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Nove décadas inacianas
Nunca imaginaria vir a ser amigo de Ignácio de Loyola Brandão, que completa 90 anos
Eu estava na faculdade quando li Não Verás País Nenhum. Em oposição frontal ao ufanismo dos governos militares, encontrei uma São Paulo devastada, uma secura que angustiava a cada página. A força da distopia revelou-me um autor maduro e brilhante: Ignácio de Loyola Brandão. Acompanhei Souza, afinal a personagem era o que eu queria ser: professor. Foi meu primeiro contato com o autor.
Fui atrás do romance seminal: Zero. Nunca parei. Amo a imaginação “inaciana”. Só um homem com sestro de escritor pega algo pequeno, uma memória de Araraquara, e transforma numa sinfonia sinestésica impactante. O texto mais recente foi Desta Terra Nada Vai Sobrar, A Não Ser O Vento Que Sopra Sobre Ela. Um soco na narrativa tradicional!
Ignácio me disse que estava escrevendo Risco de Queda, a partir de uma pulseira que colocaram nele ao fazer exames. Com mais de 80 anos, pensam, há risco de queda. Ele amplia. O risco de queda dialoga com Newton e com Deus: destino e gravidade rondam as criaturas de Prometeu. Ele segue observando o mundo ao seu redor, um flâneur inspirado e atento.
Escrevi no parágrafo anterior: “Ele me disse”. Nunca imaginaria vir a ser amigo de Ignácio de Loyola Brandão. Passei a escrever no Estadão e, um dia, ele me mandou um e-mail inesperado. Tinha lido minha crônica sobre o filme Gilda e a atriz Rita Hayworth (que ele conheceu na Espanha). Ignácio me enviou um e-mail out of the blue. Fiquei espantado. Eu não era digno de que visitasse minha morada, mas ele disse uma palavra, e... fui salvo. Ignácio lia minhas crônicas!!! Quase gritei ao ler o elogio dele.
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Mais tarde, quando fui eleito para a Academia Paulista de Letras, passei a encontrar meu confrade regularmente. Um dia, pedi um prefácio e... ele o fez. Em outra ocasião, solicitei a vários amigos escritores que indicassem livros a jovens. Todos responderam com breves linhas e dois títulos, como solicitado. Ignácio é de outra cepa. Enviou-me um longo texto. Eis um trecho: “Ainda hoje, 78 anos depois, reverbera pulsante o presente que minha madrinha Ignácia me deu, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Eu tinha dez anos. Livro de espantos, sustos, gargalhadas, suspiros, ironia e liberdade total de imaginação. Fantasias sem coerção. Como fui feliz ao ver a personagem percorrer com naturalidade um alucinante mundo de contrários debaixo da Terra. (...) Esta foi a primeira maravilha para mim, criança. Logo elas se amontoaram. Coelhos falantes, lagartas que adquirem tamanhos variados e só dizem frases curtas, animais que não são o que são (hoje vejo humanos que não são o que são), o corpo de Alice mudando de forma, crescendo e diminuindo, gatos ingleses que sorriem, uma terra onde todos estavam habituados a cortar a cabeça dos outros. (.. ) Carroll me libertou. E assim escrevi Não Verás País Nenhum e outros quantos eu quiser, do jeito que desejar, me apetecer. Sou livre como criador. Vejo a realidade como quero e desejo que seja. E como é real minha realidade inventada”. Depois, ele defendeu Robinson Crusoé como fonte imaginativa. Lindo!
Por fim, eu o entrevistei no Club Athletico Paulistano. Foi uma noite inesquecível! O autor trouxe livros da sua infância e compartilhou memórias com fala mansa e inteligente. O que falar sobre a escrita quando encontro a própria escrita falando? Como o teólogo deve se comportar na presença de Deus? Eu já tinha tido essa experiência quando alguém, em uma palestra no auditório do Anhembi, perguntou-me sobre literatura e, no instante da minha resposta, descia pelo corredor central a próxima palestrante: Lygia Fagundes Telles. Calei-me e apontei para ela. Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta!
Ignácio é o querido das feiras de livros. Sua presença atrai grande público. Divertido e carismático, fala com desenvoltura. Os jovens se acotovelam para ouvi-lo. Digo isso porque já o vi em ação e renovo meu conceito-chave de vida: esperança. O carisma inaciano é nítido e atinge pessoas que nasceram no século 21.
É óbvio que, com este nome, Ignácio de Loyola nasceu em 31 de julho, dia de Santo Inácio. O basco inspirou o araraquarense. O filho do ferroviário interiorano conquistou prêmios importantes, do Jabuti ao Machado de Assis. No próximo dia do fundador dos jesuítas, nosso Ignácio completa 90 anos. Um paulista, um brasileiro, um escritor embriagado de criatividade e de amor às palavras. Imortal em dose dupla, pelas Academias Brasileira e Paulista de Letras, continua afável, acessível e com suas indefectíveis e espessas sobrancelhas brancas. Todos os que vivem, todos os seres oxidáveis de carbono como você, querida leitora, e você, estimado leitor, apresentam “risco de queda”. Tudo nos atrai à superfície do solo e, um dia, abaixo dele. Pelo bem do meu país, pela cultura brasileira, desejo que o risco seja apenas advertência produtiva para Ignácio. Que escreva muito! Os jesuítas me deram razão e nosso Ignácio de Loyola moldou minha emoção. Ad maiorem Dei gloriam!