Artigo
O beija-flor e os fios da discórdia
Recentemente, ao chegar à Fazenda MuSilva, às margens do Rio São Francisco e com vista para as dunas do Peba, depois da visita de praxe, acomodei-me na varanda da casa onde residem Damião e Dona Ana, administradores da propriedade. Foi quando ele, apontando para um beija-flor que rondava o ambiente, contou-me que, dias antes, encontrara aquele pequeno pássaro preso nos fios de uma teia de aranha.
Damião trouxe uma escada e, com todo o cuidado, libertou-o com as mãos. Retirou, um a um, os fios que o prendiam. Ainda assim, o pássaro continuava fraco demais para voar. Com um conta-gotas, ofereceu-lhe água no bico e o deitou sobre a mesa, até que recuperasse o vigor e conseguisse alçar voo.
Mas o beija-flor não foi embora de vez. Voltava, como se retornasse para agradecer o cuidado recebido. Talvez não soubesse dizer obrigado; fazia isso à sua maneira, com o breve bater das asas e a presença delicada de quem reconhece uma mão estendida.
Enquanto o ouvia, pensei nos dias do último pleito eleitoral brasileiro, quando, de todos os quadrantes do país, homens e mulheres de tantas cores e crenças foram às urnas levando consigo esperanças, convicções e escolhas. Mas, em muitos lugares, a diferença de opinião deixou de ser diálogo e virou insulto, ameaça e agressão. Como se a palavra do outro fosse uma teia a ser rompida pela força.
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A democracia, que deveria abrigar vozes diversas, teve suas asas feridas pela intolerância. E, no calor das disputas, muitos se esqueceram de que o voto termina, mas a convivência permanece.
Talvez cada um de nós também se deixe prender, por vezes, nos fios da raiva e da certeza absoluta. Para escapar deles, não é preciso vencer o outro: é preciso recuperar a escuta, oferecer respeito e permitir que a razão volte a voar.
Damião salvou o beija-flor com mãos zelosas. Que nós saibamos cuidar, com palavras e gestos, da democracia que nos pertence a todos. Sobre a mesa, ficou o conta-gotas; no céu, o pássaro. E, entre ambos, a lembrança de que até uma vida ferida pode recuperar o voo quando encontra cuidado.