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O poder das palavras

Jerônimo cometeu erros ao traduzir a Bíblia, mas é preciso entender suas limitações à época

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Imagem ilustrativa da imagem O poder das palavras
| Foto: Michelangelo Buonarroti (1475-1564) – Moisés/Reprodução

Edward Bulwer-Lytton escreveu “a pena é mais forte do que a espada” (The pen is mightier than the sword, em Richelieu; Or the Conspiracy, de 1839). Há frases próximas em Eurípides e Shakespeare.

Houve um homem cujas escolhas de palavras marcaram os séculos seguintes. Sofrônio Eusébio Jerônimo de Estridão (c. 347-420) foi o responsável pela tradução da Bíblia para o latim, obra que ficaria conhecida como Vulgata e que dominaria a leitura cristã ocidental por mais de mil anos.

Estarei exagerando? Você entra na igreja de São Pedro in Vincoli, em Roma, e se depara com a obra de Michelangelo: o Moisés. Sobre a cabeça do legislador, dois chifres. Qual a origem da ideia? Talvez um erro de Jerônimo. O texto hebraico diz que, ao descer do Sinai (Êxodo 34), a face de Moisés qaran, verbo derivado da raiz qeren (“chifre”), mas que no contexto significa “irradiava”, “resplandecia”. Jerônimo traduziu literalmente por cornuta esset facies sua (“sua face estava com chifres”). Michelangelo, em 1515, esculpiu o que leu.

A concepção católica de Maria também dialoga com escolhas de Jerônimo. Ele traduziu o hebraico almah (jovem mulher em idade de casar) por virgo (“virgem”), seguindo o grego da Septuaginta, que usava parthenos. O termo hebraico específico para “virgem” seria betulah (Isaías 7,14). Outro exemplo? A saudação do anjo a Maria, kecharitomene (Lucas 1,28), em grego (particípio perfeito passivo: “tendo sido agraciada”), foi traduzida como gratia plena (“cheia de graça”). A formulação latina sugere plenitude substantiva de graça em Maria, ao passo que o grego indica uma ação recebida de Deus.

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Você já ouviu que a dificuldade de um camelo passar pelo buraco da agulha é semelhante à dificuldade de um rico ser salvo? Há debate antigo sobre se o grego original seria kamelos (camelo) ou kamilos (corda grossa, cabo). Jerônimo optou pelo animal. O chamado “iotacismo” (processo em que as vogais gregas foram sendo pronunciadas próximas ao som de i) ajudou na confusão que não é exclusiva de Jerônimo.

A maçã seria a fruta que levou a humanidade a ser expulsa do Éden? O hebraico não especifica a planta proibida. Jerônimo usou malum para “mal” em Gênesis 2,17. A palavra latina malum significa tanto “mal” quanto “maçã”. O trocadilho latino, combinado com tradições posteriores, ajudou a fixar a maçã no imaginário ocidental, algo ausente do texto original. O Paraíso Perdido de Milton (1667) consolidou a imagem para a literatura, e Dürer e Cranach, na pintura, fariam o resto. Mais do que inventar a falsa proximidade, Jerônimo “autorizou” a ideia com sua tradução.

Jerônimo foi um tradutor acima da média de sua época. Muitos dos erros atribuídos a ele resultam, na verdade, de séculos de cópias manuscritas. Traduziu alguns livros com muita pressa (confessou ter vertido Tobias em um único dia). Oscilou entre traduzir o Antigo Testamento diretamente do hebraico e usar a versão grega para comparar os textos. Isso criou as oscilações já identificadas.

Jerônimo aprendeu hebraico com rabinos na Palestina, mas seu conhecimento tinha lacunas, particularmente quanto às palavras que aparecem uma única vez (hapax legomena) e ao hebraico poético. Os livros de Jó e dos Profetas contêm passagens em que sua tradução é claramente conjetural.

Ele incorporou os chamados livros deuterocanônicos (fora do cânon judaico antigo), como os dois de Macabeus, Judite, Tobias, Eclesiástico, Sabedoria e Baruc. A escolha foi rejeitada por Lutero, que em sua tradução para o alemão (Novo Testamento em 1522, Bíblia completa em 1534) os relegou a um apêndice. A Bíblia protestante tem 66 livros; a católica, 73. Erasmo de Roterdã, em 1516, publicou seu Novo Testamento grego justamente para corrigir a Vulgata, e abriu caminho para a Reforma sem talvez imaginar.

Séculos de descobertas arqueológicas e estudos linguísticos possibilitam uma crítica contundente a Jerônimo. Os manuscritos do Mar Morto, achados a partir de 1947, revolucionaram nossa compreensão do hebraico bíblico antigo, oferecendo bases que ele jamais teve. Nossas críticas apresentam, porém, a injustiça de não levarem em conta as condições com que ele trabalhou. Seria como criticar um mapa do século 14 por não trazer latitude e longitude exatas.

Toda tradução é filha do seu tempo e deve ser refeita sistematicamente. Walter Benjamin, em A Tarefa do Tradutor (1923), afirmou que traduzir não é repetir, mas dar nova vida. Umberto Eco, em Quase a Mesma Coisa (2003), escreveu que traduzir é sempre negociar perdas.

Analisar as lacunas de Jerônimo é exercício fundamental. Tenho esperança de que saibamos sempre que estudar é diminuir, nunca eliminar, a quantidade de erros. Um homem culto é aquele que sabe que desconhece quase tudo. Por Jerônimo, 30 de setembro é o dia da secretária e do tradutor e intérprete. Parabéns para os profissionais dessas áreas protegidas pelo “dálmata selvagem”.

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