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TECNOLOGIA E HUMANIDADE

Os riscos da Desumanização

Reflexões a partir da Encíclica “Magnifica Humanitas”, de Leão XIV

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Vivemos uma época de extraordinários avanços tecnológicos. A inteligência artificial redefine profissões, a medicina prolonga a vida humana, as comunicações eliminam fronteiras, e o conhecimento circula em velocidade jamais imaginada. Paradoxalmente, quanto mais a humanidade avança em capacidade técnica, mais surgem sinais preocupantes de um retrocesso moral e espiritual. É exatamente sobre esse dilema que se debruça a Encíclica de Leão XIV ao alertar para os riscos da desumanização.

A palavra pode parecer abstrata, mas seus efeitos estão por toda parte. A desumanização começa quando deixamos de enxergar o outro como pessoa e passamos a vê-lo apenas como número, estatística, adversário, consumidor, eleitor ou obstáculo. É um processo silencioso que corrói os fundamentos da convivência social e enfraquece os valores que sustentam a civilização.

O Papa observa que a sociedade contemporânea vive uma espécie de contradição permanente. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão isolados. Nunca tivemos acesso a tanta informação e, paradoxalmente, tão pouca compreensão do sofrimento humano. As redes sociais aproximam pessoas geograficamente distantes, mas frequentemente afastam corações e consciências.

A lógica do descarte, denunciada anteriormente por diversos líderes religiosos e agora retomada por Leão XIV, talvez seja uma das faces mais perversas desse fenômeno. Quando uma sociedade passa a medir o valor das pessoas apenas por sua capacidade de produzir, consumir ou gerar lucro, os idosos, os pobres, os doentes, os desempregados e os excluídos tornam-se invisíveis. Deixam de ser cidadãos para se transformarem em problemas estatísticos.

Os exemplos estão diante de nossos olhos. Milhões passam fome em um mundo capaz de produzir alimentos em abundância. Crianças continuam morrendo por causas evitáveis, enquanto recursos bilionários são destinados à indústria da guerra. Mulheres sofrem violência dentro dos próprios lares. Animais são submetidos a crueldades indescritíveis. Povos inteiros são deslocados por conflitos armados, perseguições religiosas e interesses econômicos.

Tudo isso acontece porque, em algum momento, alguém deixou de enxergar humanidade no outro.

A Encíclica também alerta para os riscos da tecnologia quando desvinculada da ética. Ferramentas extraordinárias podem servir tanto à promoção da dignidade humana quanto ao aprofundamento das desigualdades. A inteligência artificial, por exemplo, possui potencial para revolucionar a educação, a saúde e a gestão pública, mas também pode ampliar mecanismos de vigilância, manipulação e exclusão se não estiver submetida a princípios éticos sólidos.

A preocupação não é com as máquinas. O problema sempre será o ser humano que as controla.

Ao longo da história, os maiores horrores não foram cometidos por robôs ou algoritmos. Foram praticados por homens e mulheres que perderam a capacidade de reconhecer a dignidade de seus semelhantes. Guerras, genocídios, escravidão, perseguições religiosas e regimes totalitários tiveram origem na mesma raiz: a negação da humanidade do outro.

O Brasil também enfrenta seus próprios desafios nesse campo. O crescimento da violência urbana, do feminicídio, da intolerância política, dos discursos de ódio e da polarização extrema revela sintomas preocupantes de uma sociedade que, muitas vezes, substitui o diálogo pela agressão e a empatia pelo ressentimento.

A política, que deveria ser instrumento de construção coletiva, frequentemente transforma adversários em inimigos. O debate público degrada-se. A mentira ganha espaço. A agressividade passa a ser confundida com coragem. E o respeito às diferenças torna-se cada vez mais raro.

Leão XIV recorda que a verdadeira grandeza de uma nação não pode ser medida apenas por indicadores econômicos ou avanços tecnológicos. Uma sociedade será tanto mais desenvolvida quanto maior for sua capacidade de proteger os vulneráveis, acolher os excluídos e promover a dignidade humana.

A resposta à desumanização não está apenas nas leis, nos governos ou nas instituições religiosas. Ela começa dentro de cada pessoa. Está na forma como tratamos nossos pais idosos, nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho, os animais, os pobres e aqueles que pensam de maneira diferente de nós.

A civilização não se perde de uma vez. Ela se deteriora lentamente, sempre que a indiferença substitui a solidariedade e quando o egoísmo ocupa o lugar da fraternidade.

A advertência de Leão XIV é, portanto, um chamado à consciência. Em um mundo cada vez mais sofisticado tecnologicamente, precisamos preservar aquilo que nos torna verdadeiramente humanos: a compaixão, a solidariedade, a justiça e o amor ao próximo.

Sem esses valores, corremos o risco de construir um mundo moderno, eficiente e conectado, mas profundamente vazio de humanidade.

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