COMPORTAMENTO
A tela e a tensão
Há quem leve o celular para a cama e fique conectado até o sono vir (atrasado)? Muitos amanhecem o dia e, antes de ir ao banheiro, já avançam céleres para o celular? Pior: os adolescentes estão ansiosos e mal-humorados? E descarregando seu estresse na comida e nos relacionamentos? O que pode estar ocorrendo?
Globalmente, nunca uma geração teve tanto acesso à informação, ao entretenimento e à conexão com qualquer parte do planeta. Basta um toque para falar com alguém do outro lado do mundo ou acompanhar a vida de milhares de pessoas. Ao mesmo tempo, nunca se relatou tamanha sensação de vazio.
Esse paradoxo é um dado que merece muita atenção. Já em 2019, antes da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou que cerca de 14% dos adolescentes no mundo tinham algum transtorno mental. O suicídio respondia por mais de uma em cada cem mortes nessa faixa etária. A Covid-19 não criou o problema, mas o tornou visível de forma brutal. No Brasil, estudo da Fiocruz publicado em dezembro de 2025, com dados do SUS, mostrou que jovens de 15 a 29 anos têm o maior risco de suicídio do país: 31,2 por 100 mil habitantes, acima da taxa geral de 24,7.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024, do IBGE, com mais de 118 mil estudantes de 13 a 17 anos, divulgada em março de 2026, revela que 3 em cada 10 adolescentes se sentem tristes sempre ou na maior parte do tempo. Quase um em cada cinco diz que a vida não vale a pena.
São números dolorosos que, mais do que conhecer, precisamos compreender. O sofrimento dessa geração não é fraqueza nem modismo. Tem causas concretas que se sobrepõem no período mais delicado do desenvolvimento humano: a adolescência e o início da vida adulta. Do ponto de vista biológico, nesse momento, o cérebro ainda está em plena reorganização. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle emocional e pelas tomadas de decisão, só atinge a maturidade por volta dos 25 anos. É também o período em que cada jovem busca responder, às vezes sem apoio suficiente, às perguntas mais difíceis da vida: quem sou, o que valorizo, onde me encaixo. Essas perguntas sempre existiram. O que mudou profundamente foi o ambiente em que precisam ser respondidas: um ambiente de comparação permanente, pressões aceleradas e vínculos cada vez mais frágeis.
Esse período de vulnerabilidade biológica coincide com transformações tecnológicas, culturais, familiares e institucionais mais rápidas do que nossa capacidade coletiva de resposta. Os jovens não estão piores do que os de gerações anteriores: enfrentam condições mais complexas, com menos suporte do que precisam e uma profusão de estímulos informacionais, justamente no momento do desenvolvimento em que são mais vulneráveis.
Esse é um terreno fértil para o adoecimento. Ansiedade e depressão são hoje os transtornos mentais mais comuns entre jovens, com crescimento expressivo do consumo de antidepressivos, inclusive por automedicação. O sinal de alerta está aceso. A pergunta que se impõe não é apenas o que está acontecendo com nossos jovens, mas, sim, o que estamos fazendo, ou deixando de fazer, para mudar esse quadro.
Cuidar da saúde mental de jovens não é tarefa exclusiva de especialistas. É uma responsabilidade coletiva: validar emoções em vez de minimizá-las, criar espaços reais de escuta, permitir que a frustração faça parte da vida, porque ela faz, e compreender que resiliência não é ausência de sofrimento, mas a capacidade de atravessá-lo e seguir. Uma geração que não aprende a lidar com o que sente não encontrará, no futuro, recursos para lidar com o que viver.