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A maior mudança já vista
Se você acha um celular retangular irresistível, imagine um que o abrace
Um dado impactante: a Amazon limitou a três livros por dia, para cada autor, as publicações na sua plataforma de autopublicação (KDP). Ouvi e acreditei ter entendido errado o número ou o prazo. Era verdade: no máximo, cada autor pode enviar três livros diários. A razão: a avalanche de livros feitos por IA. É um mercado afogado por textos feitos por não humanos. O que significa isso?
Resolvi explorar mais. Perguntei a uma IA (Claude) quais seriam os cinco livros que eu deveria ler para ficar mais inteligente. Ela me advertiu: “Não existe uma lista universal que vá deixá-lo mais inteligente. Inteligência tem muitas dimensões: raciocínio, criatividade, autoconhecimento, tomada de decisão. Mas posso recomendar cinco livros que são clássicos em expandir a forma de pensar, cada um por um motivo diferente”. Pedi que indicasse, e eis a lista: Rápido e Devagar, de Daniel Kahneman; A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb; Sapiens, de Yuval Noah Harari; Meditações, de Marco Aurélio; Como Ler Livros, de Mortimer Adler.
Pensei: são bons textos. Mas explorei mais a IA: por que Meditações e não os fundadores do estoicismo? Ela respondeu de forma adequada: “Boa pergunta. Os fundadores do estoicismo foram Zenão de Cítio, Cleantes e Crisipo, na Grécia do terceiro século a.C. O problema prático é que quase nada do que eles escreveram sobreviveu. Restaram fragmentos, citações indiretas e resumos feitos por autores posteriores”. Sim, é assim mesmo. Mas ela indicou os greco-romanos tardios sobreviventes em livros inteiros: Epicteto e Sêneca.
Questionei a lista de novo: por que Sapiens e não Nexus, também de Yuval Harari? Ela argumentou, como aluna inteligente em banca de doutorado, que Sapiens já está mais assimilado, é mais amplo e é o livro fundacional do pensamento de Harari. Eu concordaria. Mas há um dado interessante. Minha IA alegou que, sobre o livro Nexus, “há críticas de que Harari simplifica demais a parte sobre IA e que algumas analogias históricas não se sustentam bem”. Curioso: minha IA acha (ou se esconde atrás de críticos) que há superficialidade no trato do israelense sobre a inteligência artificial. Pensei duas coisas: a) teria a IA “lugar de fala” para analisar IA? b) haveria uma ferida narcísica na análise dela sobre Harari? IAs teriam narciso para ser ferido? Não sei sobre a vaidade dela, mas foi diplomática e preservou a minha ao encerrar assim: “Se você já tem familiaridade com o pensamento dele, trocar por Nexus na lista faz bastante sentido”.
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Eu estava com um chip atrás da orelha. Perguntei qual seria o livro mais simpático à IA que ela poderia indicar. A solução foi humanamente genial. Ela me indicou o livro do CEO da Anthropic, a empresa que desenvolveu Claude. O ensaio é de Dario Amodei e se chama Machines of Loving Grace (2024). Por que seria especial? Ela diz que “vale ler pelo contraste com o tom apocalíptico dominante”. Eu perguntei por um livro a favor da IA, e ela respondeu. Seria coincidência que fosse o livro daquele que Claude pode chamar de dono ou pai?
A escala do fenômeno disparou. O mercado de IA generativa cresceu rapidamente em 2024, com investimentos globais que ultrapassam dezenas de bilhões de dólares e projeções, da Bloomberg Intelligence e da McKinsey, de impacto econômico anual entre 2,6 e 4,4 trilhões de dólares até o início da próxima década. Impressionante, não? Será uma bolha ou novo horizonte?
Alan Turing, no célebre artigo Computing Machinery and Intelligence (1950), formulou a pergunta inaugural: “Podem as máquinas pensar?” Mais de sete décadas depois, ainda discutimos a resposta, mas o jogo mudou. Geoffrey Hinton, vencedor do Prêmio Nobel de Física em 2024 e considerado um dos pais da IA moderna, deixou o Google em 2023 para alertar abertamente sobre os riscos existenciais da tecnologia que ajudou a criar.
Nick Bostrom, em Superinteligência (2014), advertiu que o problema central não é tornar as máquinas mais espertas, mas garantir que seus objetivos permaneçam alinhados aos nossos. Stuart Russell, autor do manual mais usado em universidades, Artificial Intelligence: A Modern Approach, define a questão de modo seco: “Construímos máquinas que são otimizadoras; o problema é o que pedimos que elas otimizem”.
Volto a um delírio utópico ou distópico que já insinuei em textos anteriores. No filme Her (Spike Jonze, 2013), Theodore (Joaquin Phoenix) apaixona-se por uma IA encarnada em voz feminina. Estamos diante da maior ferramenta de produção já criada pela espécie humana. A IA, em suas múltiplas formas, já tem até a sua própria rede social (sim, existem redes sociais só de IAs). Suas instâncias já conversam entre si e trocam figurinhas. O salto seguinte, talvez o definitivo, será colocar essa inteligência em robôs antropomorfos.
Nesse dia, você poderá encomendar uma máquina sofisticada com tudo, absolutamente tudo, que o seduz. Um algoritmo voltado ao seu desejo total como nenhuma pessoa poderia ser. Um amigo, um amante, um pai, uma mãe que seja exatamente o que você mais deseja no mundo. O mito é antigo: Pigmalião, nas Metamorfoses de Ovídio, esculpiu uma mulher tão perfeita que se apaixonou por ela; Mary Shelley, em Frankenstein (1818), advertiu sobre o que fazemos quando criamos vida sem responsabilidade. Se você acha um celular retangular irresistível, com vídeos ditados pelo algoritmo para prendê-lo, imagine um celular que o abrace, que converse, que o leve para a cama com ternura ou brutalidade do jeito exato que você deseja.
Nesse dia, teremos uma ruptura maior do que todas as revoluções anteriores. Se muita gente se acidenta dirigindo porque não consegue deixar de responder a um zap com mensagens rasas, imagine o que ocorrerá quando robótica e IA estiverem combinadas. Será, com certeza, um fim e também um começo. Do quê? Algo que nos libertará ou nos aprisionará com as mais formidáveis forças já concebidas. Ocorrerá ainda nesta geração. Está preparada? Está preparado? Se estiver, vai ocorrer. Se não estiver, vai ocorrer igualmente. Esperança? Bem, seria bom ler o ensaio otimista de Dario Amodei, just in case…