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Reflexão

A urna é a garantia de quem perde

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Encerrado o primeiro turno, o debate público volta a se organizar em dois blocos que se veem como inconciliáveis. Vale olhar os números com menos paixão. Eles contam uma história diferente da que circula nas redes.

Comece-se pela aritmética da polarização. No plano nacional, a diferença entre os dois candidatos mais votados à Presidência foi de cerca de 2,2 milhões de votos, menos de 1,5% do eleitorado. A abstenção passou de 33 milhões, a maior desde 1998. Em Alagoas, a disputa pelo governo terminou no primeiro turno com diferença de pouco mais de 82 mil votos, enquanto mais de 500 mil eleitores aptos não compareceram.

Aí está o paradoxo. Quando dois polos fiéis se anulam, quem decide não é nenhum deles. É uma faixa estreita de eleitores sem lado fixo: o indeciso, o que mudou de opinião, o que quase ficou em casa. A polarização, que despreza o meio-termo, acaba por lhe entregar o voto de Minerva. O resultado é legítimo, porque quem tem mais votos vence. Mas, a cada eleição, quase metade do país sai das urnas derrotada.

O que torna essa frustração suportável numa democracia? Não é a esperança de que o adversário fracasse. É a certeza de que haverá outra eleição, com regras iguais e contagem confiável. Por isso, a urna não é patrimônio do vencedor. É, antes de tudo, a garantia de quem perde.

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Essa garantia é confirmada pelos fatos. Sob a votação eletrônica, a Presidência mudou de campo político em 2002, 2018 e 2022. Pela segunda eleição seguida, o presidente que disputa a reeleição termina o primeiro turno em segundo lugar, a cada vez de um lado diferente. Um sistema capturado por uma força política não produziria derrotas alternadas para todas elas. Por isso, as críticas genéricas à urna perdem força a cada pleito.

Em 1929, Graciliano Ramos, então prefeito de Palmeira dos Índios, prestou contas ao governo de Alagoas num relatório que ficou célebre. Nele, descreveu adversários tão convencidos de que havia alguma trapaça na prefeitura que escreviam cartas anônimas e se roíam por não encontrá-la. A desconfiança sobrevivia à falta de prova. Quase um século depois, as cartas anônimas circulam em grupos de mensagens e redes sociais, repetindo um padrão: a suspeita sobre a urna resiste mesmo quando nada se comprova. A resposta continua a mesma. O sistema se submete a testes públicos de segurança, a auditorias no próprio dia da votação e à publicação do boletim de cada urna, que permite a qualquer cidadão refazer a soma. E as suspeitas surgidas numa campanha devem ser levadas aos canais próprios e apuradas com prova, não amplificadas como certeza.

Nada disso dispensa vigilância. O trabalho do Ministério Público Eleitoral não termina na apuração. Segue nas prestações de contas, nas ações por abuso de poder, na defesa da igualdade de chances entre os candidatos. Mas vigiar o processo é diferente de desacreditá-lo.

Em agosto de 1979, quando o voto direto para presidente ainda era negado, o alagoano Teotônio Vilela pediu ao Congresso que promovesse “a rebelião das consciências, antes que venha a rebelião das massas”. Na mesma época, lembrou que a anistia não se faz apesar das divergências, mas “por causa das divergências”. A democracia também. Ela não existe apesar do desacordo; existe para que o desacordo se resolva no voto, e de novo no voto seguinte.

Às vésperas do segundo turno, o recado vale para todos os lados: quem perde hoje vai precisar da urna amanhã.

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