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Copa do Mundo e cegueira coletiva: o que a escola não está ensinando

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Copa do Mundo e cegueira coletiva: o que a escola não está ensinando

Ivana Muscalu – doutora em História pela USP e coordenadora pedagógica do Colégio Santo Ivo

Este ano, milhões de brasileiros vão parar diante da televisão para assistir à Copa do Mundo de Futebol. Mas poucos vão se perguntar por que o futebol feminino demorou tanto para aparecer. Durante décadas, ele existiu, mas foi ignorado: sem transmissão, sem investimento, sem espaço. Era como se não existisse.

Hoje, o cenário começa a mudar. Ainda assim, basta olhar para salários, patrocínios e audiência para perceber a distância entre homens e mulheres. Isso levanta uma pergunta incômoda: como algo tão real pôde ser apagado por tanto tempo?

Esse caso ajuda a entender o que o pensador Edgar Morin chamou de “cegueiras do conhecimento”: nossa tendência a enxergar o mundo de forma limitada. Muitas vezes, tomamos como natural aquilo que é resultado de escolhas culturais, sociais e históricas. Quando alguém diz que “futebol feminino é ruim”, pode estar apenas repetindo uma ideia que nunca foi questionada.

Se fomos capazes de ignorar o futebol feminino por décadas, o que mais estamos deixando de ver? É aqui que entra a escola. Durante muito tempo, ela se preocupou mais em transmitir conteúdos do que em discutir como o conhecimento é construído. Ensina-se o que está nos livros, nos registros oficiais e nas estatísticas. Mas raramente se pergunta: quem ficou de fora? O que não foi registrado? Quem decidiu o que merecia ser lembrado?

O exemplo do futebol feminino evidencia o risco dessa lógica. Se ensinamos apenas o que já está consolidado, formamos alunos que não questionam; que aceitam dados como verdades prontas, sem investigar seus limites. A escola, assim, corre o risco de repetir exatamente os apagamentos que deveria ajudar a revelar.

Uma educação comprometida com o pensamento crítico precisa ir além. Não basta perguntar “o que sabemos”. É preciso perguntar “como sabemos” e “por que sabemos assim”. Quantas histórias aprendidas na escola são apenas parte de uma versão maior que nunca foi contada?

Às vésperas da Copa, essa reflexão se torna concreta. Basta comparar a cobertura do futebol masculino e do feminino para perceber como as narrativas são construídas. Mas o problema não está apenas no esporte. Todo conhecimento — inclusive o escolar — é influenciado por escolhas, interesses e limites humanos. Sempre há algo que fica de fora.

Assistir à Copa pode ser apenas entretenimento. Mas também pode ser um exercício de atenção: quem está em campo — e quem ficou fora da história? Educar, nesse sentido, não é oferecer respostas prontas. É formar pessoas capazes de questionar, investigar e revisar aquilo que parecem ser certezas. Porque, onde há conhecimento humano, há também erro, silêncio e invisibilidade — e é justamente por isso que o pensamento crítico se torna indispensável.

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