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Trocas partidárias redesenham forças de bancadas na Câmara de Maceió
PL permanece com maior número de vereadores, oito, seguido do PSDB, que tem quatro parlamentares
A recente onda de desfiliações partidárias na Câmara Municipal de Maceió provocou uma reconfiguração significativa dos blocos políticos, alterando o equilíbrio de forças no Legislativo. O movimento foi impulsionado pela concessão de supostas cartas de anuência durante o período em que o então prefeito João Henrique Caldas (PSDB) comandava o diretório provisório estadual do PL.
Embora a chamada janela partidária seja destinada a parlamentares de outras esferas, vereadores aliados aproveitaram a brecha jurídica para migrar de legenda, redesenhando alianças e levantando questionamentos sobre fidelidade partidária e ideológica.
Mesmo após perder três integrantes, o PL permanece como a maior bancada da Casa, passando de 11 para oito vereadores. No entanto, a permanência dos filiados não garante alinhamento político.
Parlamentares como Luciano Marinho, Jeannynne Beltrão e Jonathan Omena, cujos nomes foram incluídos em listas de desfiliação sem consentimento, decidiram permanecer no partido, mas sem compromisso com a chapa majoritária. “Nosso candidato a governador é JHC”, afirmam, evidenciando um racha interno ainda longe de ser resolvido.
A crise no PL ganhou contornos jurídicos e institucionais. Lideranças como Valdemar da Costa Neto, Alfredo Gaspar de Mendonça e o vereador Leonardo Dias defendem que a chamada “infidelidade partidária” seja discutida na Justiça. Apesar disso, Leonardo Dias relativizou o alinhamento ideológico dentro da sigla:
“O PL não é formado apenas por bolsonaristas. Há composições com filiados de centro e de direita”. Ele acrescentou que não haverá imposição de candidaturas locais, mas fez ressalvas: “Não vamos apoiar candidaturas de esquerda dentro do partido”.
O PSDB, por sua vez, emerge como principal beneficiado da reconfiguração. Sem representação anterior, passou a contar com quatro vereadores, tornando-se a segunda maior bancada. Entre os novos integrantes estão Chico Filho, Cal Moreira, Eduardo Canuto e Kelmann Vieira, egresso do MDB. Segundo Chico Filho, “o líder da nossa bancada será Eduardo Canuto, e o nosso candidato ao governo é JHC”.
No cenário nacional, a maioria dos novos tucanos locais tende a apoiar candidaturas de centro-direita, embora Canuto declare apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ): “Sou de direita, por isso voto no Flávio”.
MDB
O MDB também foi impactado pela movimentação. A bancada, que tinha quatro vereadores, perdeu dois nomes, entre Kelmann Vieira – que se filiou ao PSDB –, e Zé Márcio, agora no PSD, legenda que passa a contar com dois parlamentares e tem como líder o ex-prefeito Rui Palmeira.
“O partido ficou mais forte com a chegada de Zé Márcio e terá mais espaço nas comissões parlamentares da Casa”, afirmou Rui. Já o MDB, sob a liderança de Allan Pierre e com a vereadora Fátima Santiago, mantém alinhamento com a chapa majoritária do partido para as eleições gerais, apesar da redução numérica.
Outros partidos mantiveram relativa estabilidade, mas seguem atentos às articulações. O PP, por exemplo, mantém três cadeiras, mesmo com o afastamento do delegado Thiago Prado para assumir a Secretaria Municipal de Segurança Cidadã, sendo substituído pelo suplente João Vicente Catunda, que terá apoio dos colegas de bancada Davi Davino e Olívia Tenório.
O PSB, com os vereadores Thales Diniz e Carlos Ronalsa, e o PDT, representado pelo vereador Aldo Loureiro, evitam antecipar posicionamentos eleitorais, aguardando definições em nível estadual. No campo governista, o prefeito Rodrigo Cunha (Podemos) fortalece sua base, apesar de o partido contar com apenas o vereador Samyr Malta na Câmara.
O prefeito nega exercer liderança formal sobre o Legislativo: “Não sei de nada sobre isso”. Ainda assim, além de Samyr, conta com o apoio aberto de outros 21 vereadores, entre os 27 parlamentares da Casa.
O vice-líder do prefeito, vereador David Emprego, único integrante do União Brasil, afirma não saber como ficará, em Maceió, a federação partidária que une nacionalmente PP e União Brasil. “Vou aguardar a orientação do partido”, disse. Situação semelhante vive a única representante do Solidariedade, a vice-presidente da Câmara, vereadora Silvânia Barbosa, que, até a última quinta-feira (9), negava a saída da sigla para integrar federação com o PT.
ESQUERDA
Já a federação de esquerda, formada por PT, PV e PCdoB, mantém atuação pautada em agendas sociais. O PT é representado pela vereadora Teca Nelma. O PV detém a cadeira do vereador Sílvio Camelo Filho, que se afastou do mandato para tratamento de saúde e questões pessoais; em seu lugar, assumiu o vereador Charles Herbert (PCdoB), que permanecerá no cargo até junho.
No pano de fundo da nova configuração das bancadas no Legislativo da capital alagoana, permanece o impasse jurídico: partidos como PL e MDB sustentam que os mandatos pertencem às legendas e prometem contestar na Justiça o uso da janela partidária por vereadores, ampliando a disputa para além do plenário.