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Precisamos de uma vacina contra o ódio

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O Brasil venceu doenças históricas com ciência, pesquisa e vacinação em massa. Agora precisa impedir que a disputa política transforme a saúde em mais uma trincheira de intolerância.

O Brasil tem uma história extraordinária para contar no campo da ciência, da pesquisa e da imunização, uma história que, muitas vezes, nós mesmos não valorizamos como deveríamos. Cientistas brasileiros trabalham em universidades, hospitais e centros de pesquisa espalhados pelo mundo, levando conhecimento, desenvolvendo tecnologias e ajudando a salvar vidas. Dentro de nossas fronteiras, construímos uma das maiores estruturas públicas de saúde do planeta, capaz de fazer uma vacina sair de um laboratório e chegar gratuitamente ao braço de uma criança em uma pequena cidade do interior do Nordeste, numa comunidade amazônica ou em qualquer grande metrópole brasileira.

Isso tem nome: Sistema Único de Saúde. O SUS pode ter defeitos, filas, carências e dificuldades, mas é também uma das mais importantes conquistas sociais do Brasil e, dentro dele, está uma das experiências mais bem-sucedidas da nossa saúde pública: a vacinação em massa.

A varíola desapareceu, a poliomielite deixou de circular no País e doenças como sarampo, rubéola, difteria, coqueluche, tétano e tantas outras tiveram sua incidência drasticamente reduzida graças à vacinação. O último caso de poliomielite registrado no Brasil ocorreu em 1989. Para uma geração inteira, paralisia infantil é quase uma expressão do passado. Representava a ideia de que proteger uma criança era responsabilidade de todos.

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Esse consenso começou a ser quebrado durante a pandemia da Covid-19. A maior crise sanitária de nossa geração também produziu uma espécie de epidemia política. Máscara virou ideologia, remédio virou bandeira partidária, vacina virou símbolo eleitoral, médicos e cientistas passaram a ser atacados por pessoas que jamais tinham colocado os pés em um laboratório e informações falsas ganharam a mesma velocidade do vírus.

É nesse ambiente que deve ser analisada a declaração feita agora pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro sobre a vacinação de sua filha nos Estados Unidos. Ele contou que, vivendo no Texas, utilizou um mecanismo legal de dispensa de exigências de vacinação escolar, mediante uma declaração juramentada e o pagamento de uma pequena taxa. É direito dele fazer sua escolha dentro das regras existentes naquele estado americano. Também é direito de qualquer cidadão defender maior liberdade dos pais nas decisões relativas aos filhos. Mas daí a transformar a experiência pessoal em argumento político contra a vacinação existe uma distância enorme.

Também é preciso esclarecer que não é correto afirmar simplesmente que, nos Estados Unidos, criança não precisa ser vacinada. As regras variam de estado para estado, e o Texas admite determinadas hipóteses de isenção, enquanto outros estados possuem normas diferentes. Da mesma forma, a política brasileira de vacinação não nasceu com Lula, Bolsonaro, Fernando Henrique, Dilma ou qualquer outro presidente recente. O Programa Nacional de Imunizações existe desde a década de 1970, e o Estatuto da Criança e do Adolescente, aprovado em 1990, também estabelece regras relacionadas à vacinação infantil. É uma construção institucional que atravessou governos militares, governos de centro, de esquerda e de direita. Vacinação sempre foi política de Estado e é exatamente assim que deveria continuar.

Eduardo Bolsonaro pode defender suas ideias, seus adversários podem criticá-las, especialistas podem apresentar dados e evidências, e pais podem ter dúvidas e devem receber respostas claras. O que não podemos permitir é que a saúde das crianças entre definitivamente no palanque eleitoral.

Estamos vivendo um tempo perigoso, em que tudo precisa pertencer a um lado. Se alguém de direita diz alguma coisa, imediatamente parte da esquerda precisa rejeitar. Se alguém de esquerda defende alguma posição, imediatamente parte da direita precisa atacar. Já não se discute apenas o argumento; discute-se quem falou e, muitas vezes, odeia-se quem falou.

Esse talvez seja um dos maiores males do Brasil contemporâneo. Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de discordar sem transformar o outro em inimigo. Famílias se dividiram por política, amizades antigas desapareceram, pessoas deixaram de conversar e as redes sociais criaram verdadeiras arquibancadas de ódio, onde cada grupo comemora a humilhação do adversário como se a destruição do outro fosse uma vitória pessoal. A política deixou de ser confronto de ideias e virou confronto de identidades.

É exatamente aí que assuntos como vacinação se tornam perigosamente explosivos. O vírus não pergunta em quem você votou. O sarampo não é de direita, a poliomielite não é de esquerda, a meningite não participa de convenções partidárias, a febre amarela não acompanha pesquisa eleitoral e uma criança doente não melhora porque seus pais ganharam uma discussão nas redes sociais.

A eleição de 2026 já está contaminando praticamente todos os debates nacionais. Saúde, educação, segurança, economia, costumes e religião correm o risco de ser engolidos pela mesma lógica: de um lado, os meus; do outro, os inimigos. Eleição precisa ter confronto de projetos, debate duro, oposição, crítica, cobrança e fiscalização. O que não precisa ter é ódio.

Não precisamos concordar para viver no mesmo país, não precisamos votar no mesmo candidato para sentar na mesma mesa e não precisamos pensar da mesma maneira para respeitar uns aos outros. Também não precisamos transformar uma vacina, uma máscara, um tratamento médico ou uma decisão sanitária em declaração de guerra política.

Talvez devêssemos voltar a olhar para aquelas antigas campanhas de vacinação, com filas enormes, crianças no colo dos pais, postos de saúde lotados, profissionais trabalhando durante horas e o Zé Gotinha sorrindo na entrada. Ninguém perguntava se aquela família era de direita ou de esquerda, ninguém perguntava em quem o pai tinha votado e ninguém perguntava se a mãe apoiava o governo. A preocupação era apenas uma: proteger a criança.

Era uma bela imagem de país e precisamos recuperá-la. Contra a poliomielite temos vacina, contra o sarampo temos vacina, contra a febre amarela temos vacina, contra a hepatite temos vacina e, contra a Covid-19, a ciência conseguiu produzir vacinas em tempo extraordinário.

Mas existe uma doença para a qual nenhum laboratório ainda encontrou imunizante: o ódio. O ódio político que separa famílias, destrói amizades, desumaniza adversários e transforma brasileiros em inimigos de brasileiros. Essa epidemia talvez seja hoje uma das mais perigosas que enfrentamos, e sua vacina não virá em frasco, não será aplicada por uma enfermeira e não estará armazenada em uma geladeira do SUS.

Ela terá que ser produzida dentro de cada um de nós. Precisamos urgentemente de uma vacina contra o ódio entre brasileiros. E essa, infelizmente, ainda não está disponível nos postos do SUS.

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