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quarta-feira, 04/02/2026 | Ano | Nº 6154
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Celebração

Então chega o carnaval

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Em Maceió, a vida se aventura em passos miúdos e ousados. É nesse chão comum que alegria e agonia se encontram sem pedir licença, misturando-se na mesma bacia das almas, onde cada um lava suas dores com a água que consegue carregar.

Alguns chegam com baldes cheios; outros, apenas com as mãos em concha. Mas todos mergulham sentimentos parecidos: medo, esperança, desejo de ser visto, anseio por pertencimento. O que muda é a moldura que os envolve.

Então chega o Carnaval, tempo em que o mundo se inclina, a ilusão assume o comando — intervalo sagrado de desordem consentida — e, com ele, a suspensão provisória das castas, a licença poética da existência. Todos expõem suas tristezas com risos e purpurina, vestindo liberdade no palco das ruas que acolhe o que o ano inteiro reprime.

Época em que “Pierrots e Colombinas” emprestam ao corpo a euforia que o calendário costuma lhes negar. É como se suas almas, cansadas de contenções, ganhassem permissão para transbordar, espalhando o gargalhar sem endereço fixo, enquanto o choro encontra ritmo e a esperança, ainda que breve, aprende a desfilar.

Na orla da Pajuçara, seguindo o bloco Nêga Fulô, do Carlito Lima, o suor do rico e do pobre escorre com o mesmo sal; o alto e o baixo se encontram no passo, todos se reconhecem no compasso do frevo. Ali, o corpo não pede documento, a alegria não pergunta origem, a música dissolve fronteiras.

O frevo alagoano caminha rente ao mar, sem disputar espaço com prédios altos; prefere a brisa, o azul sem pressa. É dança que respeita a ginga do outro, mas não perde o ímpeto, porque tradição também sabe ser leve, na força do Pinto da Madrugada, dos Filhinhos da Mamãe e do Vulcão, que já estão na rua. Ali não há plateia: todos são cena, todos são verso vivo em poema que se escreve com braços abertos.

Por alguns dias, Maceió lembra que é possível ser inteira, que das partes invisíveis da cidade pode transbordar festa — não apenas feridas — e, quando o último acorde silencia, fica na memória a prova de que, apesar das camadas sociais, dos muros e das distâncias, há momentos em que somos apenas humanos, dançando juntos sob o mesmo sol.

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