RELAÇÕES EXTERIORES
Milei, Kissinger, a estupidez e a diplomacia
Henry Kissinger, quando chanceler do republicano Richard Nixon, foi o artífice da reaproximação entre os EUA e a China, que até então não mantinham relações diplomáticas. Criticado pela ala mais obtusa e rasteira do Partido Republicano, Kissinger afirmou: “A América não tem amigos permanentes nem inimigos permanentes, apenas interesses.” Posteriormente, publicou um brilhante livro sobre a China, no qual demonstra a erudição de um egresso de Harvard.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou, no sábado (25), do que parece ser uma das ocupações favoritas de sua família: atuar contra a soberania e o interesse nacional. É conhecido o histórico do clã nesse departamento. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) reuniu embaixadores estrangeiros para proferir mentiras sobre o sistema eleitoral do país. Em 2025, Eduardo Bolsonaro, à época deputado federal, celebrou o tarifaço americano que afetou produtos brasileiros.
Flávio não ficou atrás. No começo deste ano, coube a ele estimular o governo dos EUA a classificar facções criminosas brasileiras como terroristas, em uma medida repleta de riscos de intervenções arbitrárias.
Agora, na convenção partidária que o oficializou como candidato à Presidência da República, o senador abriu espaço para que Javier Milei, presidente da Argentina, desferisse uma série de impropérios contra o Brasil.
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Durante quase meia hora de discurso virulento, Milei criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de “lixo careca”. O ministro não permitiu que o argentino se encontrasse com Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar.
Os insultos logo tiveram resposta: o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, e o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, para prestarem esclarecimentos. Na linguagem da diplomacia, a iniciativa demonstra forte insatisfação entre as duas nações.
E não por acaso. Embora o próprio Lula tenha apoiado candidatos em outros países — esteve em campanha de Hugo Chávez na Venezuela, endossou Kamala Harris nos EUA e visitou Cristina Kirchner em prisão domiciliar na Argentina —, Milei deu um passo que parecia impensável.
O argentino atravessou a fronteira e, na condição de chefe de Estado estrangeiro, protagonizou uma participação bufa e insultuosa em um ato formal de um partido político brasileiro. Com seus vitupérios, ridicularizou-se e agrediu as relações internacionais; com sua presença na convenção, promoveu clara interferência no país vizinho.
Do ponto de vista eleitoral, o episódio há de render poucos frutos a quem quer que seja. E, mesmo sob uma perspectiva binacional, é pouco provável que o governo Lula queira levar o caso além das reações simbólicas. A posição brasileira deverá se alinhar à premissa de Eliaxe Mondarch: “A diplomacia é e sempre será a mais poderosa de todas as espadas, o mais poderoso de todos os escudos. Somente ela é capaz de proteger dois extremos em casos extremos.”
O mundo está tão aloucado que, nos EUA atuais, não haveria espaço para um diplomata e acadêmico brilhante de Harvard como Henry Kissinger, mesmo sendo conservador e republicano, mas que apostava na diplomacia, no equilíbrio e no bom senso.