Dia D
Decisão de JHC deve definir quadro eleitoral em Alagoas
Prefeito inaugura neste sábado (4) maior obra de sua gestão, com expectativa de anunciar renúncia para disputar governo com Renan Filho
Este sábado (4) será decisivo para os rumos políticos de Alagoas. É o último dia do prazo de desincompatibilização para quem pretende disputar as eleições deste ano, e todas as expectativas estão voltadas para o prefeito de Maceió, JHC (PSDB).
Embora ainda não tenha anunciado oficialmente qual cargo pretende disputar – se ao governo do Estado ou ao Senado –, JHC deverá renunciar à Prefeitura para viabilizar sua candidatura.
Pela manhã, o prefeito participa da inauguração da principal obra de sua gestão: o projeto Renasce Salgadinho, complexo de macrodrenagem, urbanização e revitalização do canal que corta a região central da capital alagoana. O evento, cercado de simbolismo, reunirá aliados e deve ser o último ato público de JHC como chefe do Executivo municipal.
Caso confirme as expectativas, JHC encaminhará ainda neste sábado uma carta de renúncia ao presidente da Câmara Municipal de Maceió, vereador Chico Filho (PP). Com o documento protocolado, Chico Filho dará imediato cumprimento à Lei Orgânica do Município e convocará o vice-prefeito, Rodrigo Cunha (União Brasil), para assumir o cargo.
A posse de Rodrigo Cunha deverá ocorrer ainda no mesmo dia, em cerimônia restrita na Câmara, garantindo que não haja interrupção no comando da Prefeitura.
O cenário político de Alagoas entrou, nesta semana, em uma fase de menor incerteza e maior definição de papéis. O fim da janela partidária, na sexta-feira (3), e do prazo de desincompatibilização, neste sábado (4), funcionam como marcos que reorganizam o tabuleiro eleitoral de 2026 – um verdadeiro jogo de xadrez, com peças sendo reposicionadas e estratégias sendo reveladas.
No centro dessa reconfiguração está o movimento do prefeito JHC, que rompeu com o grupo do deputado federal Arthur Lira, deixou o PL e se filiou ao PSDB. Mais do que uma simples troca de legenda, a decisão projeta o gestor como pré-candidato ao governo e inaugura uma nova dinâmica na disputa estadual.
REDUÇÃO DE INCERTEZAS
Para o cientista político Ranulfo Paranhos, ouvido com exclusividade pela Gazeta, o principal impacto imediato dessas movimentações é a redução das incertezas. “O que muda o cenário político é a redução da incerteza. A gente passa a ter um pré-candidato ao governo, um novo prefeito na capital e atores políticos já se posicionando com mais clareza”, analisa.
Na prática, segundo ele, o estado vive uma “rearrumação do tabuleiro do xadrez político”, com peças ganhando novos papéis. A eventual renúncia de JHC para disputar o governo, por exemplo, colocaria o vice Rodrigo Cunha no comando de Maceió — transformando a capital na principal vitrine administrativa do grupo durante o período eleitoral. “É um prefeito que a gente sabe que vai trabalhar para a reeleição do grupo”, pontua.
A decisão de JHC de migrar para o PSDB também levanta questionamentos sobre estratégia. Ao deixar um partido com maior tempo de televisão e recursos, ele passa a depender mais da própria imagem e de uma campanha fortemente baseada nas redes sociais. Para Paranhos, trata-se de uma aposta calculada. “Ele pode estar apostando que uma estratégia midiática bem elaborada, centrada na própria imagem, compense a falta de estrutura partidária”, explica.
Ainda assim, o cientista político pondera que essa escolha reduz a probabilidade de sucesso em um cenário tradicional como o de Alagoas, onde o apoio de prefeitos e a capilaridade política seguem sendo decisivos. “Não é só ele não ter prefeitos. É ele não ter prefeitos contra um candidato que tem quase 70”, ressalta, ao comparar com o grupo adversário.
BASE GOVERNISTA
Do outro lado do tabuleiro, o grupo liderado pelo senador Renan Calheiros e pelo ministro Renan Filho mantém uma posição considerada confortável. Com o governador Paulo Dantas no comando do Executivo estadual, a base governista reúne estrutura, alianças e presença institucional — fatores que, segundo Paranhos, fazem diferença em disputas majoritárias.
“O Renan Filho larga na frente por um conjunto de fatores: imagem pessoal, partido forte, arco de alianças amplo e apoio do governo federal. Ele é o candidato da máquina”, afirma. A estratégia do grupo, até aqui, indica a tentativa de reconduzir Renan Filho ao governo, enquanto Renan Calheiros buscaria mais um mandato no Senado.
Nesse contexto, o papel de Paulo Dantas tende a ser o de articulador e cabo eleitoral, embora Paranhos evite cravar movimentos. “Isso é muito de bastidor. O mais provável é o cumprimento de mandato com apoio à campanha, mas não dá para afirmar com precisão”, diz.
JOGO EMBARALHADO
A entrada de JHC na disputa, por sua vez, é vista como um fator que pode embaralhar o jogo, especialmente ao fragmentar a oposição ao grupo governista. “Por hipótese, ele pode ser um candidato competitivo. Não sabemos ainda o peso dessa competitividade, mas ele altera o cenário”, observa.
Já o deputado Arthur Lira enfrenta o desafio de recompor seu grupo político após perder um aliado estratégico na capital. Sem JHC, a tendência é que novas lideranças sejam testadas, como o deputado Alfredo Gaspar. No entanto, Paranhos levanta dúvidas sobre a viabilidade de uma terceira via robusta. “É muito raro você ter três polos fortes em uma eleição. Normalmente há uma polarização com dois candidatos mais competitivos”, explica.
Ele também chama atenção para fatores que podem influenciar negativamente candidaturas alternativas, como oscilações de imagem pública. No caso de Alfredo Gaspar, episódios recentes nas redes sociais teriam impactado sua percepção junto ao eleitorado, evidenciando a volatilidade do ambiente digital.
No Senado, a disputa promete ser um dos pontos mais intensos da eleição, especialmente diante da possibilidade de um confronto direto entre Arthur Lira e Renan Calheiros. Ainda assim, Paranhos aponta vantagem histórica do senador. “Se fosse para apostar, eu apostaria primeiro no Renan, pelo histórico, pela experiência e pela capacidade de articulação com prefeitos”, afirma.
Apesar das análises e tendências, o cientista político reforça que o cenário ainda está em construção e sujeito ao imprevisível. “A política depende da incerteza. Tudo isso pode acontecer exatamente ao contrário. O eleitor pode decidir mudar completamente o rumo”, pondera.
No atual estágio do jogo, porém, uma leitura parece consensual: o tabuleiro foi reorganizado, as peças estão mais visíveis e a disputa começa, de fato, a ganhar contornos mais claros — ainda que o xeque-mate esteja longe de ser definido.