Memórias
O brigadeiro e o golpe militar
Ao fim de 2022, brasileiros seguiam normalmente com suas vidas sem saber que, em Brasília, em reuniões a portas fechadas, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) buscava convencer os comandantes das Forças Armadas a embarcar em um golpe e reverter a vitória de Lula (PT) nas eleições de outubro. Ex-comandante da Força Aérea Brasileira (FAB), o brigadeiro Carlos Baptista Júnior conta bastidores desses encontros em seu novo livro, “Eu disse não - Uma trincheira antigolpista”, que será lançado no próximo mês.
O brigadeiro, já na reserva, relata uma série de momentos na gestão Bolsonaro em que ficou desconfortável diante da tentativa de instrumentalização das Forças Armadas para ganhos políticos.
Baptista Júnior afirma que, em um dos encontros após a derrota, o ex-presidente disse a ele: “BJ, eu já te dei dois cartões amarelos”. Em entrevista por videoconferência à Folha de S.Paulo esta semana, Baptista Júnior diz que o risco de golpe foi iminente e que temia alguma iniciativa do Exército que não estivesse alinhada à postura legalista do general Freire Gomes. Ele nega que tenha havido omissão dos comandantes e afirma que protestos golpistas em frente aos quartéis não foram dispersados para evitar “banhos de sangue”.
O brigadeiro disse que votou em Bolsonaro em 2018 por entender que a anulação das condenações de Lula antes das eleições foi uma quebra do Estado Democrático de Direito. Ele se recusou a responder se a condenação de Bolsonaro foi necessária: “Esse é um problema do Judiciário e do mundo político, né?”.
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O brigadeiro JB afirma que as Forças Armadas são muito grandes e que não sabia, naquela ocasião, o que estava acontecendo na Marinha.
Sobre os protestos ilegais pedindo intervenção armada em frente aos quartéis — pois é uma zona de segurança onde não se permitem aglomerações —, o brigadeiro JB desconversa e diz que a remoção dos militantes poderia levar a um “banho de sangue”. Dificilmente as Forças Armadas permitiriam esses acampamentos caso fossem feitos por médicos labutando em favor das vacinas, por exemplo.
O brigadeiro condena o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro por estar colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro. Ele também critica o presidente Lula por colocar em sua campanha eleitoral a questão da soberania nacional e diminuir a relação diplomática com os EUA.
Em seu livro, o brigadeiro João Batista reclama de ser considerado o “mais bolsonarista” dos ministros militares.