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Minha Rosa

Recebi vários bons presentes na vida, mas nenhum se compara à dádiva de ter Rose como irmã

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Imagem ilustrativa da imagem Minha Rosa
| Foto: Departamento de Criação da Central Gazeta de Notícias

Você já ganhou um presente muito bom? Certamente sim. Lembro-me de tantos. Nenhum se compara à dádiva de ter a Rose como irmã.

Vi a luz do mundo 838 dias depois do nascimento da primogênita da nossa família. A mais velha protege, e Rose encarnou esse papel. Ao me ver chorando no pátio da nossa escola, descobriu que um aluno de uma série adiantada havia batido em mim. Tomada de senso de justiça, foi atrás do menino e devolveu a agressão. Só então percebeu que eu tinha apontado vagamente e que ela havia estapeado um inocente. Falhas do impulso fraternal emotivo.

Nossa brincadeira preferida era dar aulas um para o outro após a escola. Despontavam, ali, duas vocações para o magistério. Também brincávamos de rezar missas, eu como padre e ela como fiel. Meu irmão, mais pragmático, queria jogar bola. Era um menino diferente, o Renato.

Quando eu tinha cinco anos, nasceu o benjamim, César. Completava-se o quarteto de filhos do dr. Renato e da dona Jacyr. Já podíamos dizer, da nossa família, algo similar ao título do romance de Maria José Dupré: Éramos Seis.

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Líamos muito. A imaginação fértil da Rose inventava histórias vibrantes sobre pequenos seres que se escondiam sob a cama: os “pequeninos”. Preparávamos refeições “luxuosas” para a suposta visita do prefeito; depois de tudo preparado, nós mesmos éramos os comensais. A imaginação era bem mais forte do que o talento gastronômico.

Apresentávamos pequenos teatros para a vizinhança. Criamos duas línguas fictícias para nós: ragstone e bulital. Demos nomes às árvores do pátio de casa e nelas fizemos esconderijos. Um dia, toquei fogo nos longos cabelos loiros dela, mas, em minha defesa, foi um experimento alquímico. Chegamos a empreender: as “Lojas União”, criadas na garagem de casa com produtos usados. Nossa única cliente foi a sempre fiel madrinha dela e vizinha eterna: tia Dulce. O negócio faliu. Houve empreendedorismo, mas faltou crédito do governo.

Eu e Rose íamos à missa diária na paróquia São José Operário. Eu virei sacristão; ela, leitora e chefe de canto. O padre, algumas senhoras de idade e nós dois formávamos o coro que, de segunda a segunda, entoava “Um Rei fez um grande banquete” na comunhão. Quando eu tinha quinze anos e ela dezessete, passamos a dar aulas de catequese. O padre Benno Brod, SJ, nos orientava.

Ao final do ensino médio, Rose dirigiu-se para o estudo de Letras e eu, para o de História. Ela passou a lecionar na mesma escola que nos formou e eu começava a carreira em um colégio estadual de Dois Irmãos. Mais tarde, fui para o noviciado jesuítico em Cascavel (PR), e ela me escrevia toda semana.

Minha irmã era zelosa com datas e fidelíssima em enviar caixas com pequenos presentes: cartões, cadernos (ambos amamos material escolar), bolachinhas, cheirinhos de ambiente...

Rose se uniu a Adão Abel Hans. Toquei a marcha nupcial no casamento deles. Foi a única noiva pontual da minha experiência de vida. Era (e é) ansiosa com horários, como eu.

Mudei-me para São Paulo, e lá me alcançavam as cartas, as caixinhas com mimos nas datas comemorativas e um afeto constante que fazia dela alguém que se dispunha a sacrifícios para me visitar, acompanhada do Adão.

O afeto fraternal é incrível. Ela torce por mim sem restrições e se alegra com cada conquista. Chorou ao saber que eu havia concluído com distinção e louvor o doutorado na USP; alegrou-se sobremaneira quando ingressei na Unicamp. Publicamos um livro juntos: Conversas com um Jovem Professor.

Meus pais envelheceram. Dr. Renato nunca disfarçou a preferência declarada pela minha irmã. Cuidamos de ambos e organizamos todos os Natais e festas de Réveillon por muitos anos. Meu pai foi ficando alheio ao mundo, mas seu rosto se iluminava quando minha irmã aparecia. Minha mãe nunca precisou se preocupar com as comemorações de fim de ano: tudo seria resolvido pelos filhos.

Viajamos juntos algumas vezes pelo Brasil e pelo exterior. Rose sempre foi a companheira ideal de jornada: disposição para andar quilômetros, fôlego para infinitos museus, curiosidade para experimentar comidas, acordando cedo e nunca reclamando. Ela completou 50 anos no meio de um trajeto entre Roma e Paris.

Nossa mãe decifrava bem almas e dizia que minha irmã era “puro coração”. A opinião não é apenas familiar: todos os colegas e alunos, vizinhos e parentes compartilham o axioma. Rose é uma pessoa otimista, solidária, sociável e sempre disposta a atender quem necessita.

Acompanhei cada passo dela, seus medos, suas lágrimas e suas conquistas. Em momentos angustiantes, e de forma inexplicável, um sabe que o outro está em perigo e liga. É algo que foge ao racional. Nossas conversas sempre foram longas e marcadas por uma cumplicidade extraordinária. Nós nos ajudamos em muitas ocasiões. Um se alegra com o outro a cada sorriso.

Dia 16 de outubro, festa de Santa Edwiges (padroeira dos endividados), ela nasceu. Por mistérios burocráticos, foi registrada a 19 de outubro, dia em que os documentos e os de fora da família celebram sua vida. Hoje sou muito grato a você, minha alma gêmea, minha amiga, minha irmã. Minha vida brilha com sua presença, e considero sua vida uma dádiva generosa e única. Se o mundo todo me abandonasse, tenho certeza, eu veria o vulto da Rose sorrindo e dizendo sempre “estou aqui, sempre”. Obrigado por ser minha esperança permanente, minha rosa eterna. Feliz aniversário, Rose!

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