ARTIGO
Vamos reeditar o pacto colonial?
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A cobiça internacional pelas chamadas terras raras recoloca o Brasil diante de um velho dilema histórico: ser protagonista do próprio desenvolvimento ou permanecer fornecedor de riqueza bruta para as grandes potências. O tema parece novo, embalado pela linguagem da transição energética, dos semicondutores e da economia digital, mas o roteiro é conhecido desde os primeiros séculos da colonização.
Do pau-brasil ao ouro de Minas Gerais, a formação econômica brasileira esteve baseada na exploração de recursos naturais para abastecer interesses externos. A lógica era simples: retirar daqui a matéria-prima, concentrar riqueza fora e deixar, internamente, dependência, desigualdade e atraso estrutural.
O custo humano desse modelo foi brutal: povos indígenas dizimados, comunidades inteiras destruídas e milhões de africanos sequestrados e trazidos à força pelo tráfico negreiro para sustentar a engrenagem econômica colonial.
A exploração mineral nunca foi apenas uma atividade econômica. Ela moldou relações de poder, ocupação territorial e estruturas sociais que deixaram marcas profundas no país. O Brasil exportava riqueza e importava submissão política e tecnológica.
Séculos depois, o mundo volta os olhos para o subsolo brasileiro. As terras raras passaram a ser estratégicas para a indústria de alta tecnologia, fabricação de baterias, carros elétricos, turbinas e equipamentos militares. Em meio à disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, países detentores dessas reservas ganham importância crescente.
O temor é que o Brasil entre novamente nesse jogo apenas como fornecedor primário. Seria a reedição “high tech” do pacto colonial: exportar minério bruto e importar tecnologia de alto valor agregado. Um país rico em recursos, mas dependente em inteligência industrial.
Por isso, o debate sobre terras raras não pode ficar restrito à lógica imediatista da exploração mineral. Trata-se de uma discussão sobre soberania nacional. O minério, isoladamente, vale menos do que a cadeia tecnológica que nasce dele.
O caminho estratégico passa por atrelar a exploração à transferência de tecnologia, ao fortalecimento da indústria nacional e à formação de mão de obra qualificada. Não basta retirar riqueza do solo; é preciso transformar conhecimento, inovação e capacidade produtiva em patrimônio brasileiro.
O Brasil já conheceu, ao longo da história, os efeitos de entregar suas riquezas sem construir autonomia. As terras raras oferecem uma oportunidade valiosa de romper esse ciclo. O desafio, desta vez, é impedir que o país continue exportando futuro em estado bruto.