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Carlos Méro

Literatura e vida

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“Relato de um delírio: aconteceu em Lisboa” (São Paulo: Scortecci, 2025. 243 p., il.), deste benquisto amigo Carlos (Barros) Méro (1949-), possuidor, ele, de um plural currículo (da advocacia à magistratura, do magistério para a gestão), assinala-lhe a estreia romanesca (após a contística, o ensaio, a palestra, o verso, a doutrina, a dramaturgia, a novela, o memorialismo).

O livro desse neobarroquista (estilo, aliás, tão dele, remontante àquele Penedo solene, silente, seivoso, sóbrio, senhor) faz-me pensar na tênue fronteira epistêmico-metodológica entre duas dimensões: história e literatura.

Nuas verdades serão estas: a historiografia caminha por terreno pantanoso, constrói castelos de areia; amiúde, funda-se, mesmo sem suspeitar ou reconhecer, em ideologias, porquanto seja sua natureza aderente; daí por que, seletiva, opte. Já o verossímil literário, bem, corresponderia a uma narrativa imaginária, porém plausível.

Ora, “[...] nem por isso a mentira histórica é destituída de um charme secreto”, recorda-nos Evaldo Cabral de Mello (1936-), àquela parábola genealógica “O nome e o sangue” (2009 [1989], p. 15).

A ficção meriana (via motriz kardecista; mais serialismo aforismático) elege Fernão (Fernando de Bulhões de Carvalho Álvares) como seu personagem-chave (novecentista). Ela beberica em uma fonte: “Lista das pessoas [...], condenações [...] e sentenças [...]” (1733), auto de fé cujo inquisidor fora “o eminentíssimo e reverendíssimo senhor Nuno da Cunha [1664-1750], presbítero cardeal da Santa Igreja de Roma, do título de Santa Anastásia, do Conselho de Estado de Sua Majestade [dom João V; 1689-1750]”.

Neste documento (sob salvaguarda coimbrã), dentre as “pessoas relaxadas em carne” (melhor: churrascos humanos nas fogueiras públicas), eis, justo, o cristão-novo (encarnação muito anterior) “Fernando Henriques Álvares, [...] lavrador de mandioca, natural da vila de Moura, Arcebispado de Évora, e morador no Rio de São Francisco, termo da vila do Penedo, Bispado de Pernambuco [...]”.

Do folheto de cordel até a novelística; das biografias romanescas (abaixo essas bobocas terminologias voguistas: autoficção “et caterva”) às séries; dos romances históricos aos realismos, tanto daquela filologia com Auerbach (1892-1957) quanto daquelas cruas crônicas de “A vida como ela é...” (1950-1961), daquele genial Nelson Rodrigues (1912-1980) – desde quando, enfim, fôramos rupestres, os fatos do mundo nutrem a magia estética.

Merianamente: “Há muito mais confluências do que se costuma acreditar entre a mentira e a verdade. [...] A mentira, muitas vezes, não é a rejeição da verdade”.

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