loading-icon
MIX 98.3
NO AR | MACEIÓ

Mix FM

98.3
segunda-feira, 26/10/2026 | Ano | Nº 6340
Maceió, AL
25° Tempo
Logo Gazeta de Alagoas Logo Gazeta de Alagoas
Home > Opinião

Artigo

A política e a responsabilidade pelo outro

Ouvir
Compartilhar

Depois de mais de 20 anos trabalhando com educação, de uma trajetória acadêmica na filosofia e na teologia e da experiência de escutar o sofrimento humano na clínica psicanalítica, uma convicção tornou-se central em minha compreensão da política: nenhuma sociedade pode ser considerada justa quando a liberdade de alguns convive com a impossibilidade de milhões exercerem seus direitos mais elementares. A política não existe apenas para administrar interesses particulares, mas para construir o bem comum, enfrentar desigualdades e ampliar as condições de uma vida digna.

No Brasil, essa responsabilidade possui uma dimensão histórica incontornável. Foram mais de três séculos de escravidão, seguidos por uma abolição que não garantiu aos libertos acesso à terra, à educação ou a condições efetivas de cidadania. O racismo, a concentração de renda e as desigualdades educacionais não surgiram espontaneamente. São processos históricos cujas consequências permanecem presentes. Ignorá-los em nome de uma suposta igualdade de oportunidades significa confundir direitos escritos na Constituição com condições reais de exercê-los.

A educação constitui um dos caminhos para enfrentar essa contradição. Paulo Freire compreendeu que ensinar significa formar sujeitos capazes de interpretar criticamente o mundo, e não simplesmente adaptar pessoas às estruturas existentes. Por isso, considero necessário questionar o discurso da meritocracia quando ele desconsidera as condições sociais de partida.

Quem frequenta escolas de excelência, dispõe de recursos financeiros e pode dedicar-se integralmente aos estudos não enfrenta os mesmos obstáculos de quem precisa trabalhar para sobreviver. O esforço individual importa, mas não elimina as vantagens herdadas. Políticas de cotas, universidades públicas, o ProUni, o Fies, a assistência estudantil e o Pé-de-Meia integram estratégias para ampliar oportunidades educacionais. O mérito não pode servir de argumento para transformar privilégios históricos em direitos naturais.

Shorts Youtube
Play
Convidados de Alfredo Gaspar, Cabo Bebeto e Fábio Costa acompanharão apuração eleitoral em Brasília

Convidados de Alfredo Gaspar, Cabo Bebeto e Fábio Costa acompanharão apuração eleitoral em Brasília

Play
Eleições 2026

Eleições 2026

Play
O que Paulo Dantas fará após deixar o governo? Ele revela planos para janeiro

O que Paulo Dantas fará após deixar o governo? Ele revela planos para janeiro

Play
Cercado por seguranças, Rico Melquíades vota em Maceió: "Revolucionar o Brasil"

Cercado por seguranças, Rico Melquíades vota em Maceió: "Revolucionar o Brasil"

Play
Paulo Dantas diz que aguarda equipe de JHC para iniciar transição: "Nós estamos prontos''

Paulo Dantas diz que aguarda equipe de JHC para iniciar transição: "Nós estamos prontos''

Na clínica, essa discussão adquire rostos e histórias. A pobreza, o racismo, a violência contra as mulheres e diferentes formas de exclusão podem atravessar profundamente o sofrimento psíquico. Uma psicanálise comprometida com sua ética não pode ignorar essas dimensões, tampouco reproduzir os preconceitos presentes na sociedade. Escutar alguém exige reconhecer sua singularidade e compreender que nem toda dor nasce exclusivamente de conflitos individuais. Também existem sofrimentos produzidos ou agravados por relações sociais injustas.

Minha formação teológica acrescenta outra perspectiva. Jesus aproximou-se daqueles que sua sociedade frequentemente desprezava: pobres, enfermos, mulheres marginalizadas e pessoas consideradas impuras. Confrontou autoridades religiosas e questionou práticas que colocavam a observância das normas acima da dignidade humana. Na parábola do bom samaritano, a responsabilidade pelo próximo ultrapassa os limites da família, da religião e do pertencimento social. Essa mensagem continua interpelando uma espiritualidade que se preocupa com a própria proteção, mas permanece indiferente ao sofrimento alheio.

Também precisamos discutir o desenvolvimento econômico sem transformar modelos estrangeiros em verdades incontestáveis. A cooperação com os Brics, o crescimento científico e tecnológico da China e a diversificação das relações comerciais apresentam novas possibilidades estratégicas para o Brasil. A experiência norte-americana, por sua vez, demonstra que riqueza e inovação podem coexistir com pobreza e dificuldades de acesso à saúde. O mercado desempenha funções econômicas importantes, mas não substitui políticas públicas, instituições responsáveis e mecanismos de proteção social.

A democracia exige responsabilidade fiscal, fiscalização do poder e avaliação das políticas públicas, mas também exige perguntar quem permanece excluído dos benefícios do desenvolvimento.

Reduzir desigualdades históricas não é tarefa secundária: essa redução integra a própria construção de uma sociedade na qual os direitos possam ser efetivamente exercidos.

A política perde sua dimensão ética quando o interesse individual se torna a única medida de nossas escolhas. O bem comum começa quando reconhecemos que a dignidade de quem não conhecemos também constitui uma responsabilidade nossa.

Relacionadas