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O surrealismo em Trump

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O mundo sob a nova encarnação de Donald Trump como presidente da mais poderosa nação costuma ser visto por analistas como uma volta da realpolitik às relações internacionais, ou seja, o exercício da força — seja na prisão do ditador Maduro, no cerco ao Irã com ativos militares fortíssimos, enquanto promove seu Conselho de Paz no lugar da ONU (Organização das Nações Unidas), na declarada pretensão de anexar a Groenlândia e transformar Gaza em um grande resort — o que levaria, à primeira vista, à conclusão falsa do “direito do mais forte” ou realpolitik.

Realpolitik é um termo criado em 1853 pelo político alemão Ludwig von Rochau. “A lei da força é igual à da gravidade”, escreveu. Um brasileiro, Vinicius Mariano de Carvalho, professor e pesquisador no Departamento de Estudos da Guerra do King’s College (Londres), publicou recentemente um consubstanciado artigo em que o republicano é a epítome de algo novo: a “surrealpolitik”.

Na visão de Mariano, o presidente americano e outros líderes rasgaram o tecido da ordem global e introduziram um mundo onírico, no qual suas visões pessoais são impostas não só pelas forças armadas, mas por meio de exércitos de robôs virtuais e fake news.

Para Mariano, ao tentar ler o que está acontecendo, ele recorreu ao “Manifesto Surrealista” do francês André Breton, texto de 1924 que propunha uma arte “ditada pelo pensamento, na ausência de qualquer controle exercido pela razão, isenta de qualquer preocupação estética ou moral”.

Segundo o acadêmico, após a posse de Trump começaram as versões de que estaríamos voltando à realpolitik, a política pela força, o que lhe parecia um equívoco. Estudando as origens do termo, afirma que, na verdade, a realpolitik é a tradução do iluminismo para a política. É um tipo de relação política entre nações muito regrado pela racionalidade, e o que vivemos hoje não tem nenhuma lógica iluminista. Então, o que poderia ser? Veio a resposta no “Manifesto Surrealista”, de André Breton.

O acadêmico cita o filósofo Walter Benjamin, que descreveu que os surrealistas tinham um conceito radical de liberdade. Isso estaria presente agora nesses movimentos conservadores, que advogam uma liberdade absoluta, falam em família e nacionalismo, mas buscam a liquidação do ideal de liberdade que tínhamos no século 20 — de soberania dos povos — e não oferecem arcabouço teórico além de bons negócios, como transformar Gaza em um super resort.

O acadêmico apresenta, como resultado dessa surrealpolitik, por enquanto, um grande investimento em capacidade bélica, tanto cinética quanto em novas tecnologias; o rearmamento da Europa Ocidental, por conta do abandono da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) por Trump. Alerta ainda que todo esse investimento requer uso: o capitalismo vive de consumo; então essa capacidade começa a crescer muito agora e, em algum momento, precisará ser consumida. “Isso vai ter que ser gasto em algum lugar, numa guerra […]”. Então o risco é grande. Já vemos várias guerras por procuração, como no Sudão.

Afirma que os EUA estão destruindo a ordem vigente que ajudaram a construir, e quem a defende são países autocráticos ou ditatoriais, como China e Rússia, que apoiam o multilateralismo. Puro surrealismo.

Sobre o que pode acontecer nesse cenário de pesadelo, diz apenas que a existência humana é uma floresta escura: não temos a menor noção do que pode acontecer.

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