MEMÓRIA AFETIVA
O mundo dentro de uma romã
Existem pessoas que atravessam nossa vida deixando marcas que o tempo não apaga. Considero-me privilegiado por ter convivido, na infância, com duas bisavós e um bisavô. Ao mesmo tempo, guardo certo arrependimento por não lhes ter dedicado mais tempo, carinho e atenção. Naquela idade, eu ainda não sabia que os mais velhos são bibliotecas que um dia fecham suas portas.
Eram pessoas doces, tinham os cabelos brancos que hoje também trago comigo e uma paciência que somente agora começo a compreender. Gostavam de conversar, contar histórias e, sobretudo, ouvir minhas aventuras de menino na escola, peripécias com amigos e aqueles acontecimentos do cotidiano que, para uma criança, pareciam extraordinários. Entre tantas lembranças, uma permanece especialmente viva.
Certa vez, meu bisavô Martinho levou-me ao pomar da Fazenda Angicos, em Caicó. Paramos diante de uma romãzeira. Ele colheu uma fruta madura, abriu-a e mostrou-me os pequenos grãos avermelhados, acomodados lado a lado.
Explicou que todos cresciam juntos, dividindo o mesmo espaço, sem que um precisasse prejudicar o outro. Cada qual preservava sua cor, sua doçura e sua identidade. Depois, entregando-me parte da fruta, disse: “Que bom seria se a humanidade fosse assim”.
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Talvez eu não tenha compreendido inteiramente aquelas palavras. Crianças têm pressa para saborear os frutos; somente depois aprendem a saborear as lições. Os anos passaram. Meu bisavô partiu, e seus cabelos brancos chegaram até mim. Hoje compreendo melhor o que ele desejava ensinar: ninguém precisa diminuir o semelhante para crescer. O brilho do outro não apaga o nosso.
Talvez muitos conflitos humanos nasçam justamente do esquecimento dessa verdade tão simples. Há quem imagine que, para vencer, seja necessário derrotar alguém. A romã ensinava o contrário. Dentro dela havia espaço para todos.
Hoje, quando vejo uma dessas frutas, retorno por instantes àquele pomar de Caicó. Revejo meu bisavô Martinho e suas mãos abrindo cuidadosamente a romã. E percebo que algumas das maiores lições da vida não estavam nos livros nem nas salas de aula. Às vezes, estavam escondidas dentro de uma romã.