importantes para quem faz a encomenda. As pequenas figuras são produzidas em São Paulo e podem reproduzir roupas, cabelos, objetos e outros detalhes de uma fotografia. Entre os pedidos mais frequentes estão representações religiosas, como Nossa Senhora, Jesus e Iemanjá.
Uma dessas encomendas, porém, ultrapassou a ideia de presente e se transformou em uma lembrança de afeto. Uma cliente procurou Ana para criar um terrário com a representação de uma avó que havia morrido recentemente. A partir de fotografias publicadas nas redes sociais, ela buscou reproduzir a roupa usada pela idosa, o banco onde costumava se sentar e até um gatinho que aparecia ao seu lado.
Quando recebeu a peça, a cliente se emocionou. “Ao reconhecer a pequena figura dentro do terrário, ela disse ‘meu Deus, é a minha avó’. Isso me marcou porque sei que aquele terrário estava carregado de história viva apesar do momento de dor para ela. Senti que com o meu trabalho posso tocar a vida das pessoas”, pontua.
A maioria de seus clientes é formada por mulheres entre 30 e 60 anos, embora os homens também demonstrem interesse, principalmente quando procuram uma peça para presentear. E não é preciso entender de jardinagem para ter um terrário. Junto com cada peça, Ana envia um manual de cuidados e uma pipeta própria para a rega. O principal é observar o ambiente: o terrário precisa estar iluminado, mas protegido do sol direto, e as gotículas no vidro são um dos sinais de que o pequeno ciclo de água está funcionando.
Na casa da empreendedora, por exemplo, há terrários que acompanham sua trajetória desde o início do negócio, há cerca de seis anos. Com os cuidados adequados, eles podem durar por muito tempo. A empreendedora recomenda que as peças retornem para uma avaliação e eventual manutenção aproximadamente uma vez por ano.
Empreendedorismo na veia
A história de Ana, porém, não começou com os terrários. O empreendedorismo sempre esteve presente em sua vida. Ela já produziu bonecas de porcelana, teve um salão de beleza e manteve um pequeno mercado. Ao longo do caminho, buscou cursos de corte e costura, cabeleireira, artesanato e, mais recentemente, especializações relacionadas aos terrários. Também participa, sempre que pode, de cursos e encontros voltados a empreendedoras 60+ promovidos pelo Sebrae.
Sem uma formação escolar extensa, ela encontrou no empreendedorismo uma espécie de escola própria. Para Ana Valéria, empreender é uma forma de se manter criativa, útil e viva.
“Empreender já me ajudou muito a manter a casa há uns anos, quando meus dois filhos ainda estavam na escola. Foi empreendendo que realizei alguns sonhos pequenos deles e supri as nossas necessidades. Não me formei na escola, mas empreender me deu outras formações. Fiz curso de corte e costura, cursos de cabeleireira, cursos de artesanato e recentemente investi muito nos Terrários. Não me formei na escola, mas empreender me deu outras formações”, conclui Ana Valéria.
Hoje, aos 62 anos, continua estudando e experimentando novas possibilidades, aprimorando técnicas de cultivo de musgos e criando desenhos com as diferentes camadas de terra, lagos e até praias com pequenas ondas.
No fim das contas, o que há de mais surpreendente dentro de cada pote é que eles carregam não apenas plantas, pedras ou musgos, mas a capacidade de transformar elementos aparentemente simples em algo cheio de significado. Nas mãos de Ana Valéria, um pequeno pedaço de natureza pode se transformar em paisagem, presente, memória e história. Tudo junto, ao mesmo tempo.
A empresa de Ana Valéria está no Instagram (@raiznopote), onde é possível conhecer melhor o trabalho dela e fazer encomendas.