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O Enem é o mesmo para todos. As oportunidades também?

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No dia da prova, milhões de estudantes recebem questões submetidas aos mesmos critérios de avaliação. O que não cabe no cartão-resposta, porém, é a distância entre as trajetórias que os levaram até ali. Enquanto alguns tiveram acesso a livros, internet, aulas de reforço e tempo exclusivo para estudar, outros precisaram conciliar a escola com o trabalho, dividir espaços de estudo ou enfrentar longos deslocamentos. A prova pode ser a mesma. As condições de preparação, definitivamente, não são.

É nesse contraste que o discurso da meritocracia precisa ser examinado com cuidado. O esforço individual importa, assim como a disciplina e a persistência. Negar isso seria desconsiderar o empenho de tantos jovens que transformam a educação em projeto de vida. Mas atribuir o resultado exclusivamente ao mérito é ignorar que o desempenho também depende das oportunidades acumuladas ao longo da trajetória escolar.

A desigualdade não começa na inscrição para o Enem. Ela se manifesta muito antes, no acesso à educação infantil, na disponibilidade de professores, nas condições de infraestrutura, na formação leitora e até na possibilidade de estudar em um ambiente silencioso. Quem chega ao último ano do ensino médio com dificuldades de interpretação textual, por exemplo, não enfrenta apenas um conteúdo a revisar: carrega lacunas construídas durante anos. Nenhuma maratona de exercícios, por mais intensa que seja, consegue eliminar automaticamente esse histórico.

Essa desigualdade também se manifesta no desenvolvimento das competências de leitura e escrita. Produzir um texto argumentativo exige muito mais do que conhecer uma estrutura: pressupõe repertório sociocultural, domínio da linguagem e capacidade de estabelecer relações entre diferentes fenômenos sociais. Essas habilidades são construídas ao longo de toda a trajetória escolar e dependem de experiências educativas que não estão igualmente disponíveis. Assim, quando as condições de aprendizagem são desiguais, as diferenças de desempenho não podem ser interpretadas apenas como reflexo da dedicação individual.

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Isso não significa que o Enem deva deixar de ter critérios comuns. Ao contrário: uma avaliação pública precisa de parâmetros transparentes, e o exame desempenha um papel relevante no acesso ao ensino superior. O equívoco está em confundir igualdade de regras com igualdade de oportunidades. A primeira é necessária para avaliar; a segunda precisa ser construída por políticas educacionais capazes de garantir aprendizagem, permanência e condições dignas de estudo.

Há, ainda, um efeito perverso quando a aprovação é narrada apenas como vitória da força de vontade. Histórias de superação merecem reconhecimento, mas não podem servir de argumento para naturalizar obstáculos que deveriam ser combatidos. Se um estudante precisou vencer a fome, a exaustão ou a falta de recursos para alcançar uma vaga, sua conquista é admirável. As dificuldades enfrentadas, contudo, não deveriam ser tratadas como etapas obrigatórias do sucesso.

Às vésperas de mais uma edição do Enem, talvez a pergunta mais importante não seja apenas quem conseguirá as melhores notas, mas o que fizemos para que mais jovens pudessem disputar essas vagas em condições justas. Valorizar o mérito exige também levar a sério as condições que tornam esse mérito possível. Afinal, uma prova igual para todos só se aproxima da justiça quando as oportunidades de aprender deixam de ser tão desiguais.

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