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Ódios, suspeitas e medos

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Na atualidade, cada vez mais, pessoas autodeclaradas cristãs preferem a cremação. Talvez porque não acreditem na ressurreição da carne ou apenas por medida prática. Há poucos séculos, alguns cristãos fervorosos preferiam queimar os outros, que não fossem cristãos. Vivos, de preferência. Tempos da Inquisição chamada de Santa.

Entre as coisas em que os seres humanos não parecem empenhar-se muito está aquilo a que Voltaire dedicou todo um livro: a tolerância. Coisa que, ao longo de quase metade da era comum – ou até mesmo durante toda esta era –, não se teve com os judeus.

Quando rebrota o antissemitismo – que nunca esteve morto –, vale tratar um pouco de história e de memória. Falando não de abstrações, mas de personagens concretos. Como Antônio José da Silva, o Judeu; como Luis de Carvajal, o Jovem. Ambos escritores, executados por cristãos ditos piedosos. Simplesmente porque eram judeus.

No caso do Jovem espanhol, sua execução completa data redonda neste dezembro que se avizinha: 430 anos. Morreu no exato ano em que nasceu Descartes, fundador do racionalismo em filosofia, e justamente um ano depois de os representantes da Inquisição espanhola concluírem sua sórdida missão em Olinda.

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A história de Antônio José da Silva é bem conhecida no Brasil – ao menos pelos leitores voltados ao tema – graças ao monumental livro de Alberto Dines: Vínculos do fogo. De Luis Carvajal, é pouco provável que se saiba algo no País do Futuro. Ele era um espanhol que, vivendo no México, foi, juntamente com sua mãe e irmãs, considerado culpado de professar um cristianismo falso. Condenados à morte por “relapsos, impenitentes pertinazes”. Isso no século 16. Pena: “ser queimados vivos em vivas chamas de fogo até que se convertam em cinzas”.

Os mais otimistas sublinharão que isso é coisa do passado e de interesse apenas para historiadores e antropólogos. Vale discordar disso, pois o passado nem sempre morre e, a aceitarmos Faulkner, ele sequer passou. Do século 9 ao 16, a humanidade se expandiu extraordinariamente. “A dor humana busca os amplos horizontes”, nos ensinou Cesário Verde.

A invenção da imprensa, as navegações ibéricas – sem falar em livros como a Commedia, de Dante – e outras conquistas notáveis ocorreram paralelamente a atrocidades como as Cruzadas e a Inquisição. Levando-se em conta que esta última só expirou já próximo da metade do século 19, é chocante dar-se conta de que suspeitas, medos e ódios tenham durado tanto e se exercido de modo tão sistemático, levando à morte muitíssimas pessoas.

Tardou mais de um século, e a horrenda máquina dos preconceitos e discriminações pariu nazismos e fascismos, enquanto descobertas e inventos magníficos levavam a humanidade a apostar em sonhos e esperanças cada vez mais ambiciosos de longevidade e até felicidade. A pergunta que se impõe é: quais são as novas monstruosidades que estão sendo fermentadas e geradas agora ou já estão em pleno andamento?

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