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Saúde

Antes do gol, a estratégia: a lição da Copa para a saúde pública

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A Copa do Mundo costuma ser narrada como um drama instantâneo: um chute no ângulo, uma defesa improvável, uma substituição contestada, a alegria ou a ruína de um país condensadas em noventa minutos. Mas o placar é apenas a superfície. Antes do gol, há escolinha, análise de desempenho, prevenção de lesões e uma cultura que separa o improviso criativo da dependência perigosa do acaso.

Na saúde pública, a mesma verdade se impõe com menos espetáculo e mais gravidade. Nenhuma rede assistencial responde bem a uma epidemia se só começa a se organizar quando a sirene toca. Nenhum hospital resiste por heroísmo se a atenção primária falhou em coordenar o cuidado, se a vigilância não percebeu sinais precoces ou se o financiamento chega como remendo, e não como projeto.

O futebol aprendeu que talento sem sistema é promessa desperdiçada. A saúde ainda paga caro quando imagina que a vocação profissional compensa a ausência de método ou de formação. Cobertura vacinal, tempo de espera, mortalidade evitável, ocupação hospitalar e resolutividade territorial não são números frios. São o idioma pelo qual a gestão escuta a vida concreta da população.

Há uma lição clara e incômoda: grandes seleções não formam jogadores apenas para a final. Formam bases, olham para as periferias, disputam talentos e constroem pertencimento. Um sistema público universal faz algo ainda mais nobre: transforma acesso em cidadania e entende que a equidade exige mais do que boa intenção. Exige desenho institucional, capacidade estatal e pactuação federativa.

Quando falta planejamento, a gestão vira uma prorrogação permanente. A fila cresce, a urgência engole a prevenção, o leito caro substitui o cuidado oportuno, e a crise governa a agenda. É o equivalente sanitário de entrar em campo sem conhecer o adversário. Corre-se muito, sofre-se muito, mas joga-se pouco.

A Copa nos fascina porque revela, em linguagem popular, uma pedagogia dura da excelência: o resultado não nasce no dia do jogo. Nasce antes, longe das câmeras, na disciplina acumulada. O SUS disputa sua Copa todos os dias, com adversários mais severos do que qualquer seleção: desigualdade, envelhecimento, doenças crônicas, subfinanciamento e desinformação.

A diferença é que, na saúde, a vitória não se mede por taças. Mede-se por criança vacinada, AVC evitado, gestante acompanhada, epidemia contida e sofrimento reduzido. O país que quiser vencer esse campeonato precisa parar de tratar a gestão como burocracia e reconhecê-la como tecnologia social de proteção da vida. Entre gols e indicadores, a lição é simples e profunda: o cuidado que aparece no atendimento começa muito antes do apito inicial.

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