Dificuldades
Associações ganham força na defesa dos fornecedores de cana
Asplana, Asprovac e Asprovales ampliam atuação técnica e política em meio à crise do setor sucroenergético
A crise enfrentada pelos fornecedores de cana em Alagoas tem reforçado o papel das associações do setor. Em um momento marcado pela queda no preço da cana, aumento dos custos de produção e dificuldades de caixa no campo, entidades como Asplana, Asprovac e Asprovales passaram a atuar com mais intensidade, tanto na assistência ao produtor quanto na articulação política.
O tema foi discutido em uma edição especial do programa Fala Líder, apresentado pelo jornalista Edivaldo Junior, durante o Simpósio da Agroindústria da Cana-de-Açúcar de Alagoas, realizado no Centro de Convenções de Maceió.
Participaram da entrevista o presidente da Asplana, Edgar Filho; o vice-presidente da Asprovac, Aloísio César Mesquita; e o vice-presidente da Asprovales, João Augusto de Castro Silva Filho. A conversa mostrou que, embora as entidades tenham origens e áreas de atuação distintas, trabalham hoje em torno de uma pauta comum: garantir condições para que o fornecedor, especialmente o pequeno produtor, permaneça na atividade.
ASPLANA: TRADIÇÃO E ARTICULAÇÃO POLÍTICA
Com 84 anos de atuação, a Asplana é a entidade mais tradicional na representação dos fornecedores de cana em Alagoas. Durante o programa, Edgar Filho destacou que a associação tem exercido papel importante na articulação política do setor, especialmente na construção do movimento que resultou na assinatura da Medida Provisória da subvenção federal.
A MP assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva prevê R$ 300 milhões para os fornecedores de cana do Nordeste, com pagamento de R$ 12 por tonelada produzida. Em Alagoas, a estimativa é de que o benefício alcance cerca de R$ 96 milhões, considerando pouco mais de 8 milhões de toneladas de cana entregues por fornecedores independentes e cooperados na safra 2025/2026.
A Medida Provisória nº 1.374 busca amparar cerca de 17 mil produtores independentes da região Nordeste impactados pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos e por eventos climáticos extremos. O auxílio financeiro tem como objetivo mitigar as perdas da safra e contribuir para a preservação da renda e dos empregos no setor sucroenergético.
Segundo Edgar Filho, a união das entidades foi decisiva para que a pauta avançasse em Brasília. “Na hora da crise, todo mundo tem que vestir o mesmo uniforme, que é o uniforme do produtor de cana”, afirmou.
Ele citou a participação da Asprovac, da Asprovales, da Faeal, da Unida e da Feplana no esforço coletivo. Também destacou o papel do senador Renan Filho, do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e do presidente da Unida, Pedro Neto, nas articulações junto ao governo federal.
Para Edgar Filho, a subvenção não resolve todos os problemas do setor, mas chega em um momento importante para permitir que o produtor compre insumos, realize os tratos culturais e mantenha o canavial em condições de recuperação.
ASPROVAC: ASSISTÊNCIA TÉCNICA E ORGANIZAÇÃO REGIONAL
Criada em 2002, no Vale do Coruripe, a Asprovac ampliou sua atuação e hoje representa produtores de diferentes regiões de Alagoas e também de Sergipe. Segundo Aloísio César Mesquita, a entidade reúne mais de 400 associados, com mais de 1,2 milhão de toneladas de cana vinculadas diretamente e representação próxima de 3 milhões de toneladas.
O perfil dos associados ajuda a dimensionar a importância da entidade. Mais de 90% são pequenos fornecedores e 28% são mulheres. A Asprovac atua com assistência técnica, disponibilização de máquinas, apoio em campo e parcerias com o Senar e usinas da região.
Aloísio também destacou a participação da entidade no Consecana, onde a Asprovac passou a atuar de forma mais próxima nas discussões sobre o preço da cana. Segundo ele, o produtor não pode olhar apenas “da porteira para dentro” — precisa acompanhar também as decisões políticas, tributárias e institucionais que afetam diretamente sua renda.
Para o vice-presidente da Asprovac, a subvenção é resultado direto da existência de entidades fortes. “Se tem subvenção, se tem ajuda do governo, isso se dá porque existem entidades”, afirmou.
ASPROVALES: COOPERATIVISMO E GESTÃO NO CAMPO
A Asprovales nasceu em 1994 para organizar os fornecedores dos vales do Mundaú e Paraíba. Começou com 32 fundadores e hoje reúne 279 associados de diferentes portes, sendo cerca de 80% pequenos e médios produtores.
João Augusto de Castro Silva Filho explicou que a entidade iniciou sua atuação na organização da logística da safra e, posteriormente, ampliou o trabalho para assistência técnica, consultoria, compras de implementos e representação política dos associados.
A experiência da Asprovales também está ligada à criação da Coopervales Agroindustrial, que surgiu a partir da organização dos fornecedores e assumiu a antiga Usina Uruba. O caso é considerado uma referência de cooperativismo no setor canavieiro alagoano.
Na área técnica, a entidade atua com análise de solo, orientação para aplicação de calcário e nutrientes, uso de softwares e acompanhamento dos tratos culturais. Para João Augusto, esse suporte é essencial em um momento em que o produtor enfrenta queda de preços, irregularidade climática e aumento dos custos de produção.
Ele lembrou que o fornecedor é o elo mais vulnerável da cadeia porque não controla o preço da commodity. “A gente não controla preço. Trabalha com commodity. Então é o mercado que manda nos nossos preços”, afirmou.
ASSOCIAÇÃO COMO INSTRUMENTO DE SOBREVIVÊNCIA
A crise da safra 2025/2026 mostrou que o fornecedor isolado tem pouca força. O produtor enfrenta preços baixos, custos elevados, instabilidade climática e dificuldade de acesso ao crédito. Sem organização, tende a ficar ainda mais vulnerável.
Com o apoio das associações, o cenário muda. O produtor passa a contar com assistência técnica, representação política, acesso à informação, participação nos debates sobre preços, apoio em negociações e maior capacidade de dialogar com o governo estadual, o Congresso Nacional e o governo federal.
A subvenção federal de R$ 300 milhões é o exemplo mais recente desse movimento. Embora não elimine as perdas acumuladas pelo setor, demonstra que a organização dos fornecedores pode produzir resultados concretos.
Em Alagoas, Asplana, Asprovac e Asprovales têm perfis distintos, mas desempenham papéis complementares. Uma atua com a força da tradição e da articulação política; outra fortalece a assistência técnica e a organização regional; e a terceira demonstra a importância do cooperativismo e da gestão no campo.
A principal mensagem do Fala Líder foi que, para enfrentar a crise, o fornecedor precisa participar mais, cobrar mais, contribuir mais e fortalecer suas entidades. Sozinho, é o elo mais frágil da cadeia. Organizado, amplia sua capacidade de representação e defesa dos interesses do setor.