ESCÂNDALO
O Master e o filme
A quem interessa abrir a CPI do banco Master? Até quarta-feira (13), o senador Ciro Nogueira era o peixe mais graúdo do Congresso a cair na rede da Polícia Federal na investigação do caso Master. A partir de quarta-feira (13), ele passou a disputar esse espaço com o senador Flávio Bolsonaro, citado como candidato à Presidência da República, que teve expostas suas conversas e reuniões para arrecadar dinheiro de Vorcaro para realizar um filme (sic).
O próprio Daniel Vorcaro confirmou, em depoimentos e mensagens no celular, como era ampla sua influência no mundo político.
Era e é uma questão de tempo, portanto, que apareçam outros nomes e se criem embaraços partidários — e, provavelmente, suprapartidários. Quanto mais gente estiver envolvida e quanto mais ideologicamente ecumênico for o alcance dos atingidos, menor será a chance de que este ou aquele campo político arque sozinho com o prejuízo eleitoral.
Essa pode ser a conta que governo e oposição fazem quando saem, de modo célere e estridente, em defesa da instalação de uma comissão de inquérito para levar o escândalo do Master à arena do Parlamento.
Independentemente de quem assinou ou deixou de assinar os vários pedidos de CPI antes de a Polícia Federal chegar a Ciro Nogueira e Flávio Bolsonaro, ninguém, na verdade, queria entrar a fundo no assunto. Tanto que houve acordo para o presidente do Senado pautar a sessão de vetos presidenciais sem a exigência regimental da leitura do requerimento para a criação de uma comissão.
Subitamente, despertou-se não apenas o interesse, mas também uma disputa para que cada força política se mostrasse mais empenhada na defesa do inquérito parlamentar.
Há duas hipóteses para tanto empenho. Uma delas é a de que seja apenas uma forma de posar eticamente para o eleitorado, confiando no espírito de porco de Davi Alcolumbre para refrear os ímpetos investigativos. A outra é a intenção exposta acima: quanto mais a lama se espalhar, maior a chance de a conta terminar em soma zero.
Quanto ao filme bancado pelo banco Master sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro falou, mas não explicou, muito menos justificou. Primeiro, o valor do financiamento do banco Master, inicialmente superior a R$ 120 milhões, dos quais teria recebido R$ 61 milhões — o dobro do custo de filmes nacionais recentes premiados internacionalmente, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Depois, alegou tratar-se de dinheiro privado, e não público, quando se sabe que o banco Master é depositário de vultosos recursos oriundos de fundos de aposentadoria e pensão de servidores públicos de estados e municípios brasileiros. Seria ingênuo imaginar que Vorcaro distribuiria, a granel, dinheiro de seu patrimônio privado.
As notícias, contudo, indicam que a negociação entre a família Bolsonaro e o banqueiro ia muito além dessa quantia. Envolvia os fundos suspeitos de sempre ligados ao Master — e não há certeza de que se tratava apenas do financiamento de um filme.
A Polícia Federal e a imprensa — já que é improvável a criação de uma CPI do Master — têm um imenso desafio pela frente: atuar e esclarecer quem está envolvido nessa situação, independentemente de partido ou ideologia.