Jogo compulsivo
O custo social das bets
Voltei recentemente de uma viagem pelo Sertão com uma inquietação que não me sai da cabeça. Em cada cidade, a impressão é a mesma: mudou o assunto das ruas. Antes, falava-se de chuva, de trabalho, de negócios novos. Agora, o que mais se escuta é: “Vamos apostar?”, “Qual é a bet de hoje?” e “Quanto você ganhou?”.
Talvez estejamos assistindo, calados, ao nascimento de um dos maiores problemas sociais das próximas décadas. O mal das apostas eletrônicas não está apenas no dinheiro que se perde. Está na ilusão vendida todos os dias de que a riqueza pode ser conquistada com um clique — sem trabalho, sem produção e sem geração de valor.
É o contrário de tudo o que construiu este país. Já vimos esse filme antes. A indústria do cigarro passou décadas vendendo elegância enquanto escondia seus efeitos devastadores. O álcool, embora legal, continua produzindo enormes custos sociais. As drogas ilícitas destroem vidas e famílias. As bets têm características próprias, mas produzem efeito igualmente cruel quando levam ao jogo compulsivo. A dependência destrói patrimônios, casamentos, sonhos e a saúde mental de milhares de pessoas — muitas delas jovens que ainda nem começaram a vida.
Há uma diferença que torna tudo isso ainda mais grave. O cigarro foi retirado da publicidade. As drogas são combatidas pelo Estado. As bets, ao contrário, entram em nossas casas todos os dias pela porta da frente: na televisão, nos outdoors, nas redes sociais, nas camisas dos times e no celular dos nossos filhos. A publicidade faz parecer que apostar é parte natural da vida moderna. Não é.
É por isso que afirmo, como metáfora para alertar sobre a gravidade do problema: as bets são o novo crack da nossa sociedade.
Não pelos efeitos físicos, mas porque aprisionam pessoas em uma compulsão silenciosa, alimentada vinte e quatro horas por dia, com um simples toque na tela. O que mais me preocupa é a normalização. Estamos ensinando uma geração inteira a acreditar que ganhar dinheiro depende menos do estudo, do trabalho e do empreendedorismo do que da próxima aposta.
Há ainda um efeito silencioso: o dinheiro apostado não circula na cidade. Não se transforma em compras no comércio, empregos nem investimentos. Sai do bolso do trabalhador e desaparece na tela do celular, drenando a economia das comunidades que mais precisam fazer cada real circular. Nenhuma nação prospera quando substitui a cultura do esforço pela cultura da sorte.
Ainda há tempo para discutir limites, restringir a publicidade e proteger os mais vulneráveis. Mas é preciso agir agora. Se não agirmos, o custo social será infinitamente maior do que qualquer arrecadação de impostos ou contrato de patrocínio.
Escrevo como quem acredita que este país se levanta pelo trabalho, pela educação e pela ousadia de quem empreende. Por isso, repito, sem medo do peso da frase: “Ou o Brasil acaba com as bets, ou as bets acabam com o Brasil”.